Entre todos os comentários que recebo sobre as fotos da Coreia do Norte, a falta de cores nas ruas do país é um dos mais repetidos. E é verdade. Eu mesmo falei disso no primeiro post dessa série pós-viagem.

Mas no meio de tanta sobriedade e tons lavados, existe pelo menos uma atração norte-coreana que foge completamente de tudo isso.

É o Arirang.

Não consegui informações claras, mas tudo indica que a história desse espetáculo começou lá nos anos 1800, quando os tchecos (na época, sob domínio austríaco) inventaram um movimento chamado Sokol, que ligava juventude, esporte e nacionalismo e fazia apresentações coletivas em estádios, envolvendo até 500 mil pessoas.

Šechtl and Voseček (CC BY-SA 3.0)

Com o tempo, o Sokol cresceu, ganhou força e foi copiado em alguns países. França, Espanha e até os Estados Unidos tiveram apresentações inspiradas no modelo tcheco, mas foram os membros do bloco soviético os que mais gostaram de toda aquela grandiosidade, que acabou sendo conhecida mais tarde como “mass games”.

(Aliás, um esclarecimento importatíssimo: “mass games” é uma coisa, Arirang é outra. Mass games é o tipo de espetáculo. Arirang é o nome do atual espetáculo encenado nos mass games de Pyongyang. É como a diferença entre “teatro” e “Hamlet”. Entendeu? Prossigamos.)

O primeiro dos mass games da Coreia do Norte aconteceu em 1946, com o país já sob o comando de Kim Il-sung. Duas décadas mais tarde, os norte-coreanos inovaram e adicionaram a música e o mosaico gigantesco, criando os principais pontos dos mass games atuais.

De lá até hoje, vários espetáculos foram criados e representados, sempre valorizando o país, o partidão e, claro, o Grande e o Querído Líder.

Em 2002, tudo mudou. Ou melhor: tudo cresceu. Em comemoração aos 90 anos de Kim Il-sung, nasceu o Arirang, considerado o maior e mais bonito mass game realizado até hoje e que até entrou para o Guinness por isso.

O espetáculo Arirang é inspirado na música mais popular da Coreia do Norte, que tem o mesmo nome. Essa música, por sua vez, é inspirada em uma lenda de um casal de jovens, chamados Songbu (ela) e Rirang (ele).

A versão mais popular da lenda diz que Rirang trabalhava em uma fazenda quando conheceu Songbu e ambos se apaixonaram. Era uma época economicamente difícil e uma revolta popular aconteceu, obrigando o casal de pombinhos a correr para a floresta para evitar o quebra-quebra.

Os dois se casaram e viveram felizes em sua cabana no meio do mato, até o dia em que Rirang resolveu que deveria lutar pelo seu país contra os rebeldes, deixando Songbu para trás, toda chorosa.

Songbu passou a cantar a sua saudade de Rirang e essa música foi passada oralmente de geração em geração, até virar a Arirang de hoje.

Segundo o livro que comprei, a música mostra “o ressentimento contra a sociedade exploradora, junto com os desejos de uma vida feliz, a tristeza da separação de pessoas amadas, a saudade e o desejo de reunião”.

Mesmo sem nenhuma adaptação, a história é uma alusão mais do que óbvia às relações da Coreia do Norte com a Coreia do Sul e os Estados Unidos, e o jovem Rirang é apenas uma representação do Grande Líder. Ainda assim, a lenda original foi revista durante a criação do espetáculo e se transformou no que eles chamam de Arirang Próspero e Arirang da Reunificação, para falar mais claramente da vida e da obra de Kim Il-sung e do seu filho.

Sim, os mass games são uma peça de propaganda. Mas você esquece disso quando chega nas redondezas do estádio May Day, em Pyongyang.

O movimento nas ruas próximas prova que tudo aquilo é uma festa gigantesca para os norte-coreanos, esperada durante o ano inteiro. E é impossível não se contagiar com toda a alegria, os sorrisos e os acenos. O frenesi não deve uma palha para uma final de campeonato de futebol.

Nós, gringos, entramos por um portão VIP, junto com autoridades e outros convidados importantes. Mesmo separados do povão, o caminho do ônibus até as cadeiras é de arrepiar os cabelos: do fundo do corredor dá para ver um pedaço do mosaico gigante e escutar os gritos que aqueles 20 mil pixels humanos dão para animar a plateia.

É indescritível. E o show ainda nem começou.

Quando as luzes se apagam, você acha que está preparado para o que vem, mas não está. Aliás, você nunca está: tudo dentro e fora do campo é tão perfeitamente sincronizado que você é surpeendido o tempo todo.

São 90 minutos de uma mistura inimaginável (no contexto norte-coreano) de cores, luzes, pirotecnia, projeções, lasers e, é claro, danças, coreografias, malabarismos e habilidades esportivas. Tudo dividido em atos que mudam o clima o tempo inteiro: alegria, tristeza, tensão, orgulho, reverências aos líderes, festa por uma suposta abundância de comida no país, crianças felizes, uma homenagem aos camaradas chineses (já que ninguém lá é bobo, né?) e um final apoteótico.

O vídeo aqui embaixo é uma colagem de todos que eu fiz no evento, só para você ter uma mísera, ínfima, minúscula ideia do que é ao vivo. Se quiser ver em HD, vá direto no YouTube.

A festa continua na saída do estádio. Algumas fontes com luzes coloridas viram o palco para grupos enormes de espectadores e participantes, ainda em suas roupas de Arirang, dançarem e cantarem as músicas que recém escutamos do lado de dentro. A vontade que dá é de deixar o guia para trás e ir para o meio deles. Mas é melhor esquecer a ideia. O coitado do guia está uma pilha de nervos tentando controlar todos os estrangeiros naquela muvuca e é recém o primeiro dia.

Voltei para o hotel em êxtase total. A emoção era tanta que não me importei em gastar 18 dólares para fazer uma ligação de 3 minutos para o Brasil. Eu precisava contar o que fosse possível para a minha mulher.

Eu tinha recém realizado um dos meus grandes sonhos de viajante.

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Gabriel Quer Viajar foi para a Coreia do Norte com o apoio exclusivo da Koryo Tours.

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– Os assentos VIP custam o dobro dos assentos de primeira classe, mas não valem o dinheiro. Digo isso com propriedade: fui duas vezes ao Arirang e experimentei os dois setores.

– Na primeira classe e na área VIP você fica sentado junto a uma mesa enorme. Sabe os lugares onde ficam os narradores em jogos de futebol? É parecido. Dá para você jogar todas as suas tralhas ali em cima e, se for o caso, apoiar um tripé discreto para fotografar.

– Vale a pena ir duas vezes (até o Tony Wheeler, fundador do Lonely Planet, fez isso), mas é inevitável que a segunda vez seja menos emocionante que a primeira. Esteja preparado.

– Os souvenires à venda na saída do espetáculo têm os mesmos preços de outros lugares.

– Talvez você tenha lido que 2012 foi o último ano do Arirang. Provavelmente foi mesmo. Mas como eu expliquei lá em cima, Arirang não é a mesma coisa que “mass games”, e como os norte-coreanos não são bestas de perder toda a renda que o evento gera e toda a propaganda que ele significa, você pode esperar um espetáculo diferente a partir de 2013, mas certamente tão (ou mais) grandioso, lindo e emocionante. UPDATE EM 11/03/13: A Koryo Tours anunciou que o espetáculo de 2013 deve ser o mesmo Arirang. Vou deixar essa informação aqui no final, até que isso se confirme mesmo. De qualquer maneira, é bom se preparar, porque as datas estão definidas: entre 22 de julho e 9 de setembro, provavelmente com aquela esticadinha no final.

– Não passe o tempo inteiro fotografando. Curta um pouco o show. Até porque suas fotos vão acabar sendo muito parecidas com as de outros fotógrafos que foram para lá. O espetáculo e os lugares reservados para estrangeiros são os mesmos, não tem como fazer muito diferente.

– Leve um casaco, meu filho. O estádio é aberto e pode fazer um friozão.

– Para saber mais sobre os mass games de Pyongyang e tudo que eles significam para a população, não deixe de assistir ao documentário A State of Mind, que está completo, aqui embaixo.

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– Os mass games acontecem todos os anos, mais ou menos entre agosto e outubro. As datas podem variar e a temporada costuma ser alongada, mas nada é garantido.

– Os setores onde estrangeiros podem assistir aos masss games são divididos em terceira, segunda e primeira classe, além da área VIP. Os valores podem mudar, mas em 2012 foram, respectivamente 80, 100, 150 e 300 euros.

– Você não pode filmar os mass games inteiros (e nem faz sentido, já que você pode comprar um DVD na saída por poucos euros). Fiscais ficam de olho para ver se você desliga sua câmera de tempos em tempos.

– Você pode fotografar o espetáculo à vontade, mas não pode fotografar a plateia.

– Os ingressos são comprados no mesmo dia do show. Seu guia vai perguntar qual lugar você quer e você só precisa dar o dinheiro para ele.

– Você pode pagar o seu ingresso em dólar, euro ou yuan chinês.

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Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Por Que Pra Lá – Coreia do Norte

– Visto norte-coreano: uma experiência surreal

– O que se faz na Coreia do Norte

– O que se faz na Coreia do Norte (segunda parte)

– Curiosidades norte-coreanas

DEPOIS DA VIAGEM:

– Coreia do Norte: o país mais estranho do mundo é um país deste mundo

– As (minhas) melhores imagens da Coreia do Norte (como fotografar no país)

– Air Koryo, a Coreia do Norte que voa

– Dançando com norte-coreanos

– O que fiz na Coreia do Norte – 1º e 2º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 5º dia

– O que fiz na Coreia do Norte – último dia

– Tony Wheeler na Coreia do Norte

– Gabriel Quer Viajar na CBN

– A Coreia do Norte na prática

– É ético ir para a Coreia do Norte?

– Mulheres de Conforto

– Meu longa-metragem na Coreia do Norte

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    30 Comentários
  1. Sensacional, cara – tava aguardando ansiosamente por esse post. Tu deixou todo mundo com vontade de conhecer a Coréia do Norte – tá tudo lindo – texto, fotos e video.
    90 minutos é muito pouco ou dá aquela sensação de que tu ficou 3hs vendo tudo isso?

  2. fantasticos os posts sobre a Coreia do Norte, parabens! li um livro recentemente “Escape from camp 14” sobre a vida dos prisioneiros politicos na Coreia do Norte, que sofrem imensamente. Achava dificil imaginar uma Coreia do Norte “colorida” e cheia de energia. É bom ver outras facetas do pais.

  3. Caramba, as fotos são impressionantes (e aliás, as fotos estão lindíssimas!) e o texto, como sempre, impecável. Achei muito interessante toda a história. Adoro perceber como regimes tão “diferentes” são parecidos em suas origens e práticas. O povo ditatorial adora uma boa manifestação de controle e disciplina sobre o povão. Pelo vídeo dá pra ver que tem crianças também. Vc sabe como é a seleção pra participar dos mass games, digo as crianças são pegas na esola e obrigadas, os adultos convocados ou são voluntários?
    Essa semana li uma notícia sobre os expurgos que estão acontecendo na Coréia, com militares sendo assassinados por morteiros para, literalmente, sumirem do mapa. Obvio que lembrei de vc rs
    abs,

    • Obrigado, Jackie! =)
      Sobre a tua pergunta, pelo que vi no filme que indico no post (A State of Mind), as pessoas vão por vontade própria mesmo. Imagino que seja uma das raras chances de pessoas com habilidades artísticas conseguirem demonstrar isso no país, então deve ser até uma seleção concorrida.

  4. Bonitão isso aí
    Sobre as cores, eu ficava imaginado se já é sobrio no verão, imagina no Inverno.
    Estes países devem ser uma deprê no inverno aniamal.

    Abraço e mais uma vez animal o post.
    @GusBElli

  5. Uau, uau, uau o post! Deve ter sido algo lindo, lindo mesmo de se ver… E ainda na categoria “realizando um sonho”, então, melhor ainda!

  6. só tenho uma coisa a dizer depois do postaço e das fotaças: #morri.

  7. Oi Gabriel! Muito bacana seu relato de viagem, depois que vi você falando, comentei com meu namorado o final de semana todo que mesmo sendo um país muito louco, a viagem deve ser bacana. Só uma pergunta: você pode usar flash e lentes grandes nos locais (inclusive no Arirang)?

  8. Cara eu sou muito fã de arirang, não me canso de ver soung hee creio eu voce deve conhecer esta cantora sul koreana um forte abraço gostei do seu video

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