Xingamentos entre os governos de Israel e Irã não são lá uma novidade. Mas, nos últimos meses, a coisa tem ficado beeem mais pesada, a ponto de analistas dizerem que a chance de guerra é a maior da última década.

Teto da mesquita Jameh, em Esfahan. Foto: HORIZON (CC BY-NC-ND 2.0)

Se as ameaças passarem para as vias de fato e a coisa degringolar feio, o mundo inteiro vai perder muito, é óbvio. Guerra é sempre ruim. Mas como este é um blog de viagens, vou apenas ao ponto que interessa aqui: o que o mundo turístico/cultural/histórico perde com um conflito no Irã?

Muito, muito, muito mais do que a maioria das pessoas imagina.

Como disse Shirin Ebadi, Nobel da Paz 2003, em uma entrevista à National Geographic em 2008, “o Irã é julgado pelo mundo a partir do que aconteceu no país nos últimos 30 anos (desde a Revolução Islâmica). Toda a história que veio antes é ignorada”.

Esta história esquecida tem, no mínimo, 2,5 mil anos.

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São 25 séculos de um povo vivendo em uma região do mundo que era ponto de passagem obrigatório para qualquer viajante que ia do Oriente ao Ocidente e, consequentemente, sempre foi também o ponto de encontro de zilhões de culturas diferentes.

São 2500 anos de um povo que já foi o maior império da Terra e que, no auge do poder, tomava conta de territórios onde hoje estão Afeganistão, Iraque, Paquistão, Turcomenistão, Turquia, Jordânia, Chipre, Uzbequistão, Tadjiquistão, Síria, Líbano, Israel, Egito e a região do Cáucaso, dominando 23 povos.

O Império Persa no seu auge

Uma pequeníssima parte do resultado desta miscelânea está nas atrações abaixo, que ainda podem ser vistas no país.

“Ainda.”

Esfahan (ou Isfahan)

É a maior joia persa e considerada uma das cidades mais lindas do mundo islâmico. Existe há mais de 1000 anos, mas foi no final dos 1500 que virou o desbunde que é até hoje.

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Fulvio’s photos (CC BY 2.0)

HORIZON (CC BY-NC-ND 2.0)

seier+seier (CC BY 2.0)

HORIZON (CC BY-NC-ND 2.0)

HORIZON (CC BY-NC-ND 2.0)

HORIZON (CC BY-NC-ND 2.0)

Esfahan entrou para a lista de Patrimônios da Humanidade em 1979, por causa da Praça Imam e tudo que está ao redor dela, e ficou famosa por suas mesquitas, pontes e por ser um lugar perfeito para passar alguns dias observando e vivendo a rotina iraniana.

Arad Mojtahedi (CC BY-SA 3.0)

brum d (CC BY-NC-SA 2.0)

twocentsworth (CC BY-NC-ND 2.0)

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Esfahan é comparada com Roma e Atenas, por sua importância cultural, arquitetônica e histórica, mas, infelizmente, também é a cidade onde fica uma das instalações nucleares que estão no alvo dos israelenses.

Persépolis

A cidade construída por Dario I nos anos 500 a.C. para ser a capital do império foi destruída por Alexandre (o Grande) anos depois e ficou escondida no deserto até os anos 1930. Quando reapareceu, mostrou preciosidades arqueológicas incríveis e se tornou a lembrança mais forte da identidade iraniana.

Elias Pirasteh (CC BY-NC-ND 2.0)

jzielcke (CC BY-NC-ND 2.0)

Arian Zwegers (CC BY 2.0)

Recovering Sick Soul (CC BY-NC-SA 2.0) / dynamosquito (CC BY-SA 2.0)

Dizem até que os líderes da Revolução Islâmica chegaram a pensar em destruir as ruínas de Persépolis, para evitar os vestígios do sucesso persa do passado, mas desistiram porque perceberam que aquilo faria todo o povo se voltar contra eles.

Também é Patrimônio da Humanidade desde 1979.

Pasárgada

Certamente você lembra deste nome por causa do poema de Manuel Bandeira. Pois o poeta se inspirou nesta cidade iraniana que existe (em ruínas) até hoje e é uma das relíquias mais importantes do país.

Sebastià Giralt (CC BY-NC-SA 2.0)

درفش کاویانی (CC BY-SA 3.0)

Truth Seeker (fawiki) (CC BY-SA 3.0)

Pasárgada fica a 50 quilômetros de Persépolis. Ela começou a ser construída ao redor de 550 a.C, por Ciro, o Grande, e foi a capital do primeiro grande império multicultural do Leste da Ásia, onde as tradições dos povos conquistados eram respeitadas.

Mas, apesar da importância, não foi totalmente completada porque Ciro morreu e seu filho transferiu a capital do império para outra cidade.

Hoje, as ruínas de Pasárgada são protegidas pela Unesco e lá está o que os arqueólogos acreditam ser a tumba de Ciro (visitada também por onde Alexandre, o Grande).

© Matthieu Paley/Corbis

Ah, sim: sabe aqueles jardins murados, com piscinas retangulares, canais internos e muitas plantas? Tipo os jardins do Taj Mahal e de Alhambra? Pois eles nasceram em Pasárgada. O nome daquilo é Jardim Persa.

dynamosquito (CC BY-SA 2.0)

Shiraz

Já foi a capital real, mas hoje é “apenas” a capital cultural da Pérsia.

Shiraz tem 2 mil anos de existência e é conhecida por alguns apelidos que indicam as características mais fortes dela: Casa do Aprendizado, Cidade das Rosas, Cidade do Amor e Cidade dos Jardins.

Emdadi (CC BY-NC-SA 2.0)

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dynamosquito (CC BY-SA 2.0)

dynamosquito (CC BY-SA 2.0)

dynamosquito (CC BY-SA 2.0)

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asoltani (CC BY-NC-ND 2.0)

Yazd

Ela não tem as maravilhas arquitetônicas das cidades anteriores, mesmo assim, Yazd está no roteiro de qualquer viagem pelo Irã. Pelo que li, a razão disso é o charme das suas cores e ruas, a estranheza das torres em cima das casas (chamadas de badgirs, uma espécie de ar-condicionado natural) e pelo estilo de vida dos moradores (mais conservadores).

ali reza_parsi (CC BY 2.0)

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Yazd também se diz ser a cidade mais antiga do mundo, mas isso é coisa para hoooras de discussão.

Entre todos as atrações locais, duas me chamaram mais a atenção:

1) Yazd tem a maior população zoroastrista do Irã. O zoroastrismo era a religião dos persas antes da invasão árabe que trouxe o islamismo. Muitas tradições antigas seguem nos dias de hoje.

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2) A apenas 60 km de Yazd fica o Caravanserai Zein-o-din. Que caraca é essa? Explico.

Lá pelos idos de 1600, o Xá Abbas I – o mesmo que construiu as maravilhas de Esfahan – mandou que fossem construídos 999 abrigos temporários pelo país (os caravanserais). A intenção era que estes abrigos alojassem os mercadores que passassem pelo país.

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Hoje, o Caravanserai Zein-o-Din é o único restaurado para ficar do jeito que era há 400 anos. E, sim, qualquer um pode se hospedar nele para saber como era ser um viajante da Rota da Seda.

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Abyaneh

Esta vilazinha, que segundo o Lonely Planet é “habitada por poucas velhinhas na maior parte do tempo”, tem 1500 anos, casas vermelhas e ruas calmas. Não precisa de mais nada.

JNM (CC BY-SA 3.0)

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Teerã

Qualquer viajante que já foi para lá diz que não se deve perder tempo com a capital do país. Não duvido. Mas não tem como evitar a curiosidade de passar por lá apenas para visitar o Museu de Arte Contemporânea de Teerã.

Zereshk (CC BY-SA 3.0)

É bem ali, na capital de um regime fundamentalista, que está nada menos que a maior coleção de arte ocidental fora dos Estados Unidos e da Europa.

Repetindo: é em Teerã que está a maior coleção de arte ocidental fora dos Estados Unidos e da Europa.

arash_rk (CC BY-NC-ND 2.0)

O museu tem preciosidades de artistas como Kandinsky, Monet, Picasso, Van Gogh, Lichtenstein, Miró e muitos outros.

Infelizmente, já faz um tempo que o regime mandou todos estes artistas para os porões do museu, bem acomodados e cuidados, porém longe dos olhos dos iranianos. Mas eles ainda estão lá, e isso é mais do que um bom motivo para que seja preservado.

Como eu disse lá em cima, estas são apenas algumas, as mais famosas, das atrações do Irã. Ainda existem muitas mais (só os Patrimônios da Humanidade são 13, além das atrações culturais que dificilmente vão acabar em uma guerra), mas já dá para você ter um gostinho do que todos nós podemos perder.

Ben Piven (CC BY-NC 2.0)

Em 2010, quando eu estava decidindo a minha viagem seguinte (que, infelizmente, ainda não saiu), um amigo me disse que eu deveria ir logo para o Irã, porque “em breve não daria mais”. Tomara que ele esteja muito errado.

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    12 Comentários
  1. Baita post meu velho. Me coçando há anos querendo conhecer o império Persa, mas é a típica viagem que sempre “deixo pra depois”…

  2. Excelente post!
    Intrigante como um país tão interessante passa despercebido por tanta gente. Certamente o regime fundamentalista não favorece uma imagem tão aberta ao turismo. Deu-me muita vontade de connhecer tudo isso de perto! Abcs.

  3. E quando vc vai para o Irã? =D queremos ler sobre as suas impressões diretamente de lá!

    • Tô tentando, Paola. Tô tentando. Infelizmente, não tá fácil. =/

  4. Parabens, Gabriel, vc garimpou lindas fotos! Morro de vontade de ir para o Irã

  5. Show de Bola!!!

    As fotos do Post são um espetáculo a parte… É uma pena que a raça humana não saiba conviver em paz com seus semelhantes.

  6. Belíssimo post. O link para o debate no ESP também é ótimo. Também existem badgirs em Dubai, acho que eles são usados em todo o Oriente Médio.

  7. Ai meu Deus!! Que coisa linda!!!! Quero ir agora

  8. Parabéns pelo seu bloque, pela sua cooperação para a manutenção da paz e pela promoção de um país que aos olhos dos outros é um “pária”. Seria possível vc me orientar como viajar ao Irã,o custo da viagem, o que é exigido pelas autoridades iranianas, se é livre o ir e vir dentro do país. Um grande abraço e que a paz e o progresso possam se estabelecer na região.

    • Oi, Robermar! Obrigado pelos elogios! =)
      Se tudo correr bem, vou poder orientar você a viajar pelo Irã depois de outubro, quando espero ter voltado de lá. Por enquanto, só posso indicar para você algumas leituras: o guia Lonely Planet Iran e o blog http://www.coordenadaxy.com. Abraço!

  9. Oi Gabe … boa noite, tudo bem?
    Eu e meu marido estamos querendo conhecer o Irã em janeiro de 2017 e quando achamos seu conteúdo desse país ficamos mais empolgados ainda. Seus posts são excelentes, estamos amando ler. Obrigada !!!
    Surgiu uma dúvida que não achamos em lugar nenhum e quando entrei aqui para procurar o post está dando erro – é sobre o trem que sai da Turquia e vai até o Irã – você fez esse trajeto? Qual época do ano que pode ser feito? Como temos que fazer? Vale a pena? Quanta pergunta né? Por ser um destino não muito explorado ainda então não tem muita informação sobre. Desde já agradeço. Obrigada! Fernanda Atala.

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