Sei que eu prometi fazer a série “O que fiz na Coreia do Norte” em 3 capítulos, mas mudei de ideia na hora de escrever sobre os dois últimos dias. É que, ao contrário dos outros, esses foram dias com temas que merecem posts exclusivos.

Dito isso, vamos ao 5º dia da viagem, o dia da visita ao um dos lugares mais tensos do mundo: a Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias.

Depois de 4 dias repletíssimos de atividades, finalmente o meu grupo teve um dia com pouca coisa para fazer, o que não significou que tivemos tempo para dormir e relaxar. O 5º dia começou mais cedo do que todos os outros, já que a viagem até Kaesong, a cidade mais próxima do principal posto de fronteira com a Coreia do Sul, leva 2h30 e não podíamos chegar lá muito tarde.

Rishabh Tatiraju (CC BY-SA 3.0)

Logo no início do deslocamento, o guia norte-coreano deu a sua orientação mais séria de todas: durante a viagem, passaríamos por vários postos de fiscalização militar e era terminantemente proibido fotografar qualquer um deles. Mais do que isso, para evitar qualquer mal entendido, deveríamos guardar todas as nossas câmeras e nem tocar nelas até que ele avisasse.

Todos guardaram seus equipamentos e ficaram bem pianinhos.

A estrada que liga Pyongyang e Kaesong tem o nome de Estrada da Reunificação e é exclusiva para as duas cidades, por isso é um caminho aberto entre a fronteira e a capital, o que explica a paranoia militar em torno dela. Mas tudo correu bem, não houve nenhum problema. Depois de horas em uma estrada deserta, chegamos na Zona Desmilitarizada, também chamada de DMZ (Demilitarized Zone) e Panmunjon.

Na verdade, chegamos na entrada da DMZ, um lugar ainda afastado da fronteira, onde existe o último posto de segurança, com uma lojinha de lembranças, banheiros, uma sala com um mapa enorme de toda a região e uma barreira antitanque que praticamente delimita o fim da estrada.

Todos tiveram que descer do ônibus. O clima no lugar é de quartel e o ar é tenso. Ao contrário do que havíamos visto até o momento, os soldados na área são sérios e intimidadores.

Fomos levados para a tal sala onde existe o mapa enorme. Lá dentro, o soldado que seria o nosso guia pela DMZ contou a versão norte-coreana da Guerra da Coreia, mostrou onde estávamos, como é a linha de fronteira e o que iríamos conhecer.

Depois, já do lado de fora, mandou que fizéssemos duas filas indianas em frente a uma linha marcada no chão, enquanto aguardávamos que o nosso ônibus passasse pela barreira antitanque.

Nesse momento, uma colega de grupo, completamente sem-noção, resolveu fazer uma foto do pessoal de frente e caminhou em direção à tal linha no chão. Ela foi, foi, foi… e cruzou a linha. Imediatamente, um soldado apitou e deu um grito que deve ter feito ela soltar o esfíncter de susto. A moça retornou para o fim da fila sabendo que não dá para ser bobo na DMZ.

O ônibus passou e seguimos atrás dele a pé por alguns metros, ainda em fila. Depois entramos e continuamos até a Armistice Talks Hall, ou a sala de negociações do armistício entre as duas Coreias, onde foi assinado o acordo do fim da guerra, em 1953. Ao lado dele, um grande galpão guarda fotos dos conflitos e das negociações, além de cópias de acordos, tudo sob o ponto de vista norte-coreano, é claro.

Voltamos para o ônibus de novo, para andar outro pouquinho, desta vez até a linha de fronteira propriamente dita. É lá que se percebe que o bicho pega mesmo no lugar.

Os soldados estão claramente tensos, vigiando cada passo que a gente dá, e a orientação é permanecer em grupo. As fotografias são liberadas, mas o bom senso diz que não convém abusar.

Os dois prédios maiores ficam de frente um para o outro, cada um na sua Coreia (veja o esquema abaixo).

Entre eles, alguns galpões ficam sobre a linha divisória, com metade para cada lado dela. É nesses galpões que acontecem todas as negociações entre os dois países, em mesas colocadas exatamente em cima da fronteira.

Entramos em um dos galpões. Lá dentro, dois soldados norte-coreanos nada simpáticos guardavam a porta que dá acesso ao lado sul.

Tecnicamente, enquanto o local está sendo utilizado por um dos países, ele é daquele país, mesmo que esteja atravessando a linha entre os dois. Isso permite que os turistas passem da linha quando estão dentro do galpão, “entrando” no território do vizinho. No meu caso, andei alguns metros na Coreia do Sul.

Na saída, fizemos uma pausa bem rápida para uma foto do grupo. Foi quando aconteceu algo interessante.

Todos os soldados, tanto os do norte quanto os do sul, começaram a se agitar e entraram em formações que indicavam um aumento na tensão. De repente, dois soldados completamente diferentes (meu chute: americanos) saíram do grande prédio norte-coreano e caminharam em direção à linha divisória.

Eles atravessaram calmamente, prestaram continência aos soldados sul-coreanos e caminharam um pouco mais para dentro do sul, onde posaram para fotos como se nada tivesse acontecido. Parecia que estavam na Disney, não na DMZ.

Um fim um tanto inesperado para a visita ao local mais tenso da Coreia do Norte.

No retorno para aquele posto onde havia a barreira antitanque, todos já estavam mais soltos, inclusive o nosso guia-soldado, que aproveitou os poucos quilômetros da carona para chegar chegando nas turistas americanas loiras.

De lá, seguimos para a cidade de Kaesong, onde continuamos com o roteiro abaixo.

MUSEU KORYO E LOJA DE SOUVENIRES

O museu Koryo é uma área aberta e bem grande, com vários pátios internos e construções que lembram templos. É um ótimo ambiente para caminhar um pouco e aliviar a tensão da DMZ, mas não tem nada de muito interessante além dos próprios prédios antigos. A maioria das peças expostas é réplica de algo, sem nenhum valor histórico.

A principal atração está mesmo do lado de fora, onde fica a loja de lembranças do museu. Foi o único lugar onde encontrei postais e pôsteres com temas revolucionários (aqueles que estão à venda na Lojinha do blog), o que mostra que os norte-coreanos não têm aptidão para o capitalismo, já que fariam rios de dinheiro vendendo aquelas coisinhas em Pyongyang.

RESTAURANTE REUNIFICAÇÃO

Esse lugar não entraria nessa lista se não fosse por um detalhe culinário: foi nele que eu comi cachorro.

As reservas para o prato especial haviam sido feitas na noite anterior. Quando a guia inglesa perguntou quem gostaria de provar a iguaria coreana, eu nem pensei duas vezes e respondi “Eu!”. Já que eu estava na Península da Coreia, eu precisava provar o prato mais odiado do mundo.

Num primeiro momento, logo depois de fazer minha reserva, nem dei bola. Mas à medida em que o tempo passava e a hora do almoço se aproximava, comecei a temer. O que seria colocado na minha mesa? Que aspecto teria? Será que dava tempo para voltar atrás?

Decidi encarar e segui em frente. Sentei à mesa junto de um americano que também havia reservado cachorro. Numa ironia fantástica do destino, à nossa frente sentaram os 4 vegetarianos do grupo, que ficaram nos observando com ódio nos olhos.

Então veio o prato principal. Levantei a tampa da panela imaginando encontrar o cadáver de um Pinscher ou de um Yorkshire, mas o que vi foi apenas uma sopa. Mexi um pouco com os pauzinhos e vi que o cachorro (fosse de que raça fosse) estava desfiado. Menos mal. O aspecto não era pavoroso.

O sabor? Olha, se hoje me disserem que aquilo era gado, eu vou acreditar. Não percebi diferença nenhuma, até porque o prato era extremamente apimentado, o que fez a vegetariana na minha frente brincar dizendo que aquilo era um “hotdog”.

MONTE JANAM

Já havia tempo que não fazíamos reverência a uma estátua de Kim Il-sung. Quando paramos no mirante desse morro e vi mais uma estátua do homem, achei que era hora de me curvar mais uma vez, mas errei. Vimos a estátua apenas de longe e não precisamos abaixar a cabeça para ela.

A parte mais interessante da visita foi enxergar o pouco que resta da Kaesong ancestral. Lá de cima, é possível ver o conjunto de casas mais antigo da cidade que já foi a capital da dinastia Goryeo (que deu o nome à toda a Coreia), mas sofreu muitos bombardeios durante as guerras e foi quase totalmente destruída.

TUMBA DO REI KONGMIN

Saindo um pouco de Kaesong, chegamos a um lugar lindo, no meio de montanhas e de muito verde. É lá que fica a tumba do rei Kongmin, da dinastia Goryeo, e de sua esposa. Ambas são do século 14 e estão muito bem conservadas. Uma atração completamente diferente de tudo que vimos na Coreia do Norte.

Depois disso, voltamos para Pyongyang pela mesma estrada. Fomos direto para um restaurante, jantamos e dividimos o grupo em dois: alguns foram assistir ao Arirang mais uma vez, outros foram terminar a nossa última noite bebendo no Taedonggang Diplomatic Club, um clube/boate exclusivo para estrangeiros em um prédio que, segundo me disseram, foi a embaixada de algum país do leste europeu há muitos anos.

Eu acabei fazendo as duas coisas.

Fui ver o Arirang mais uma vez e, depois, peguei uma carona até o clube.

Não deu para aproveitar muito, porque todos já estavam bêbados, caindo de sono ou até já haviam ido embora (os americanos precisavam acordar muito cedo no dia seguinte, já que tinham voo para Pequim). Mas consegui ver que o tal Diplo, como o clube é conhecido entre os habitués, é absurdamente grandioso e brega (veja algumas fotos aqui).

Nada melhor para a última noite na Coreia do Norte.

Próximo capítulo: O que fiz na Coreia do Norte – 6º dia. O trem de volta para a China.

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Gabriel Quer Viajar foi para a Coreia do Norte com o apoio exclusivo da Koryo Tours.

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Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Por Que Pra Lá – Coreia do Norte

– Visto norte-coreano: uma experiência surreal

– O que se faz na Coreia do Norte

– O que se faz na Coreia do Norte (segunda parte)

– Curiosidades norte-coreanas

DEPOIS DA VIAGEM:

– Coreia do Norte: o país mais estranho do mundo é um país deste mundo

– As (minhas) melhores imagens da Coreia do Norte (como fotografar no país)

– Arirang. A Coreia do Norte a cores

– Air Koryo, a Coreia do Norte que voa

– Dançando com norte-coreanos

– O que fiz na Coreia do Norte – 1º e 2º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – último dia

– Tony Wheeler na Coreia do Norte

– Gabriel Quer Viajar na CBN

– A Coreia do Norte na prática

– É ético ir para a Coreia do Norte?

– Mulheres de Conforto

– Meu longa-metragem na Coreia do Norte

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    15 Comentários
  1. Olá Gabriel, gostei muito de tudo que postou sobre a Corea do Norte,
    Qual a próxima aventura?. Moro na França, acabei de conhecer seu blog.

  2. JB,
    Já estive na DMZ pelo lado sul coreano e não há restrição referente a roupas.
    Cristian

  3. a Coréia do norte vista de outro ângulo…parabéns, mas em relação ao povo de lá, será que são tão sofridos?

  4. 1 2
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