O Lonely Planet diz que o Moranbong (ou monte Moran) é o parque preferido dos pyongyanos e o lugar perfeito para interagir e ver como eles relaxam nos seus dias de folga.

Eu já esperava um ambiente levemente descontraído quando cheguei lá, afinal era um domingo e um feriado de sol ao mesmo tempo. Mas nem nos meus melhores sonhos norte-coreanos eu poderia imaginar o que acabei vivendo naquele lugar.

O Morambong fica no centro de Pyongyang e é conhecido localmente como “o jardim da cidade”. É um parque bem grande, bonito, cheio de árvores, trilhas e até lugares históricos, todos com vista para a capital e para algumas atrações turísticas que ficam ao seu redor.

Era 9 de setembro, o Dia Nacional da Coreia do Norte (o equivalente ao nosso 7 de Setembro).

A cidade estava em festa, com as pessoas vestindo as suas melhores roupas e visitando os lugares considerados sagrados na data – todos os lugares onde existem estátuas dos líderes ou que fazem referência aos soldados mortos em combate.

Também era o meu primeiro dia inteiro por lá e tudo era muito novo. Eu não sabia até onde poderia ir a tal interação com os norte-coreanos. Havíamos visitado alguns lugares pela manhã, depositado flores para os líderes e para os soldados e, até aquele momento, tudo parecia ser bem formal e cheio de cuidados.

Então almoçamos e fomos caminhar pelo Morambong.

O primeiro contato já foi bom.

Ainda estávamos na entrada, ao pé do morro, mas dava para ver que o parque estava cheio. Começamos a caminhar por ruas internas, passamos por algumas construções sem graça, até que entramos em uma trilha pelo meio das árvores.

Na sombra, comecei a ver grupos fazendo piqueniques. Eram muitos, com pessoas deitadas na grama, tocando violão, batendo em tambores e cantando, sempre sorrindo a acenando para aquele gringos caminhando em fila indiana.

Eu estava no fim dessa fila, abismado com o cenário de alegria geral, fotografando e fazendo o vídeo abaixo (não deixe de assistir para entrar no clima).

Minha distração com o momento era tão grande que não percebi o que acontecia lá na frente.

Foi quando a fila de gringos parou, eu olhei para o lado e enxerguei a cena mais surreal e mais emocionante da viagem: dezenas de norte-coreanos dançando e cantando junto com os estrangeiros, inclusive muitos americanos.

Veja com seus próprios olhos, de preferência em tela cheia.

A música vinha de um aparelho portátil precário e estava muito quente debaixo do sol, mas nada atrapalhou.

Aquela situação era tão chocante e emocionante que os estrangeiros ignoraram tudo, se jogaram no meio das pessoas e dançaram animadíssimos. Até os mais carrancudos do grupo se soltaram. Era uma catarse coletiva.

(Eu também fui, é claro. Quem me puxou foi um senhor que gritou “Football! Ronaldo!” quando eu disse que era do Brasil. Para a minha sorte, ninguém filmou minha dancinha ridícula.)

Aquele momento se estendeu por muito tempo, porque ninguém queria sair de lá. Quando acabou, seguimos no clima em uma espécie de gazebo onde senhoras dançavam vestidas com roupas típicas da Coreia, mas com músicas mais calmas. Lá os estrangeiros também foram convidados a participar.

Nosso guia coreano observava tudo sorrindo, de longe, até que avisou que realmente tínhamos que seguir adiante e nos chamou.

Descemos o morro em êxtase, interagindo e cumprimentando ainda mais as pessoas ao redor, até chegarmos no nosso ônibus.

Na minha cabeça, uma alegria imensa e um alívio por ter filmado aquilo.

Estrangeiros dançando com norte-coreanos em um parque ensolarado? Ninguém acreditaria se eu contasse.

O 9 de Setembro norte-coreano tinha virado um dia inesquecível para todos nós.

(Em tempo: desculpe pelos vídeos naquele formato bizarro. Eu estava tão emocionado com tudo que estava vendo que nem percebi que estava gravando com um iPad e na vertical, quando poderia ter gravado na câmera HD e na horizontal. Enfim, a patetada fez parte do momento.)

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Gabriel Quer Viajar foi para a Coreia do Norte com o apoio exclusivo da Koryo Tours.

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Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Por Que Pra Lá – Coreia do Norte

– Visto norte-coreano: uma experiência surreal

– O que se faz na Coreia do Norte

– O que se faz na Coreia do Norte (segunda parte)

– Curiosidades norte-coreanas

DEPOIS DA VIAGEM:

– Coreia do Norte: o país mais estranho do mundo é um país deste mundo

– As (minhas) melhores imagens da Coreia do Norte (como fotografar no país)

– Arirang. A Coreia do Norte a cores

– Air Koryo, a Coreia do Norte que voa

– O que fiz na Coreia do Norte – 1º e 2º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 5º dia

– O que fiz na Coreia do Norte – último dia

– Tony Wheeler na Coreia do Norte

– Gabriel Quer Viajar na CBN

– A Coreia do Norte na prática

– É ético ir para a Coreia do Norte?

– Mulheres de Conforto

– Meu longa-metragem na Coreia do Norte

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    23 Comentários
  1. Muito emocionante o vídeo deve ter sido muito legal o momento mesmo. Parabéns.

  2. Esse post foi sem dúvida um dos mais emocionantes. Apesar dos pesares, você mostra o cotidiano dos norte-coreanos por outra ótica, e é nisso que reside todo o sentindo de viajar. Parabéns, espero um dia poder presenciar tudo isso ao vivo.

  3. É por esses momentos especiais que viajar se torna uma das melhores coisas da vida…e ficam na nossa cabeça para sempre.
    Lindo post. Aliás, qual não é? 🙂
    Um abraço!

  4. Adorei as danças dos norte coreanos.
    Adorei mais esse post.

  5. Gabriel,

    Muito legais essas “curiosidades” que você escreve em paralelo ao relato dos dias na Coreia. Os detalhes sob a ótica de um viajante são muito interessantes, a gente que lê acaba se identificando e pensando nas mesmas palavras das descrições. Show de bola!

    Abs.,

  6. Adorei seu blog. Muito bom. Desculpe-me Gabriel, mas aquela dança é ensaida e as pessoas estão lá obrigadas. É coisa para inglês ver, literalmente. abraços.

  7. Da pra sentir que tudo isso sempre é encenado para enganar à nós,turistas. Meu primo foi ha 3 anos e achou tudo muito falso. Bom mesmo,segundo ele,eram as delicias das guardas de transito norte coreanas kkkk

  8. Car@#$%¨Gabriel

    P@#$% Q&¨ P#$¨& esse post. É incrível !!!

    É só isso que posso escrever no momento.

  9. Emocionante e sensível! Parabéns!!

  10. oi!
    acabei de descobrir seu blog procurando algumas coisas sobre a Coréia, é que estou lendo “Nada a invejar” (que vi num dos posts que vc recomenda tb) e confesso que fiquei confusa depois que vi o vídeo da dança. como não terminei o livro, é dificil de encaixar uma coisa na outra (sei que ele fala de uma época um pouco distante, mas mesmo assim parece um outro mundo).
    parabéns pelo blog!

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