Você já viajou para conhecer paisagens, culturas, arquitetura, comidas, bebidas e um mundo de coisas. Mas já viajou para escutar um som?

Tuva vai fazer você querer viajar para isso. E, de lambuja, vai entregar muito mais.

Só que não vai ser facinho chegar lá, não.

Essa república russa colada na Mongólia e com habitantes de origem turco-mongol-etc. tem apenas 3 estradas precárias de acesso e um único aeroporto ligando a capital Kyzyl a capitais vizinhas. Um isolamento que não combina com o lugar que é o centro geográfico da Ásia – fato comemorado até com monumento (ainda que outros lugares também se proclamem centros geográficos do continente).

onesecbeforethedub (CC BY-NC-SA 2.0)

Mas o que Tuva tem de isolada também tem de famosa, ao menos entre três grupos de pessoas: os filatelistas, os fãs de livros de viagem e os fãs de World Music.

Os primeiros conhecem Tuva do tempo em que ela era chamada de Tannu-Tuva. Isso foi no período entre as duas guerras mundiais, quando o pequeno país ficou independente dos seus dois vizinhos gigantes. Naquela época, os tuvanos lançaram selos curiosos que correram o mundo.

Além de serem de um país remoto no fiofó do planeta, os tais selos tinham formatos fora dos padrões postais e mostravam cenas bizarras do que seria o cotidiano local. Acabaram virarando cult, mesmo que a autenticidade deles seja questionada até hoje (dizem que a maioria foi emitida pelo russos para fazer dinheiro).

Os fãs de literatura viajante conheceram a república no livro Tuva or Bust!, de Ralph Leighton, lançado em 1991.

onesecbeforethedub (CC BY-NC-SA 2.0)

A história do livro é real e começou quando seu personagem principal, o Nobel de Física Richard Feynman, se lembrou dos tais selos e perguntou para o autor:

“O que aconteceu com Tannu-Tuva?”.

A partir daí, os dois foram em busca de informação, se apaixonaram pelo que encontraram e decidiram tentar chegar lá a qualquer custo. Mas como entrar na Rússia era bem mais difícil nos anos 80, Feynman morreu antes de conseguir, mas o livro fez um sucesso e colocou Tuva no mapa do mundo.

Então chegamos aos últimos conhecedores de Tuva, os fãs de World Music.

Eles descobriram esse canto do mundo por causa do tal som que eu citei lá em cima, que vai fazer você querer ir até Kyzyl.

Mas antes de qualquer explicação, assista a este vídeo aqui embaixo. É rápido, 3 minutos.

Ondar (ou Kongar-ol Ondar, seu nome completo) é hoje o mais famoso dos cantores de garganta de Tuva, um tipo de música onde mais de uma nota é produzida pelo gogó do cantor ao mesmo tempo, gerando esse som inexplicável.

Apesar da modalidade existir em outras culturas, a música de garganta de Tuva tem aspectos técnicos únicos que eu não sei explicar (mas que você pode encontrar nos Googles da vida).

O certo é que essa tradição tuvana vem de muito tempo e é muito popular na república. Segundo o Wikipedia, é comum ver cantores de garganta viajando para locais isolados da nação (que são muitos) em busca de ambientes perfeitos para soltar a voz e praticar a arte.

onesecbeforethedub (CC BY-NC-SA 2.0)

sashapo (CC BY 2.0)

onesecbeforethedub (CC BY-NC-SA 2.0)

onesecbeforethedub (CC BY-NC-SA 2.0)

A música de garganta de Tuva conquistou tantos fãs que virou o documentário Genghis Blues, premiado em Sundance (1999) e indicado ao Oscar de Melhor Documentário (2000).

Explicando em parcas linhas, o filme conta a história de Paul Pena, um blueseiro americano que se apaixonou pelo estilo tuvano, aprendeu a cantar da mesma forma e foi até Kyzyl participar de um concurso. (Recomendo reservar uma horinha para assistir ao documentário, porque é ótimo.)

Aliás, Genghis Blues mostra cenas de quem? De quem? De quem? De Kongar-ol Ondar, Richard Feynman, Ralph Leighton e dos selos de Tannu-Tuva.

Numa destas cenas, Richard Feynman, diz:

“Um lugar com uma capital chamada Kyzyl só pode ser interessante.”

Acertou em cheio.

(Em tempo: este post contou com uma imensa e valiosa colaboração de Henrique “@hbente” Bente, que me deu várias dicas de Tuva. Valeu, velhinho!)

Veja onde ficar em Kyzyl, no Booking

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    8 Comentários
  1. Vou correndo procurar este documentário….

  2. Helo, o documentário tá ali no post, embaixo da capa dele mesmo. =)

  3. Lamento informar que essa é a MAIOR BANDEIRA do universo. Tinha salvo ela no meu computador e não sabia de onde tinha tirado. Obrigado pra sempre

  4. Uouuu! Que louco! O país que eu nao conhecia, os selos incríveis que eu nunca tinha visto e esse som maluco que eu nunca tinha ouvido! Quando terminou o videozinho da apresentação bati palmas aqui do outro lado! rs Incrivel! Não me surpreende que alguém que goste de blues tinha ido para lá…que musica legal! E tem um “q”de rock…doido! Adorei! 😀

  5. GE-NI-AL. E ouso dizer que já cliquei no play do videozinho do Ondar 3 vezes nesta manhã #aloka

    • E a simpatia do tiozinho, Mari? Não é incrível? =)

  6. Eu simplesmente fiquei encantado, vou adquirir o documentário.

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