O mundo inteiro só soube da mineração no Chile depois daquele episódio de 2010, quando alguns homens foram soterrados, resgatados e tal.

Mas antes disso, em 2006, a atividade no país ganhou um reconhecimento internacional bem mais nobre.

Foi naquele ano que a Unesco incluiu a antiga cidade mineira de Sewell na lista de Patrimônios Históricos da Humanidade.

O motivo da inclusão? Sewell (que na pronúncia chilena vira SÚ-ÉL) é considerada um belo exemplo do que a Unesco chama de “cidades empresariais”, construídas por companhias para abrigar trabalhadores em lugares remotos do nosso planetinha – geralmente para explorar alguma riqueza natural da área.

No caso de Sewell, a companhia era uma mineradora americana, o lugar remoto eram as montanhas dos Andes (a 2 mil metros de altitude) e a riqueza natural era o cobre.

O investimento da companhia na extração do metal deu muito certo e continua até hoje. Mas o investimento na construção de uma cidade para seus funcionários foi ainda mais positivo.

Sewell em 1956

Sewell nasceu em 1905, mas só ganhou esse nome 10 anos depois, em homenagem a um dos donos da mineradora (que nunca pisou no Chile). Durou até os anos 70 e, nesse período, chegou a ter uma população de 15 mil pessoas e infraestrutura de aniquilar de inveja muitas cidades por aí.

Além de prédios com apartamentos equipados (mas sem luxos), ela tinha escola, teatro, cinema, praça, mercado, hospital, igreja, jornal (com direito a cartunista) e até um hotel para executivos da empresa em passagem por lá. A única coisa que faltava eram ruas: por ficar pendurada na montanha, Sewell era virada em escadas. Muitas escadas.

Com tudo isso e mais o isolamento geográfico e as regras ferrenhas que a companhia exigia dos moradores, não demorou para que Sewell virasse um paraíso andino.

Não havia problemas sociais na cidade, tudo era pago pela empresa (exceto comida e roupas), todos se conheciam e se respeitavam. Quem eventualmente saísse da linha era enviado de volta para Rancágua, a localidade mais próxima, onde o bicho pegava e sonho terminava.

A regra da “expulsão” valia até para as crianças. As mais medonhas precisavam ser controladas pelos pais, sob risco de toda a família ter que voltar para Rancágua ou, em casos de crianças maiores, ela voltar sozinha, direto para um colégio interno.

Nesse clima de paz, tranquilidade, prédios coloridos para animar a vida e sem ninguém querendo ir embora, a cidade foi o cenário de muitos encontros, casamentos e nascimentos de sewellinos, criando gerações de mineiros e funcionários da empresa americana.

Durante muito tempo, a única forma de chegar a Sewell era com o trem da companhia. Então a empresa construiu a primeira estrada de acesso e tudo mudou.

Com o caminho livre, não havia mais motivos para manter toda aquela estrutura perto das minas. Assim, a companhia transferiu a maioria dos moradores para Rancágua e investiu no transporte diário de todos até o trabalho.

Foi o fim de Sewell como cidade.

Hoje, a área preservada é muito pequena em relação ao que existia originalmente. A maior parte foi saqueada e destruída durante os anos em que tudo ficou abandonado – e o que sobrou só não teve o mesmo destino porque o governo chileno acordou a tempo.

Sewell hoje (All rights reserved by mitsubishimotorschile)

Mesmo com o reconhecimento gringo, muitos prédios não estão em boas condições. A Unesco está de olho e fazendo pressão para que tudo seja restaurado e preservado o mais rápido que der.

De qualquer maneira, visitar Sewell é um baita passeio para quem é curioso. Não é um paraíso. Mas já foi.

 

Onde fica Sewell?

Na região do cerro El Teniente, a um bom punhado de quilômetros de Rancágua (que, por sua vez, fica a 90 km de Santiago). A viagem inteira desde Santiago dura ao redor de duas horas.

Como se chega lá?

Exclusivamente em excursões. Não adianta chorar: não existe turismo independente para Sewell. A cidade fica localizada dentro de uma área privada dedicada à mineração e ativa 365 dias por ano, 24/7. Mineração é uma atividade perigosíssima, o que exige que todos ali se submetam a regras de segurança. Por isso todas as visitas são monitoradas e acompanhadas.

Mas existe perigo?

Viver é perigoso. Mas não, não tem nenhuma ameaça evidente nas áreas onde os turistas passam em Sewell.

Que empresas fazem essas excursões?

Dizem que existem por volta de 4 empresas, mas a única que me respondeu foi a VTS. Portanto, todas as informações abaixo se referem ao tour com ela.

Como eu contato a VTS?

Clicando aqui.

Quanto tempo dura o tour?

O dia inteiro, mas o período em Sewell é de apenas duas horas (o que é o suficiente).

O que se faz no tour?

Primeiro vem o trajeto Santiago-Sewell, feito em um ônibus bom e confortável. Em Sewell, o passeio é todo guiado, com visitas ao Museu da Mineração e a alguns prédios, além de caminhadas pelas escadarias. Tudo é muito bem explicado (até demais) e liberado para fotos. Depois, o tour segue para uma região lindíssima onde é servido um almoço (opcional). Após o almoço, é a hora de um pequeno passeio em outra “cidade empresarial” (essa ainda ativa) chamada Coya, onde funciona uma estação geradora de energia para El Teniente. Então todo mundo volta para Santiago.

Como é esse almoço do tour?

Olha, o prato era bom, mas não tinha nada de especial em si. Você é livre para levar seu próprio lanche. O que o almoço tem de bom mesmo é o local. O restaurante fica no Club de Campo Coya, um lugar lindíssimo, com campo de golfe, pinheiros e montanhas nevadas no horizonte. Eu moraria lá facinho.

Esse tour extra em Coya vale a pena?

Ele está incluído no itinerário, então não tem como não fazer. Mas vale a pena, sim. Coya é muito interessante e bem bonitinha. Relaxe e aproveite.

Quanto custa tudo?

Em maio de 2012, o tour com o almoço incluído custou aproximadamente 60 dólares por pessoa. Sem almoço, o valor é de mais ou menos 50 dólares por pessoa.

Como é o pagamento?

Normalmente, eles pedem que você pague no momento da reserva. Como eu reservei com muita antecedência e estava no Brasil, chorei e consegui pagar só no dia do tour, em cash.

Com quanta antecedência devo reservar?

Informe-se com a VTS. Eu sou meio neurótico, então reservei uns 40 dias antes. Talvez tenha sido exagero meu e dê para reservar no dia anterior, mas fique muito ligado: o ônibus sai cheio, o que indica que a procura é boa.

O tour acontece todos os dias?

Não. O tour em grupo acontece apenas nos sábados e domingos (quando a atividade nas minas é menor). A moça da VTS me disse que é possível fazer tours individuais em outros dias, mas certamente eles são bem mais caros.

Qual é a melhor época para ir a Sewell?

Depende.

Para ver os prédios coloridos em contraste com o branco da neve, o melhor é ir no inverno ou perto dele. O problema é que qualquer precipitação no dia pode cancelar o tour por motivos de segurança, e isso pode acontecer com você ainda em Santiago ou já em Sewell. Se a neve ou a chuva começarem a cair no meio do tour, os guias são obrigados a interromper tudo sem dó. Mas se a neve não cair, você certamente vai ter fotos lindíssimas.

Para reduzir os riscos de ter seu coito turístico com Sewell interrompido, o melhor é ir nas épocas mais secas. A paisagem e as fotos pode não ficar tão bonitas, mas o tour é mais garantido.

Os guias falam que língua?

Espanhol com sotaque chileno. Mas se você não entender tudo, fique tranquilo: eles são simpaticíssimos e repetem o que você quiser.

Que horas é a saída de Santiago? E a volta?

Saída às 9h, volta às 18h30. Mas confirme sempre com a VTS.

Onde é a saída em Santiago?

Em dois pontos. O ônibus sai de um e, no caminho, passa no outro. Confirme com a VTS e escolha o mais próximo do seu hotel.

Onde posso ficar em Santiago?

Eu fiquei no Hostal Rio Amazonas e achei muito bom, muito bem localizado. É simples, mas bom. Se você preferir outro lugar, o Booking tem quase 1000 opções de estadia na cidade. Encontre uma para você aqui.

Existe alguma recomendação especial?

A VTS indica tudo que é necessário, inclusive as limitações de idade e de saúde. O que eu acrescento é que o passeio não é nem um pouco pesado. Pelo contrário, é levíssimo. Você praticamente só vai caminhar em Sewell e, mesmo assim, em áreas pavimentadas.

Se eu faria de novo?

Sim, no inverno. Depois de já ter visto o geral, adoraria ver como fica coberto de neve.

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    13 Comentários
  1. Gabriel,

    Esse foi o melhor post que eu achei na internet com as dicas da cidade e de como chegar lá. Estive no Chile em Janeiro/15 e visitei Sewell baseado em suas dicas. Fiz um post no meu blog também. Depois passa pra dar uma olhada. Abraços. Bruno.

    https://semprenaviagem.wordpress.com/2015/02/11/sewell-a-cidade-fantasma-nos-andes/

  2. Parece intacto esse lugar, além de muito bonito. Quem sabe um dia.

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