Amigos, vamos acompanhar minha mãe em mais um dia de viagem a Ouro Preto? Bons momentos garantidos.

Vamos, pois, a Ouro Preto.

Mas, antes de iniciarmos nosso caminhar, gostaria de dar uma dica a você que me dá a honra de ler este post e para aqueles que desejarem apreciar melhor esta viagem. Mergulhe em sua memória e lembre-se de suas aulas de história e literatura. Se você, assim como eu, tiver um pequeno problema com a memória, existe uma bibliografia que vale muito a pena ser consultada antes da sua partida. Em minha opinião, é imprescindível ler, por exemplo, O Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Ache um tempinho em sua agenda para essa leitura, Ouro Preto fará muito mais sentido.

“À luz de velas acesas,
Entre sigilo e espionagem,
Acontece a Inconfidência.
(…)
Liberdade, Ainda Que Tarde,
Ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
E sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
Já são réus – pois se atreveram
A falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).
(…)
Liberdade – essa palavra
Que o sonho humano alimenta:
Que não há ninguém que explique,
E ninguém que não entenda!

E a vizinhança não dorme:
Murmura, imagina, inventa.
Não fica a bandeira escrita,
Mas fica escrita a sentença.”
– Cecília Meireles

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Bem, após uma bela noite de descanso, por exemplo, no Grande Hotel Ouro Preto, com todo seu charme dos anos 40, caminhemos. Nosso roteiro de hoje nos levará a dois tesouros nacionais. Mas antes, uma palavrinha.

Bandeirantes paulistas foram em busca de riquezas e, por elas, criaram vilas e cidades. Ouro Preto, que surgiu por suas riquezas minerais, teve sua fundação alicerçada em duas pequenas vilas: Antonio Dias e Pilar, separadas pelo Morro de Santa Quitéria. E nessas vilas foram construídas duas das mais belas matrizes do Brasil. Isso mesmo que você leu, Ouro Preto possuiu duas matrizes: a Matriz Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias e a Matriz de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto. Ainda hoje se observa a rivalidade entre as duas. Rivalidade esta que remonta a época da Guerra dos Emboabas. Se por um lado temos a matriz dos paulistas em Antonio Dias, por outro o Pilar representa a saga portuguesa. Em minha opinião, só a visita a esses dois monumentos já vale a nossa viagem!

Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias

Um dos maiores templos de Ouro Preto, a Matriz de Antonio Dias e recentemente elevada a Santuário, foi construída a partir de 1727, no mesmo terreno onde fora erguida uma pequena capela no séc. XVII. Mandada construir pelo bandeirante Antonio Dias de Oliveira, natural de Taubaté, e feita pelo notável Mestre de Obras Reais Manuel Francisco Lisboa. Apresenta dois sólidos retângulos, planta típica dos primeiros quartéis dos setecentos, envolvendo nave central, capela-mor, corredores laterais, sacristia e consistório.

São oito os altares laterais, feitos entre 1725 e 1735, apresentam talha exuberante com grande riqueza de douramento e de elementos fitomórficos e zoomórficos. O primeiro altar lateral (situado a direita de quem entra no santuário) é dedicado a Nossa Senhora da Boa Morte, aos seus pés repousam os restos mortais de um dos maiores nomes do Brasil, Mestre Antonio Francisco Lisboa, por alcunha Aleijadinho. Reserve um momento para observar atentamente esse cantinho sagrado do sonho nacional, vale a pena, pense em tudo o que esse mulato fez por este país, ele merece seu momento de contemplação.

Vamos, aproxime-se do altar-mor, não se acanhe, a antiga Matriz se sente honrada com a sua visita… Observe o assoalho de toda a igreja, percebe os retângulos numerados? Eram os locais onde membros das irmandades eram sepultados, quanto mais rico e poderoso mais próximo do altar-mor. Mas não fique apreensivo, D. Pedro II, em um século futuro ordenou a retirada de todas as ossadas. Hoje só restam as lembranças desses sepultamentos. E o mais famoso deles, entre os tantos que a antiga Vila Rica presenciou, foi, sem dúvida, o velório e sepultamento da Srtª. Maria Dorotéia Joaquina de Seixas (a famosa jovem que inspirou um dos mais belos livros escritos em língua portuguesa em todos os tempos – Marília de Dirceu – de autoria de Tomás Antonio Gonzaga).

Observe a igreja em seus detalhes, olhe, caminhe, volte, olhe por outro ângulo, você se surpreenderá com um novo detalhe em cada novo olhar. O barroco nos pede essa atitude, e essa é uma das jóias do barroco mineiro.

Aproveite a oportunidade e se dirija para a antiga sacristia onde funciona desde 1968 o Museu Aleijadinho. O museu passou, em 2007, por uma completa revitalização museológica e museográfica em uma parceria do governo de Minas e a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (FRESS) de Portugal. Hoje ele funciona em um Circuito que abrange três igrejas históricas de Ouro Preto: Igreja de São Francisco de Assis e Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões, já no Santuário estão as salas do Museu: Refulgência, Festas Religiosas, Arte na Talha, Mini-auditório, Sala Multivisão e Sala da Encenação da Morte. Ao visitar o museu preste atenção em uma peça de São Francisco de Paula de autoria do Mestre Lisboa. Depois que fixar seus olhos nos olhos do Santo, duvido que não saia pelo menos intrigado… em certos momentos eu posso jurar que o Santo parecia olhar para mim.

Bem, nossa manhã já corre alta, que tal iniciarmos nosso trajeto para a visita à Matriz do Pilar e no caminho pararmos para reabastecer nossas energias com uma belíssima refeição? Eu recomendo que essa refeição seja apreciada no Restaurante Chafariz (Rua São José, nº 167 – Centro), situado na casa onde viveu o poeta Alphonsus de Guimarães, o local é uma atração à parte. A comida mineira é preparada com muito carinho e esmero e mantida quente em panelas de pedra e em um belo fogão a lenha. Dê-se ao luxo de uma refeição com tranqüilidade. Se você é um apreciador das coisas brasileiras, aceite uma dose de cachaça mineira que os garçons certamente lhe oferecerão. Não fique constrangido. Prove, aprove e aproveite dessa bela refeição, nosso caminhar gastará todas as calorias que você, por ventura, acumular.

Fortalecido pela deliciosa refeição e aquecido pela cachaça e pelo licor de jabuticaba, retomemos nosso caminhar. Vamos seguir pela Rua São José até a Rua da Escadinha. Não se assuste! A escadaria lá está para facilitar a nossa descida. Encaminhemo-nos para o Pilar.

matriz do pilar

Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto

Prenda a respiração, você está prestes a vivenciar uma das mais belas experiências de sua vida. Abra os olhos e adentre ao templo. Mas deixe lá fora tudo o que você imaginava conhecer. Pilar, com seus 450 quilos de ouro, irá lhe capturar pelo olhar.

Sua construção teve início em 1723, planta atribuída ao arquiteto Pedro Gomes Chaves e executada por Francisco Xavier de Brito – mestre do Mestre Lisboa. A nave central é ladeada por seis altares laterais. Fique atento aos altares do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores, imagens usadas até hoje na Procissão do Encontro que acontece na Semana Santa. Eles são de impressionar! Não deixe de admirar também os dois anjos atlantes que seguram as colunas no altar-mor, são os mais belos exemplares de Ouro Preto.

Observe, olhe, caminhe, sente-se próximo ao altar-mor. Volte-se para a parede onde se encontra o óculo, ele não somente ilumina mas também direciona a luz para o sacrário. Marca a transição do profano para o sagrado.

Ainda nas dependências do Pilar, você poderá visitar o Museu da Prata onde observará imagens e objetos religiosos feitos em prata, um verdadeiro tesouro. Não podemos nos esquecer que o Brasil colônia tinha muito ouro, mas a prata era trazida da Espanha (embora fosse extraída no Peru), o que a tornava muito cara e, portanto, um símbolo de riqueza e poder. Observe também os paramentos, todos bordados a fios de ouro.

Olhou? Absorveu a grandiosidade desse local, com suas riquezas artísticas e arquitetônicas? Ficou impressionado? Eu sempre fico e a cada visita me permito absorver um detalhe que eu ainda não havia notado. Essa visita é uma experiência que transcende as palavras.

Bem, acho que tivemos um dia proveitoso. Saia do templo com cuidado. Não se esqueça de se despedir do senhor que fica à porta, ele toma conta desse tesouro e ficará feliz em saber que você apreciou sua visita.

Estás cansado? Vamos subir a Rua da Escadinha, mas suba em seu ritmo e de uma forma constante, assim ficará mais fácil. Temos tempo antes do jantar. O que faremos? Bem… isso já é história para outro post.

nossa senhora das merces e perdoes

Igreja Nossa Senhora das Merces e Perdões

matriz nossa senhora da conceicao

Matriz Nossa Senhora da Conceição

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    6 Comentários
  1. Fotos lindas!!! Deu uma saudade de Ouro Preto… 😉

  2. Delícia de viagem. Há tanto tempo tenho falado que gostaria muito de voltar pra lá. Pena que nunca consigo.
    Agradecimentos à Mamãe pelo relato. Bjks

  3. Eu ainda preciso dar outra chance a Ouro Preto. Estive lá duas vezes, mas em ambas foi tudo muito corrido, no fim de semana e em dias muito quentes… Não caminhei sem pressa, não parei pra admirar as construções, e olha que eu adoro cidades históricas! Em uma das idas a BH vou esticar até Ouro Preto mais uma vez. 🙂

  4. Nat, em primeiro lugar, gostaria de registrar o meu obrigada pela oportunidade de expressar meu amor por Ouro Preto.
    Gostaria de deixar aqui também os meus agradecimentos pela reacão gentil que meus textos tem provocado nos leitores.
    E para a Camila deixo um recadinho. Dê sim uma nova chance a Ouro Preto, a cidade merece. E espero que você se apaixone por ela.
    Bjssss
    Sônia

  5. Ouro Preto é tudo de bom! As fotos e o relato de sua mãe estão ótimos!
    Bjs

  6. Olá Fred e Nat!
    Adorei o blog, parabéns. vejo que voçês se interessam pelo Brasil e sabem relatar muito bem como se sentem quando vçao a qualquer parte do vosso país, adorei!
    Já ouviram falar de minube? Pois bem, tenho uma proposta a fazer-vos em nome de minube. Por favor entrem em contacto comigo, catarina@minube.com.
    Obrigada,
    Catarina

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