Eu nunca tinha visto um policial de fronteira simpático. Por isso percebi que estava chegando em um lugar diferente quando me dei conta de que aquele policial na minha frente estava sorridente e me ensinava a dizer “Olá” e “Obrigado” na língua dele, enquanto o colega carimbava meu visto.

Então ele largou um “Yeeesss!” animadão depois que eu recebi meu passaporte e agradeci corretamente. Aí eu tive certeza: Luang Prabang, no Laos, era realmente especial.

Tudo que eu li durante os preparativos da viagem (feita em 2008) já dizia que eu iria adorar aquela cidade, uma das mais bem preservadas do Sudeste Asiático.

Com 26 mil habitantes, uma infinidade de templos budistas, ruas calmíssimas, povo absurdamente simpático e arquitetura que rendeu o título de Patrimônio Histórico da Humanidade, o destino mais procurado daquele pequeno país tem que ser vivido sem pressa.

Para isso, é fundamental entrar no clima da cidade, que acorda bem antes das 6 da manhã para alimentar seus monges budistas no ritual diário da “coleta de almas”, quando os religiosos caminham pelas ruas, em filas, carregando urnas onde recebem a comida doada pelos moradores e que vai ser consumida até a manhã seguinte.

Esse desfile colorido e estupidamente tocante é o início de um dia cheio de emoções, sorrisos e cumprimentos com o alegre “sabadii!”, a saudação local – aquela mesma que o policial me ensinou no aeroporto e que se ouve em qualquer lugar.

Entre as atrações, a mais importante é o Museu do Palácio Real, que fica no prédio onde viviam os reis da atual República Popular Democrática do Laos, governada por comunistas desde 1975. No museu você conhece o verdadeiro luang prabang, ou o “Grande Buda”, em laosiano, a estátua recebida dos kmers em 1512 e que deu nome à cidade.

Não é possível fotografar a estátua, mas no resto da antiga capital do país sobram coisas bonitas para você compensar essa proibição. O maravilhoso Wat Xieng Tong, templo budista construído em 1518, é um bom exemplo.

Em uma caminhada dele até o centro, você passa por muitos outros templos até chegar a Sisavangvong, uma avenida que mantém a cara de cidadezinha do interior da Ásia ao mesmo tempo em que é animada como uma grande cidade cosmopolita.

Cafés, restaurantes e lojas ocupam cada prédio por lá, com atendentes fluentes em inglês. É o lugar perfeito para provar o café laosiano gelado e passar horas vendo o movimento e os monges andando com sombrinhas para se protegerem do sol violento do verão local.

O verão deles, aliás, é sufocante como eu nunca vi, mas pode ser levemente aliviado se você chegar no início de abril, perto da comemoração do ano-novo laosiano, onde as pessoas fazem guerras de água pelas ruas. Pode parecer meio estranho agora que você está em casa, mas acredite em mim: naquele lugar, em férias, ensopado de suor, você vai dar graças a Buda quando alguém jogar um balde de água em você.

Outro programa agradável (e mais seco), é caminhar ao longo do rio Mekong, o mais importante do Sudeste Asiático. Passear pela margem mais próxima do centro da cidade é obrigatório, mas depois não deixe de atravessar para o outro lado, que é muito mais simples e mais pobre, mas tem moradores que tratam os estrangeiros com ainda mais atenção e, claro, vários “sabadii!”.

Do alto dos morros daquele lado, a vista da cidade é maravilhosa, mas nenhuma bate a vista no cume do monte Phu Si, bem no centro de Luang Prabang. Naquele calorão, a subida é um suplício, mas vale pela visão de 360º dos morros cobertos de verde, das ruas cheias de palmeiras e da infinidade de templos com cúpulas douradas. É de lá também que se vê o melhor pôr-do-sol sobre o Mekong.

Depois que o sol se vai e o calor dá um tempo, é só escolher um dos tantos restaurantes na avenida Sisavangvong, comer e voltar cedo para o hotel, já que a maioria do comércio fecha às 9 da noite.

É cedo, mas é compreensível: todo mundo em Luang Prabang têm que estar descansado para o dia seguinte, que – não esqueça – começa antes das 6 da manhã, com oferendas, sorrisos, simpatia e muitos “sabadii!”.

• Leia também: Meu guia para Camboja, Vietnã e Laos, com informações práticas para você ir para lá.

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    10 Comentários
  1. Como sempre, lindas fotos….ai que saudade de Luang! Estive la no começo de 2008 e voltei encantada com a encantadora cidade e seus templos e com a simpatia das pessoas.

  2. Infelizmente não pude conhecer o Laos quando estive no sudeste asiático, este ano. Passei por Malásia, Tailândia e Cingapura. O Laos teve que ficar para outra ocasião. Ótimas fotos!

  3. Eu tive que adiar meus planos para o Sudeste Asiático pelo menos por alguns meses, mas Luang Prabang continua sendo uma das minhas prioridades. Muitos dizem que a viagem para o Laos é cara e não compensa quando há tantas outras atrações nos países vizinhos, mas eu sinto que ali estarão alguns dos meus locais preferidos. Seu post me deixou morrendo de vontade de voltar a planejar minha viagem para lá! 😀

    • Camila, eu já acho o contrário: se voltasse para lá, passaria mais tempo no Laos (viajando de barco pelo Mekong e indo para outras cidadezinhas) do que no Vietnã, por exemplo. O Vietnã é legal, interessante, mas hoje eu reduziria meu roteiro no país.

  4. Deu saudades… não foi uma das cidades que mais me impressionou (acho que esperei demais), mas tenho doces memórios dos meus dias ali, uma calmaria, uma paz sem fim.

  5. Não deu certo de incluir o Laos no roteiro do ano passado, mas está reservado para quando formos ao Vietnã. Tenho uma sensação que vou gostar especialmente de Luang Prabang e suas fotos me confirmam isso. Estão lindíssimas, algumas me deram uma idéia clara do ambiente da cidade e achei a das meninas sorridentes na moto um espetáculo, grande oportunidade agarrada de foto.
    Curiosidade, qual foi seu roteiro no Vietnã?
    Um abraço!

  6. Fotografar pessoas na Ásia, especialmente no sudeste, quase sempre resulta num conjunto de fotos maravilhosas. E invariavelmente elas revelam muito do caráter daquele povo. Você conseguiu isso, e com elas ilustra mais este post lindo e inspirado, extremamente cativante.

    Desta vez não foi apenas o (sempre) excepcional texto o que melhor atraiu (e prendeu!) minha atenção. As fotos, belas fotos.

    Pra lá de notável este post (como aliás têm sido seus outros desta série), este ainda consegue me surpreender. é notável como seu blog é atraente como poucos conseguem ser.

    Mal chegamos da Ásia Central (Uzbequistão e Quisguistão, que convido voc~e a conhecer lá no F&F), ainda sob os efeitos deliciosos das lembranças de uma viagem reveladora e surpreendente, já decidimos (e estamos alinhavando) nossa próxima, para Mianmar, em fevereiro de 2013. Estas fotos de Luan Prabang puseram ainda mais desejo de fotografar, e este post, de escrever.

    Um grande abraço e novos parabéns!

  7. Gabe, suas fotos nesse post estão ESPETACULARES! Uma vibe muito NG – me apaixonei pelas das crianças, que lindas! E ando muito pensando em Laos, inclusive – tô numa vibe toda Ásia nos meus planos para o ano que vem.

  8. Desenterrando este post apenas para te agradecer, Gabriel. Lembrava de sua viagem pelo Laos, mas não em detalhes, e agora que surgiu para mim a oportunidade de ir para lá, é este texto o que me dá a certeza de ter escolhido o destino certo.

    • =) Tomara que a cidade continue lindinha, Carlos! Mas pelo que vi recentemente, continua. 😉

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