Antes de ir para a Coreia do Norte, publiquei um post com as atrações previstas no meu tour pelo país.

Nele, escrevi que qualquer roteiro poderia ser modificado na última hora de acordo com a vontade da agência de turismo norte-coreana, que cancelava atrações caso acontecesse qualquer problema mínimo, já que tudo tem que parecer perfeito para os estrangeiros.

Ao menos era isso que eu havia lido em pesquisas pré-viagem.

Hoje, sei que não é bem assim. Os roteiros mudam, sim, mas não é por qualquer bobagem. O tal transtorno obssessivo-compulsivo do governo norte-coreano com a perfeição das suas atrações não é tão grave.

Na verdade, aos olhos do viajante, um tour em grupo pela Coreia do Norte é, ao mesmo tempo, superorganizado e completamente solto.

“Superorganizado” porque as atrações são apenas as autorizadas pelo governo. Não existe a chance de conhecer “um lugarzinho que pareceu bonitinho no meio do caminho” se aquele lugarzinho não estiver na lista de destinos permitidos.

“Completamente solto” porque, dentro dos limites impostos pelo governo, a quantidade lugares permitidos para estrangeiros é enorme e muitos podem ser incluídos no tour se o guia achar que existe tempo para isso. Aliás, o guia é fundamental para essa frouxidão turística, já que é ele quem decide quanto tempo você vai ficar em cada atração e para onde você vai logo em seguida. Ao menos em um tour em grupo, como era o meu.

Na minha viagem aconteceram duas modificações para pior e várias para melhor.

As duas negativas foram a ausência da visita ao mausoléu de Kim Il-sung, fechado desde a morte de Kim Jong-il, e da Exibição Internacional da Amizade, cuja estrada de acesso estava detonada por causa das chuvas que aconteceram por lá poucos antes da minha chegada.

Mausoléu de Kim Il-sung, que só vi de longe

As positivas foram as inclusões de vários lugares que não estavam previstos e que aconteceram por causa de pelo menos dois aspectos importantes em uma visita em grupo à Coreia do Norte:

1 – Quando o guia norte-coreano é respeitado e tem confiança de que o grupo não tem engraçadinhos tentando burlar as regras de turismo, ele fica feliz e, consequentemente, com vontade de mostrar o máximo possível para todos. Por outro lado, quando ele está estressado e desconfiado, sua viagem é sumariamente boicotada. Por isso é fundamental respeitar as orientações dele e não tocar em assuntos delicados.

2 – As atividades turísticas começam cedo e terminam tarde, em uma média de 13 a 14 horas por dia. Se você contar que a maioria das atrações demora bem menos de uma hora, vai aí mais de uma dezena de pontos turísticos visitados diariamente.

Haja atrações para preencher esse tempo. E aqui é bom ressaltar outra característica importantíssima de uma viagem para a terra dos Kim: nem todas as atrações são interessantes e algumas são completamente entediantes, mas elas fazem parte do clima da viagem.

Lembre-se sempre: você está em um país governado por uma ditadura que se esforça horrores para mostrar ao mundo que aquele lugar não é o fracasso econômico que todos sabem que é. E como ela mostra isso? Levando você para os melhores e mais lindos monumentos, mas também para fábricas supostamente modernas e fazendas supostamente superprodutoras que “provam” que o comunismo norte-coreano é o caminho para o desenvolvimento do nosso planeta.

Às vezes é cansativo demais da conta, eu admito. Mas se você estiver preparado para isso, vai se divertir bastante. E, se não estiver, os highlights da viagem são tão incríveis que fazem a ladainha pró-comunismo valer muito a pena.

Para ilustrar o que eu disse até agora, preparei 3 posts que mostram o que eu vi por lá, na ordem cronológica. Este é o primeiro.

Ao longo da série, você vai perceber que alguns lugares não têm imagens feitas por mim (ou nem têm imagens) e eu assumo que foi por uma estupidez minha: na preocupação de fazer fotos bonitas, esqueci completamente de fazer fotos simplesmente informativas. Se serve de consolo, eu garanto que os lugares que não fotografei eram completamente sem graça.

Vamos lá.

PRIMEIRO DIA: CHEGADA EM PYONGYANG

ARCO DO TRIUNFO

No caminho do aeroporto para o hotel, já paramos na primeira atração.

Inspirado no seu primo francês (e dizem que 3 metros mais alto e, portanto, o maior do mundo) o Arco do Triunfo norte-coreano foi construído em 1982, no local onde o Grande Líder, Kim Il-sung, falou para o povo depois de supostamente liderar a liberação do país da ocupação japonesa, em 1945.

Aliás, o triunfo ao qual ele se refere é justamente esse, sobre os japoneses.

KORYO HOTEL

A previsão era ficarmos hospedados no hotel Yanggakdo, mas houve uma mudança de última hora e fomos para o Koryo. Eu achei bem melhor. Ao contrário do Yanggakdo, que fica em uma ilha no rio Taedong e isolado da cidade, o Koryo é um hotel central, o que permite ver o dia a dia dos norte-coreanos.

Vista lateral do meu quarto no Koryo Hotel

Ele foi construído em 1985 e tem duas torres de 45 andares cada, com restaurantes giratórios no topo. O detalhe é que apenas um dos restaurantes funciona. O outro foi fechado depois que as autoridades perceberam que, dele, dava para enxergar a “cidade proibida” (o quarteirão isolado onde vivem as principais cabeças do governo).

O Koryo fica em uma rua movimentada, a uns 200 metros da estação central de trem de Pyongyang. Mesmo assim, no último dia, fizemos o trajeto do hotel até e estação usando um ônibus. A desculpa dos guias era de que seria mais fácil de levar as malas dessa maneira.

ARIRANG E O ESTÁDIO MAY DAY

Não preciso falar do Arirang, né? Se você ainda não sabe o que é, descubra aqui.

O May Day é um estádio com capacidade para 150 mil pessoas e dizem ser o maior do mundo. Para mim, pareceu apenas um estadião.

SEGUNDO DIA: FERIADO NACIONAL

PARQUE DAS FONTES MANSUDAE

Um parque pequeno, ligado ao local onde ficam as famosas estátuas do Grande e do Querido Líder. Tem fontes bonitas, esculturas e dois paineis enormes com os rostos dos líderes, em cima de uma colina, olhando para as pessoas que passam embaixo.

GRANDE MONUMENTO MANSUDAE

É provavelmente o monumento mais visitado por turistas e também foi onde eu tive que me curvar aos líderes pela primeira vez.

Fica no alto de uma colina, em uma praça enorme com duas esculturas de soldados (chamadas de “A Batalha Revolucionárioa Anti-Japoneses” e “A Revolução Socialista e a Construção Socialista”) e com vista para a cidade. Dizem que as estátuas dos líderes são de bronze, mas eu desconfio fortemente que elas são de plástico.

Estive lá no dia nacional deles. O lugar, que já é considerado sagrado em dias normais, vira um centro de peregrinação em uma data dessas e exige que o turista seja ainda mais respeitoso.

Em outro dia, enquanto passávamos pelo local de ônibus, vi uma cena inesperada: a estátua de Kim Il-sung estava coberta por um pano branco, provavelmente para limpeza ou manutenção. O Grande Líder parecia um grande fantasma sobre a cidade.

A ESTÁTUA DE CHOLLIMA

Não foi exatamente uma visita, mas ficamos bem perto da estátua dessa espécie de Pégaso coreano capaz de percorrer 400 km por dia. O nome Chollima significa “cavalo de mil milhas” e sua história foi usada pelo Grande Líder para motivar a população a reconstruir o país depois da Guerra da Coreia, no que ficou conhecido como Movimento Chollima.

Hoje, tudo que é veloz é logo relacionado a Chollima. Lembra da seleção norte-coreana de futebol, aquela que levou uma tunda de gols na Copa de 2010? Ela é conhecida por lá como Chollima, desde que ganhou da Itália na Copa de 66.

CEMITÉRIO DOS MÁRTIRES REVOLUCIONÁRIOS

Uma mistura de cemitério e memorial para os combatentes norte-coreanos mortos nas guerra do país. Alguns defuntos famosos estão lá, como a primeira esposa do Grande Líder e também a mãe do Querido Líder.

É outro local sagrado. Fica no alto de uma montanha um pouco afastada do centro da cidade, com uma vista perfeita para a capital.

FOREIGN LANGUAGE BOOKSHOP

É onde os turistas satisfazem seus desejos capitalistas comprando DVDs, livros e quinquilharias revolucionárias, mas não é o paraíso que eu imaginava. Sofri para encontrar um livro interessante e pôsteres legais.

PRAÇA KIM IL-SUNG

Segundo o livro que comprei lá, é nada menos que “a principal praça do país”, onde todas as paradas militares e celebrações acontecem.

Fica na beira do rio Taedong, que corta Pyongyang, de frente para a Torre da Ideologia Juche e para a Grande Casa Popular de Estudos (sobre os quais falarei em outros posts).

Tem 75 mil metros quadrados e dizem que comporta até 100 mil pessoas. No chão, dá para ver as marcações de posições que são usadas em eventos militares.

MONUMENTO À VITORIOSA GUERRA DE LIBERTAÇÃO DA PÁTRIA

Outra praça gigantesca cercada por esculturas de soldados em batalha. Na extremidade dela, uma escultura enorme chamada “Vitória” mostra um soldado carregando a bandeira do país.

Essa praça também é o melhor lugar para enxergar o hotel Ryugyong, que não é visitado por turistas.

O Ryugyong começou a ser construído em 1987, com previsão de término em 1989. Era para ser um dos maiores hoteis do mundo, mas as coisas complicaram na economia local e o bicho está atrasado em 23 anos (até o momento). Tem 105 andares e, agora, a previsão de inauguração é 2013 – o que não garante absolutamente nada.

PARQUE MORAMBONG

O lugar onde eu vivi um dos momentos mais emocionantes da viagem. Leia o post sobre isso.

PORTÃO TAEDONG

Pyongyang foi fundada em 1122 a.C. mas foi totalmente destruída nas guerras que viveu recentemente e, por isso, é muito difícil encontrar lembranças arquitetônicas do passado. Entre as poucas ainda em pé está o Portão Taedong, uma das entradas da antiga cidade murada que existia lá.

Ele foi construído no século 6 e reconstruído em 1635. Fica na beira do rio Taedong, que corta a cidade.

GOLDEN LANE BOWLING CENTRE

O Golden Lane não tem ar-condicionado, a iluminação é precária, a infraestrutura é bem ruim, mesmo assim é o preferido da galerinha descolada de Pyongyang.

A passagem por ele é outro momento de descontração e interação com a população, já que a circulação pelos dois andares do estabelecimento é livre. Sim, livre: se o guia já tiver percebido que o grupo é confiável, ele não fica cuidando de todo mundo como uma babá.

No meu caso, o grupo aproveitou essa liberdade e se espalhou. Alguns foram jogar boliche, outros partiram para a sinuca e outros ficaram apenas observando enquanto bebiam uma cervejinha (a minha escolha).

Em determinado momento, alguns norte-coreanos que estavam jogando boliche na minha frente me convidaram para participar. Neguei o convite gentilmente, dizendo que era muito ruim naquilo, mas pedi para fazer uma foto, que eles toparam felizes.

MASS DANCE

O evento conhecido como “mass dance” acontece em dias especiais no país, como era o caso daquele 9 de setembro, Dia Nacional da Coreia do Norte. Nessas datas, grupos enormes de homens e mulheres colocam suas melhores roupas e se reúnem em praças da capital para dançar.

Os passos das danças são coreografados, mas bastante simples (assista ao vídeo), e os turistas são convidados participar.

Foi outro momento marcante na viagem, apesar de ter sido rápido: como estávamos de saída para a cidade de Nampo, ficamos apenas 30 minutos e seguimos adiante.

MONUMENTO À FUNDAÇÃO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES

Como você deve ter percebido, o mass dance aconteceu em frente ao um dos monumentos mais clássicos de Pyongyang, uma obra em homenagem ao partido que governa o país desde 1949. Ele foi inaugurado em 1995 e mostra esculturas com 50 metros de altura de um martelo, um pincel e uma foice, representando os trabalhadores, os intelectuais e os camponeses.

RYONGGANG HOT SPRINGS, NA CIDADE DE NAMPO

Depois de ver a mass dance, seguimos em direção à cidade de Nampo, a 50 km de Pyongyang. Foi o primeiro contato com o interior do país.

Apesar de ter espaço para umas 8 pistas, a estrada até lá estava praticamente vazia. Nos acostamentos e nas ciclovias, pessoas caminhavam e pedalavam no meio do nada em pleno início de noite. Fiquei imaginando para onde elas iriam, já que logo tudo aquilo estaria um breu.

(Essas fotos foram feitas no dia seguinte, pela manhã.)

O destino era um hotel termal fora da cidade, mas no caminho passamos pelo centro de Nampo. Como já era noite, deu para perceber que a crise energética que atinge Pyongyang de leve é bem mais forte no interior: praticamente todas as ruas de Nampo estavam às escuras. Mesmo assim, muita gente caminhava nas calçadas, iluminadas apenas pelos farois do nosso ônibus, dos poucos carros e das poucas bicicletas equipadas com luzes.

O Ryonggang Hot Springs Hotel é um lugar construído pelo governo norte-coreano para receber visitas ilustres, mas hoje é um hotel com águas termais que “curam hipertensão, artrite, nevralgias, lumbago, sequelas de operações, gastrite crônica, colite crônica, problemas de pele e etc.”

(Observação: eu amo o livro norte-coreano que comprei sobre as atrações turísticas do país.)

Os quartos ficam em 7 pequenas casas espalhadas por uma área bem grande, onde também existe um casarão que serve de recepção, sala de jogos, restaurante e administração do lugar.

Nampo é uma cidade litorânea de frente para o Mar Amarelo e tem tradições de cidades desse tipo. Uma delas foi apresentada a nós no jantar daquele dia: um churrasco de marisco.

O churrasco é bem simples, para não dizer tosco: ainda dentro das conchas, um monte de mariscos é reunido em cima de um chão de pedras, onde é derramado algum líquido inflamável que é aceso e mantido por algum tempo. Depois, todo mundo pega seus mariscos e come.

Achei uma grande porcaria, porque o marisco fica com gosto do líquido inflamável (que não lembro qual era), mas foi interessante imaginar que aquele churrasquinho primitivo deve ter salvado muitos habitantes de Nampo da fome que atingiu a Coreia do Norte nos anos 90.

Depois do churrasquinho, fomos avisados de que teríamos água quente nos quartos por uma hora durante a noite e por outra hora durante a manhã. Estávamos no lucro. Segundo nossa guia da Koryo Tours, a falta de água quente é bem possível e comum em hoteis pelo interior do país. Mas nós tivemos sorte. Era só escolher o melhor momento para o banho e terminar o segundo dia.

Próximo capítulo: O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias. Os dias mais comunistas da viagem.

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Gabriel Quer Viajar foi para a Coreia do Norte com o apoio exclusivo da Koryo Tours.

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Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Por Que Pra Lá – Coreia do Norte

– Visto norte-coreano: uma experiência surreal

– O que se faz na Coreia do Norte

– O que se faz na Coreia do Norte (segunda parte)

– Curiosidades norte-coreanas

DEPOIS DA VIAGEM:

– Coreia do Norte: o país mais estranho do mundo é um país deste mundo

– As (minhas) melhores imagens da Coreia do Norte (como fotografar no país)

– Arirang. A Coreia do Norte a cores

– Air Koryo, a Coreia do Norte que voa

– Dançando com norte-coreanos

– O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 5º dia

– O que fiz na Coreia do Norte – último dia

– Tony Wheeler na Coreia do Norte

– Gabriel Quer Viajar na CBN

– A Coreia do Norte na prática

– É ético ir para a Coreia do Norte?

– Mulheres de Conforto

– Meu longa-metragem na Coreia do Norte

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    26 Comentários
  1. De nada!!!
    A coreia do norte sempre me causou muita curiosidade, justamente pela falta de informação. Buscando imagens de lá achei seu blog e li tudo de lá ontem, vi os videos, as fotos, foram tantas informações absorvidas que parece que acabei de visitar o país. rsrsrsrs
    Infelizmente viajar não é barato e o seu blog é muito legal, pois podemos viajar nele enquanto não temos dinheiro pra ir pessoalmente.
    De resto espero que um dia essa ditadura acabe e eles possam ter liberdade de ir e vir, ler o que quiserem e conhecerem o mundo como nós!
    Novamente, parabéns pelo bolg!!!

  2. Fala aí amigo! Eu sei que o post já é bem antigo mas tava procurando informações a respeito do turismo pro país, que tenho o sonho de visitar pela curiosidade a respeito da outra realidade bem diferente da realidade ocidental. Parabéns pelas curiosidades e informações!
    Apenas uma observação, a Coreia do Norte não é um país comunista, e sim socialista (Sim, tem diferença!). No comunismo não há Estado, e o Estado norte-coreano, vamos combinar, é abundante hahaha!

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