Você passa anos trabalhando feito uma mula para economizar dinheiro e poder fazer aquela famosa experiência de viver um tempo no exterior. Finalmente você embarca, encontra uma montanha de dificuldades culturais, sobrevive a todas elas e, um dia, retorna para casa.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Além de malas lotadas e um milhão de histórias para contar, existe uma coisa que você traz na bagagem mas às vezes nem nota: mais criatividade.

Pelo menos é isso que jura de pés juntos o artigo “Multicultural Experience Enhances Creativity: The When and How”, publicado pela American Psychological Association, em 2008. Nele são mostradas as conclusões das experiências que o Institut Européen d’Administration des Affaires (Insead) e a Northwestern University, de Chicago (EUA), fizeram com alguns de seus alunos de MBA.

Poupando sua cabeça do cientifiquês, vou direto aos resultados: em 5 estudos, os pesquisadores comprovaram que os alunos que haviam tido experiências no exterior tinham mais habilidade para resolver problemas. Mais do que isso, aqueles que haviam se jogado mais abertamente nas novas culturas eram ainda melhores na hora de pensar em soluções.

A explicação para isso é até simples.

Segundo os doutores, quem saiu da sua redoma e se viu no meio de hábitos e culturas diferentes daqueles com os quais cresceu acabou tendo contato com novas formas de encarar dilemas idênticos. Assim, aprendeu que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e, naturalmente, ficou mais criativo.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

O pessoal do Insead e da Northwestern University diz que essa abertura criativa só acontece com quem efetivamente vive um tempo fora da sua cultura, não para quem apenas viaja nas férias.

Porém, o artigo “Lessons from a Faraway land: The effect of spatial distance on creative cognition“, publicado em 2009, defende que mesmo os períodos mais curtos em contato com culturas estranhas nos ajudam a enxergar formas diferentes de resolver problemas.

Por este estudo, feito na Universidade de Indiana, foi concluído que basta um contato rápido com outro mundo (e às vezes apenas um contato imaginário) para que nosso cérebro se abra para soluções que não encontraríamos se estivéssemos no mesmo lugar de sempre. A distância de casa nos liberta de hábitos mentais e nos deixa mais criativos.

É praticamente o tal “pensar fora da caixa”.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Tudo muito bonito e interessante. Mas funciona fora dos laboratórios?

Comigo, sim. E muito.

Em 2001, quando voltei ao Brasil depois de um tempo vivendo fora, percebia que estava cheio de vontade de inventar coisas novas – e hoje arrisco dizer que os anos seguintes foram os mais criativos da minha vida. De lá para cá, tento não passar mais do que um ano sem ir para algum lugar diferente, justamente para renovar as ideias. O resultado na volta das férias é sempre o mesmo: minha cabeça fervilha e acabo fazendo algo novo na minha vida.

Quer um exemplo bem melhor do que um reles blogueiro pé-rapado? Toma: o designer megafodão Stefan Sagmeister também diz que funciona horrores e até palestrou sobre isso por aí (assista ao vídeo logo abaixo).

Já faz um tempo que Stefan decidiu fechar seu escritório de design por um a cada 7 anos. Neste período, ele se desliga totalmente dos compromissos profissionais e foge para algum lugar desconhecido. É quando entra em contato com novos desafios, hábitos e objetos que relaxam sua cabeça, inspiram e acabam rendendo ideias para mais 7 anos de trabalho.

E que ideias.

Stefan ainda garante que Ferran Adrià, um dos chefes de cozinha mais badalados do mundo, faz o mesmo a cada 7 meses para se inspirar e testar combinações novas para seus pratos. Parece que tem dado certo.

Outro defensor das viagens como forma de estimular as novas ideias é o sociólogo italiano e papa dos preguiçosos Domenico de Masi.

Na opinião deste tiozinho que se dedica a estudar a relação entre trabalho e lazer, “mudar de lugar estimula a criatividade”. E ele dá um exemplo forte como nenhum outro. Em seu livro O Ócio Criativo, Domenico é claro:

“Desde a sua primeira infância, Mozart não fez outra coisa a não ser girar pelo mundo, como um pião, dando concertos, visitando cortes, encontrando aqueles que lhe encomendavam obras. O fato é que cada viagem contribuiu para enriquecer e refinar o seu espírito musical, até fazer dele o grande gênio que todos conhecemos.”

São a ciência, a filosofia e a prática comprovando que viajar nos deixa mais criativos. Agora caminha e vai fazer seu passaporte.

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(Este artigo – bem como todo este blog – é liberado para reprodução, distribuição e transmissão sob as condições BY-NC-ND 3.0 do Creative Commons. Vai lá. Espalha. Agradeço.)

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    3 Comentários
  1. Bom, se estudos comprovam o que eu vivo, experimento e confirmo, só posso querer mais e mais. Viajar, sair da minha zona de conhecimento e conforto, e experimentar aquele “o que será que vem agora”, funcionam sempre como os melhores cremes rejuvenecedores, painkillers & e auxiliares no tratamento da insônia, fadiga etc… Basta tomar várias vezes ao ano!
    ..Visitando os blogs da rede, e conhecendo os blogueiros! E agora tenho que voltar várias vezes ao seu blog, né? mto bom”

  2. Muito bom este post. arrasou! E vamos sair pelo mundo 🙂

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