A pousada Uacari está a 1h30 de lancha da cidadezinha mais próxima. Não tem internet, nem celular, nem televisão, e a energia elétrica (gerada por paineis solares) não pode ser desperdiçada com bobagens. O café da manhã é servido às 7h e os dias são longos.

É bem normal que você se pergunte: o que diabos se faz em um lugar assim?

Muitas coisas.

A atividade principal, claro, é observar a natureza. Diariamente acontecem passeios por trilhas na floresta ou pelos rios, inclusive à noite. Também tem visita a alguma comunidade local e a um posto de pesquisa na reserva.

Todos os passeios são acompanhados de pelo menos um guia morador da região e alguns têm também a companhia de um guia naturalista para tirar eventuais dúvidas técnicas.

O esquema é quase sempre o mesmo: uma atividade bem cedo (7h30), volta para a pousada, almoço, descanso no auge do calor, outra atividade à tarde, volta para a pousada, jantar, uma atividade noturna.

As atividades são programadas de acordo com o tempo que cada grupo de hóspedes vai ficar. Como eu estava em um grupo que ficaria 4 noites, nossa rotina foi dividida deste jeito aí embaixo.

Primeiro dia

Chegamos na pousada por volta das 14h. Fomos recebidos por toda a equipe, que deu uma explicação sobre o funcionamento e a segurança do local, nos mostrou os quartos e marcou nosso primeiro passeio para as 15h30, nos dando um tempo para descansar.

Até aquele momento, qualquer pirarucu pulando na água ou jacaré avistado era uma festa entre os recém-chegados. Mal sabíamos que aquelas cenas se repetiriam infinitésimas milhões de vezes até o dia de ir embora.

No horário marcado, o barco estava esperando para nos levar ao início da Trilha Interpretativa. É o primeiro contato real com a natureza amazônica e é absurdamente impressionante. A trilha tem mais ou menos 1km de extensão e é percorrida com várias paradas para explicações sobre a floresta e também para algumas histórias sobre a vida por lá.

O passeio foi até quase o pôr do sol, quando voltamos para a pousada com os queixos arrastando no chão pelo cansaço (o calor era forte) e pelo desbunde da floresta.

À noite, depois do jantar, rolou uma apresentação mais aprofundada sobre a reserva e  o relógio não marcava nem 21 horas quando eu já estava na cama. Foi quando começou outro primeiro contato emocionante com a natureza: a vida selvagem noturna.

As cabanas da pousada Uacari são inteiramente teladas. Então, se você não mongolear deixando alguma porta ou janela aberta, não tem perigo nenhum de ser sacrificado por insetos ou coisas maiores. Claro que uma lagartixa ou um sapinho sempre passam pelas frestas, mas, francamente, se você tem medo disso, não deveria nem ter ido para a Amazônia.

Enquanto tudo está calmo dentro do seu quarto, do lado de fora a festa corre solta e você acompanha a movimentação pelos sons. A sensação que se tem é a de estar dormindo dentro de um aquário, tamanha a quantidade de peixes pulando e jacarés caçando, além de grilos, pássaros e tudo mais.

No início você estranha e acorda muitas vezes durante a noite, mas depois se acostuma e passa a gostar daquela zoeira toda.

Segundo dia

Você acorda jurando que está no meio de um furacão na Amazônia. O barulho do vento é enorme, mas, estranhamente, você não sente a brisa. Durante o café, você descobre: aquele som que parece um vendaval é produzido pelos macacos guariba. Todas as manhãs, eles urram aos montes e a união de todos os urros soa igualzinha ao vento. É lindo e divertido.

Às 7h30, o barco está pronto de novo. O destino agora é uma das comunidades de Mamirauá para vermos como o bicho homem vive no meio daquela natureza toda.

Durante o trajeto de barco, começamos a perceber que os jacarés estão para Mamirauá como os cachorros estão para uma fazenda. As águas são infestadas de olhinhos amarelos.

As comunidades têm um rodízio de visitação, para que todas sejam estimuladas e também se beneficiem da venda de artesanato para os turistas. A escolhida na nossa vez é chamada de Vila Alencar e fica distante 40 minutos da margem do rio, o que exige mais uma boa caminhada no meio do mato.

Foi justamente durante este trajeto que eu consegui ver o personagem principal da reserva, cujo nome batizou a própria pousada: o macaco uacari.

Não, a foto acima infelizmente não é minha. Eu só vi o uacari meio de revesgueio, porque o bicho nos enxergou e saiu pulando para longe. Mas consegui notar a cara vermelha e o corpo branco. Foi emocionante de qualquer forma.

Chegando em Vila Alencar, fomos recebidos pela líder local. As comunidades, apesar de pequenas, são muito bem organizadas e têm um “presidente” que serve de porta-voz para eventuais demandas do povo.

Ela nos mostrou a escola (que tem aulas à distância, por internet, já que ali tem luz, celular e internet) e explicou como é a vida deles. Explicou também que o rio, apesar de beeem longe das casas naquela época, sobe até lá em cima durante a cheia, obrigando todos ao uso dos barcos. Até os animais (gado e aves) são confinados em cercados flutuantes. Incrível.

Depois de voltar para a pousada, almoçar e descansar, chegou a hora da atividade que eu mais gostei. Foi o passeio de canoa.

Ao contrário da lancha, que tem motor (óbvio, se não não seria uma lancha), a canoa é movida a remo. E como o grupo é dividido em 3 canoas (com um guia e apenas dois passageiros), o silêncio é praticamente total. Você só escuta a natureza.

Com toda aquela paz (meu Deus, que saudades!) é mais fácil ver os animais e até chegar perto deles. Os macacos e pássaros não se assustam e dão shows nas árvores (leve binóculos!). Os peixes pulam junto à canoa, às vezes nos dando banhos, e os jacarés nos encaram ainda mais de perto.

Sério: este passeio é o mais inesquecível de todos.

Com o sol escondido no horizonte, voltamos para jantar e fazer o passeio que mais mete medo no pessoal: a caminhada noturna, a mais propícia a enxergar cobras e aranhas.

Não demos sorte. Não vimos nem um bichinho peçonhento. Mas a caminhada rápida (20-30 minutos) pelo mato fechado no meio da escuridão também foi emocionante, ainda mais quando o guia pediu para todos apagarem as lanternas e fazerem silêncio. Foi quando o impossível aconteceu: percebemos que aquela barulheira que escutamos à noite na pousada não é nada comparada ao que se escuta no meio da floresta. São tantos sons que fica difícil separar um do outro.

Terceiro dia

Às 7h30 da manhã, outra saída matutina. Desta vez, o princípio do passeio de canoa (silêncio + paz) é aplicado ao trekking e o grupo é dividido. A intenção é diminuir o número de pessoas para aumentar as chances de avistar animais. Um grupo vai para um lado, enquanto o outro segue em sentido oposto.

A passos leves e sem dar um pio, conseguimos ficar no meio de uma multidão de macacos-prego e outra de macacos-de-cheiro. Também escutamos os guaribas urrando bem perto, mas sem conseguir ver a zorra que faziam.

À tarde, no mesmo horário de sempre, a saída para outro passeio top no meu ranking. Entramos no barco e saímos para ver o pôr do sol no lago Mamirauá, exatamente o que deu o nome à reserva.

No caminho, muitas paradas para ver mais bichos e gastar o dedo fazendo cliques na câmera. Quando chegamos no lago, Moraes, um dos guias locais, fez um discurso emocionado e patriótico sobre como eles amam aquela reserva e como aquilo precisa ser preservado. Mereceu e ganhou aplausos.

Com o sol se pondo e as lanternas sendo ligadas, começaram a pipocar olhos de jacarés brilhando pelo lago. Moraes apontava seu holofote para as margens e só o que víamos era uma infinidade de pontos vermelhos.

Voltamos para a pousada sob o clarão da lua (que nem estava cheia), com pequenos peixes pulando para dentro do barco e a mulherada berrando a cada susto.

Aquela noite era livre e aproveitamos para conversar muito com nossos colegas turistas (um casal alemão em lua de mel e um pai e uma filha suecos).

Quarto dia

A programação matinal indicava outro trekking pela floresta, mas eu e minha mulher decidimos ficar descansando um pouco. Acabamos percebendo que isso também é uma boa forma de avistar animais, porque a pousada em silêncio é visitada por muitas aves. Foram mais alguns momentos de paz total e muitas fotos, com direito a banho na piscina natural da pousada, devidamente cercada para evitar predadores. Maravilhoso.

À tarde, fomos para o último passeio da nossa estadia – e certamente o mais triste. Visitamos o pessoal que trabalha no Projeto Boto e vive em uma casa flutuante a 35 minutos de barco da pousada.

Elas (atualmente são só mulheres no grupo) nos mostraram o trabalho e explicaram como e por que os humanos matam estes bichos (é bizarro, não queira saber), além da dificuldade para combater tudo isso. Os gringos, que até então estavam maravilhados com o Brasil, finalmente entenderam que a gente ainda não é tudo aquilo que dizem lá fora.

Saímos de lá em direção a um local onde é mais fácil avistar os animais. De repente, alguém deu um grito dizendo que viu um e, a partir daí, foram muitos.

Botos rosas e cinzas (estes chamados de Tucuxi) pulavam por todos os lados. Infelizmente não deu para fazer nenhuma foto, porque nunca se sabe onde o boto vai dar o ar da sua graça, mas as imagens que ficaram na cabeça são inesquecíveis.

Nos emocionamos tanto que perdemos a hora e chegamos na pousada já no escuro total. Jantamos e assistimos a um documentário da BBC sobre a Amazônia. Depois fomos para nossos quartos suspirando de saudades antecipadas.

Era nossa última noite no meio de toda aquela barulheira fantástica de Mamirauá.

Quinto dia

Tive a nítida impressão de que todos acordadam mais cedo do que nos outros dias, querendo aproveitar os últimos momentos no paraíso. Arrumamos nossas mochilas, tomamos nosso café e nos despedimos de toda aquela equipe incrível. Ainda relutando, embarcamos e voltamos para Tefé que, apesar de ter apenas 60 mil habitantes, parecia uma metrópole para quem havia passado 4 dias no meio do nada.

Então acabou Mamirauá.

Este roteiro é para quem fica 4 noites. Para quem fica 3 ou 7, atividades são cortadas ou acrescentadas. Quem fica no pacote mais longo, por exemplo, pode passar uma noite em uma cabana alta e isolada no meio da floresta, sem luz e dormindo em rede, para escutar melhor os barulhos dos bichos.

As atividades também mudam um pouco durante a época de cheia dos rios, de abril a agosto (veja, abaixo, até onde a água chega).

Como não existe terra firme, é impossível fazer caminhadas, então os passeios são sempre de canoa – o que é perfeito para quem tem problemas para caminhar ou é preguiçoso mesmo.

O ideal é fazer pelo menos duas viagens a Mamirauá, uma na seca e outra na cheia. A paisagem e a fauna mudam muito entre uma estação e outra, fazendo com que alguns animais sejam mais ou menos encontrados em cada uma delas. Exemplos:

– Na seca, você vê muito mais jacarés e piranhas. Como a água fica escassa, eles se concentram mais. Consequentemente, eles se espalham na abundância de água na cheia e dá até para tomar banho no rio onde fica a pousada.

– Na cheia é mais fácil de ver botos e peixes-boi (estes últimos eu não consegui ver), que fogem para os rios maiores durante a seca.

Claro que nada é garantido, afinal tudo ali depende da natureza. Ou, como brincou um dos guias: “Os bichos não estão amarrados nas árvores, então não dá para prometer que vão aparecer”.

Não importa. Eu já estou louco para voltar na cheia.

Post seguinte: Mamirauá na prática

Post anterior: Ma-mi-ra-uá


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    10 Comentários
  1. Adorei o post! parabens! as fotos estao lindas, tb!
    Estive recentemente visitando o Pantanal, que tambem se assemelha em duas coisas: a diferenca da natureza e da fauna nas estacoes seca e cheia, e na quantidade de jacares em tudo quanto e lado! Se a riqueza de la ja era algo impressionante, serviu ainda para aumentar a vontade de conhecer a Amazonia, um sonho antigo!
    uma pergunta: como foi encontrar essa pousada por la? Digo, como foi para chegar, os contatos deles…

    E so tinha vcs de turistas brasileiros por la? Normalmente a maioria e de estrangeiros? Tive essa sensacao no Pantanal tb. O que e uma pena, a gente nao conhece nossos proprios tesouros…

  2. Gabi,adorei esta “viagem” que dividistes com teus leitores. Consegui sentir a emoção que tu deves ter sentido. Parabens! Vamos ver se conseguimos ir junto “na cheia”.

  3. Oi, Clarissa! Depois vou fazer um último post com todas as informações práticas para visitar Mamirauá. Mas, adiantando a resposta, o site da pousada tem o e-mail de contato. O pessoal lá te ajuda em tudo e tem informações completas sobre barcos e voos. Tem até indicações de pousadas em Tefé se tu precisar passar uma noite por lá. É bem fácil.

    Sobre os turistas, sim, infelizmente vão poucos brasileiros. Segundo me disseram, a relação é 75/25. No meu período por lá, eu e minha mulher éramos os únicos nativos, sim. Os outros 4 eram europeus.

    Minha intenção com estes posts é justamente mostrar essa alternativa para os brasileiros. Inclusive já liberei o uso total das minhas fotos para materiais da reserva e da pousada. Quem quiser divulgar, é só mandar ver. =)

  4. Que beleza, tchê!

  5. Já falei no outro post e repito: as fotos estão DIVINAS. E uma das minhas grandes lembranças da Amazônia também vai por aí: dias loooooongos, cheios de aventura (e eu na cama muito mais cedo que meu habitual horário boêmio :-D)

  6. Absolutamente fantástico… Temos tantas coisas para conhecer no Brasil.. Uma pena que não valorizamos o q temos e acabamos indo longe buscar o que poderiamos encontrar no quintal de casa..

  7. Pra fins eleitorais, consideram (pelo menos os candidatos) que Tefé tem 80 mil habitantes, já. Uau, hahaha….

  8. amei o post!! gabriel, vc sabe como faço para viajar indo sozinha? pois está dificil de fechar pacotes.

    • =) Obrigado, Camila!
      Não entendi a sua dificuldade? Você não conseguiu entrar em contato com o pessoal da pousada?

  9. Estava super animada e agora lendo a sua experiência estou contando os dias para a minha viagem! Um abraço

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