O número de turistas ocidentais que visitam a Coreia do Norte a cada ano não é muito preciso, mas gira ao redor de apenas 3 mil pessoas.

Imagem do livro Pyongyang, da Korea Pictorial

Para chegar lá, esses viajantes têm duas alternativas: avião ou trem. Se escolherem chegar por via aérea, é grande a chance de precisarem voar na única companhia com apenas uma estrela no ranking SkyTrax e, portanto, considerada a pior do mundo: a Air Koryo.

Essa empresa de péssima fama foi fundada em conjunto por norte-coreanos e soviéticos em 1955 e foi batizada de Chosonminhang. Chegou a voar para lugares como Moscou, Berlim e Praga, mudou para o nome atual em 1992, mas, aos poucos, junto com a decadência do comunismo e do próprio país, foi perdendo destinos internacionais regulares até chegar aos 3 que tem hoje: Pequim e Shenyang, na China, e Vladivostok, na Rússia.

(Existem relatos de voos para Kuala Lampur, na Malásia, e para Bangcoc, na Tailândia, mas não consegui confirmar se são regulares.)

Uma olhada na Wikipedia atrás de informações sobre a frota da Air Koryo pode ser assustadora para quem não é fã de aviação.

Com exceção de um Antonov ucraniano, todos os outros aviões são os russos Ilyushin e Tupolev.

Isso não é necessariamente um motivo de preocupação, afinal existem modelos modernos desses fabricantes, todos autorizados a voar na União Europeia, por exemplo. Mas uma pesquisa mais cuidadosa mostra que esse não é o caso da maioria dos aviões da Air Koryo. Os modernos, ali, são poucos.

Apesar dessas características potencialmente arrepiantes, a Air Koryo é membro da IATA (a Associação Internacional de Transporte Aéreo) e o histórico de acidentes da companhia é baixíssimo. São apenas dois registrados em mais de 50 anos de atividades, em 1983 e em 2006, sendo que esse último não teve nem feridos. Mas é bom lembrar que estamos falando da companhia aérea estatal de uma ditadura, o que sempre pode significar informações sonegadas ou falsas.

Mesmo sabendo de tudo isso, quando fechei minha viagem para lá não tive a menor dúvida e escolhi chegar de avião com a Air Koryo. Eu tinha consciência de que poderia ser, no mínimo, tenso, mas eu queria entrar logo naquele clima de Guerra Fria e não podia perder a oportunidade de voar em um equipamento fabricado na falecida União Soviética.

Até o dia anterior à viagem, eu não sabia qual seria o modelo de avião do meu voo. Só fui descobrir isso em Pequim, quando apareci no “pre-tour meeting” da Koryo Tours. Lá, soube que a saída seria duas horas mais cedo do que o planejado e que a aeronave programada, um dos poucos Tupolevs modernos da companhia, também havia mudado. Agora eu iria em um Ilyushin Il-62M (foto abaixo, pescada no Flickr) que, nas palavras do guia, “com sorte, foi fabricado na década de 70”.

Pavel Adzhigildaev (CC BY-SA 3.0)

Fiquei feliz. Era justamente o que eu queria. Mas também fiquei um pouco nervoso e resolvi não contar nada para meus pais e para a minha mulher.

O embarque para Pyongyang é feito pelo terminal 2 do aeroporto internacional de Pequim. Ao contrário do terminal 3 – aquele construído para os Jogos Olímpicos de 2008, moderno, enorme e lindo – o terminal 2 é pequeno, apertado, feio e confuso. Mas não me preocupei e só aproveitei uma das poucas vantagens de ser obrigado a viajar acompanhado de um guia: você não precisa fazer nada, basta seguir as ordens que ele dá.

Os primeiros norte-coreanos da viagem apareceram quando eu estava na fila do check in e, como eu disse no primeiro post da série, foram facilmente reconhecidos pelos bótons com os rostos do Grande Líder e do Querido Líder.

A chegada deles tumultuou o recinto.

Igual a muitos povos asiáticos, os norte-coreanos não sabem o que é uma fila indiana e logo formaram uma muvuca ao redor do balcão. Mais uma vez relaxei, esperei que eles terminassem de despachar as bagagens e, um bom tempo depois, estava no guichê sendo atendido por um homem que não usava uniforme da Air Koryo e que praticamente não falou comigo. Apenas olhou meu passaporte, digitou algumas coisas e me deu um dos meus melhores souvenires de viagem até hoje: o cartão de embarque para Pyongyang (impresso com o logotipo da Air China).

A parte da alfândega foi demorada como em qualquer aeroporto pequeno, apertado, feio e confuso, o que me fez ter que correr até o portão de embarque. Uma corrida inútil, já que o voo atrasou bastante – por motivos não explicados, é claro – e eu fiquei muito tempo esperando dentro do ônibus que fazia a ligação do portão à aeronave soviética. Mas eu tive sorte. A maioria dos passageiros passou o mesmo tempo dentro do avião lotado.

Eu fui o penúltimo a entrar, depois de fazer algumas fotos rápidas do lado de fora, ainda um pouco chocado com aquelas turbinas duplas que faziam o Ilyushin Il-62M parecer um Fokker 100 bombado.

Quando subi as escadas e cheguei na porta, cumprimentei as aeromoças norte-coreanas (que não estavam com cara de felizes e já falaram: “No photo!”) e virei para o corredor. Foi quando a viagem no tempo começou.

Eu nasci em 1976. Não sei quando foi minha primeira viagem consciente em um avião, mas certamente foi em uma aeronave bem parecida com aquela. A sensação, ao menos, era a de que eu estava entrando de novo em um daqueles aviões da Vasp, da Transbrasil ou da Varig, mas com alguns toques russos e sinais luminosos em coreano.

Todo o interior parecia coberto por um papel de parede estampado, de cor bege, que dava um ar de casa de bisavó para o ambiente. As poltronas tinham um tecido grosso, que parecia lã (mas não era). Para o alívio de todos, os compartimentos de bagagem de mão tinham um tamanho decente, ao contrário do que esperávamos depois que o guia da Koryo Tours havia pedido para o pessoal despachar o máximo possível, porque o compartimento poderia ser apenas uma rede com espaço para pouca coisa.

A cabine era dividida em várias partes, separadas por áreas pequenas que ficavam isoladas das poltronas por cortinas. Como o voo estava atrasado, tive que entrar rapidamente e não consegui olhar em detalhes, mas me pareceu que nessas áreas pequenas eram guardadas as comidas e bebidas que seriam servidas aos passageiros de cada uma das partes próximas.

Era como se todo o material para o serviço de bordo fosse dividido ao longo da cabine, ao invés de guardado na traseira ou na dianteira do avião. E para cada uma das divisões da aeronave, pelo menos 3 comissárias trabalhavam, o que me fez concluir que havia no mínimo 9 delas em ação no voo.

Obviamente um avião dos anos 70 não tinha vídeo para instruções de segurança ou entretenimento. Mas foi distribuída uma revista com norte-coreanos felizes na capa e com o atual líder, sorridente, logo nas primeiras páginas. Era a primeira propaganda do país a nos atingir, mas como estava inteiramente escrita em coreano, não servia para estrangeiros.

Então chegou o momento mais tenso da viagem: a decolagem. Era a hora de ver se aquele bólido russo de 40 anos e lotado seguraria o tranco mais uma vez.

Tentei não pensar em besteiras, apenas fiquei de olho no chão para ver se ele não começaria a se aproximar de novo logo depois de se afastar. Foi quando escutei um estalo e uma gargalhada espalhafatosa vindo das poltronas do fundo. Como o chão continuava se afastando, não me preocupei e só fui ver o que tinha acontecido quando já estava no ar: uma peça do acabamento do teto do corredor havia se soltado durante a decolagem e uma passageira havia achado engraçadíssimo.

Era, digamos, um “toque vintage” perfeito para a aventura.

O almoço veio logo em seguida. Hoje, mesmo depois de conhecer um pouco da cozinha coreana, eu olho para a foto que fiz da comida e não consigo identificar tudo que foi servido. Identifico as frutas, o pão, o tomatinho e aquela espécie de mortadela no canto superior direito da bandeja. Mas não sei o que era aquela “massinha” junto à mortadela e muito menos aquilo que está no canto superior esquerdo, que mordi, achei doce e frio e não comi.

(Atualização: minha adorável leitora Agatha Kim, do Ando Experimentando, usou seu background coreano para explicar os pratos da Air Koryo. Leia nos comentários.)

Talvez para compensar a comida insossa, os passageiros podiam pedir cerveja (servida em garrafa de vidro) para acompanhar a refeição.

Também logo depois da decolagem foram distribuídos os papeis da imigração, que não têm perguntas muito diferentes das outras imigrações pelo mundo. A burocracia alfandegária parece ser a mesma em todos os lugares.

Dali para frente, tudo correu perfeitamente bem. O voo de pouco menos de duas horas no Ilyushin Il-62M foi suave como qualquer outro feito em um Boeing, Airbus ou Embraer da vida.

Na chegada, um pouso tranquilo no aeroporto internacional Sunan, que fica em uma cidade com o mesmo nome, a 24 km da capital Pyongyang. Um aeroporto que já mostra para o visitante a cara das cidades da Coreia do Norte.

Ao lado da pista, o mato é alto e precisa de uma poda urgente. Os prédios são velhos, sem cor e mal iluminados. Os aviões e os veículos parados no asfalto são tão antigos quanto o Ilyushin onde eu estava. Militares ficam espalhados por todos os cantos, muitos com cara de quem não tem nada para fazer e estão ali apenas porque, enfim, têm que estar ali.

O desembarque foi rápido e feito com escada, apenas pela porta dianteira, apesar de haver outras abertas ao longo do avião. Foi nesse momento que consegui fotografar a melhor ideia russa para a aviação mundial: poltronas que reclinam para trás e para frente, permitindo que o passageiro da fileira de trás possa baixar o encosto à frente e esticar as pernas, caso não haja ninguém naquele assento.

Minha surpresa ao sair do avião foi não encontrar nenhuma foto do Grande Líder ou do Querido Líder recepcionando os visitantes ao ar livre. Mas quando nos direcionaram para um prédio pequeno, deduzi que o terminal principal (que eu já havia visto na internet e onde existe uma imagem gigantesca de Kim Il-sung) está em reforma, encoberto.

Por enquanto, as imagens dos dois ditadores estão apenas do lado de dentro do prédio atual.

Naquele lugar que tem toda a pinta de ser um hangar improvisado como terminal, a confusão era a mesma de um aeroporto normal. Lá estavam as filas para passar pela alfândega, os policiais de fronteira carrancudos e uma aglomeração perto da esteira de malas.

Diferente mesmo, apenas a paranoia de proibir fotos, que nem é tão respeitada pelos turistas com câmeras pequenas, que fotografam sem chamar a atenção. Só eu e os outros viajantes que estavam com máquinas enormes e espalhafatosas tivemos que nos contentar “apenas” com a nossa visão e com poucas imagens dentro do pseudo-terminal.

A bagagem apontou na esteira mais rápido do que se eu estivesse em Guarulhos. A partir dali, só havia uma etapa pela frente: a passagem pelo raio-x, que foi feita sem absolutamente nenhum estresse, com o policial pedindo para ver apenas uma niqueleira que eu tinha na minha mochila. Nada de revista minuciosa na bagagem, checagem de câmera fotográfica, livros subversivos e coisa e tal.

Minha experiência com a pior companhia aérea do mundo acabava ali e, no fim das contas, nem tinha sido tão ruim e até achei injusta aquela estrela solitaria no ranking da SkyTrax.

Apesar das confusões nos horários e da leve tensão, o voo JS 222 foi uma viagem bem boa. Voltei para a China de trem, porque já havia decidido isso no início da viagem. Mas, se um dia eu retornar à Coreia do Norte, ida e volta vão ser com a Air Koryo.

ATUALIZAÇÃO: Desde o início de 2013, a Air Koryo não pode mais voar na China com seus aviões antigos. Agora, só os modernos. Se você quiser experimentar os modelos soviéticos, vai ter que fazer voos internos no país.

*****

Gabriel Quer Viajar foi para a Coreia do Norte com o apoio exclusivo da Koryo Tours.

*****

Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Por Que Pra Lá – Coreia do Norte

– Visto norte-coreano: uma experiência surreal

– O que se faz na Coreia do Norte

– O que se faz na Coreia do Norte (segunda parte)

– Curiosidades norte-coreanas

DEPOIS DA VIAGEM:

– Coreia do Norte: o país mais estranho do mundo é um país deste mundo

– As (minhas) melhores imagens da Coreia do Norte (como fotografar no país)

– Arirang. A Coreia do Norte a cores

– Dançando com norte-coreanos

– O que fiz na Coreia do Norte – 1º e 2º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 5º dia

– O que fiz na Coreia do Norte – último dia

– Tony Wheeler na Coreia do Norte

– Gabriel Quer Viajar na CBN

– A Coreia do Norte na prática

– É ético ir para a Coreia do Norte?

– Mulheres de Conforto

– Meu longa-metragem na Coreia do Norte

Você também poderá gostar

Se gostou do que viu, assine o blog!


    31 Comentários
  1. Gabriel, essas poltronas que reclinam pra frente existiam nos BOEINGs da VASP e VARIG costumava empurrar a poltrona da frente quando estava desocupada e esticar minhas pernas…isso foi a long time ago!!!! lembrei quando você comentou.

  2. Excelente post! Excelentes fotografias! Obrigado por compartilhar Gabe!

  3. Também achei excelente postagem, ótimas fotos, boa descrição, está de parabéns!

  4. Como funciona o programa de milhagem? Estou programando uma viagem para a coréia, sou super individualista em viagens, odeio ficar em grupos, mas a dinâmica agora é um pouco diferente, já que não posso sair andando pra onde eu quiser ou falar com qualquer um né. Talvez seja melhor ir num grupo. Sobre bares e casas noturnas, existem? rs Você foi em algum?

    • Guilherme, não tenho nem ideia sobre qualquer programa de milhagem da Air Koryo. Aliás, duvido muito que exista, já que eles não têm concorrência e não precisam oferecer vantagens a ninguém.

      A vantagem de ir em grupo é financeira. Com mais pessoas, o valor da diária dos guias e do motorista obrigatórios é dividido e fica menor para cada viajante.

      Até existe pelo menos um lugar que é considerado uma casa noturna para estrangeiros. É o Diplomatic Club, apelidado de Diplo. Mas não espere muito, não. Aliás, não espere nada. Estive lá e não vi ninguém além dos funcionários do local e das pessoas do meu grupo.

      Boa viagem!

  5. Since the first time I read a blog from you I dream going to N Korea, in particular for the Arirang show. Your blogs are really interesting and a good way of discovering exotic places and cultures. Regards

  6. Grande experiência!!! Muito legal seu post, cara!

  7. 1 2 3
Deixe seu Comentário