Eu poderia ter voltado de avião. Teria sido bem mais confortável e muito mais rápido, apesar da tensão de ter que voar de Air Koryo de novo. Mas não. Em algum momento, enquanto planejava tudo, eu resolvi que precisava aproveitar a viagem para uma experiência rara.

A experiência de viajar de trem entre Pyongyang e Pequim.

Tudo começou às 9h30 da manhã, quando saímos do nosso hotel. A estação ficava a apenas uns 300 metros da nossa recepção, mas o guia exigiu que fôssemos até ela no nosso ônibus, alegando que seria mais confortável para levar a bagagem.

Chegamos na estação por uma entrada lateral, o que me impediu de ver como era o saguão principal. Já ali, naquela “entrada vip” percebi que a muvuca de uma estação de trem em Pyongyang era muito parecida com a de qualquer estação de trem do mundo (assista ao vídeo abaixo e me desculpe pela qualidade. Sou péssimo em vídeos.)

Na porta e na plataforma, havia muita gente, muitas malas, muitas famílias. A única diferença parecia ser algo impossível de enxergar, mas que me veio à cabeça logo que vi algumas pessoas chorando discretamente: como é se despedir de alguém que você ama na Coreia do Norte?

Pelo que li antes de viajar, a principal (e talvez a única) forma de comunicação entre famílias espalhadas pelo país é o correio, já que ligações telefônicas não estão disponíveis para todos e a internet não existe para eles.

Então, em pleno 2012, eu estava vendo cenas que escondiam um sentimento raro nos nossos dias: o de ficar muito tempo sem contato com pessoas queridas e de só receber notícias com atraso.

No meio daquela zoeira e dos meus pensamentos filosóficos, nosso guia nos levou até os vagões internacionais, aqueles onde vão os estrangeiros e os poucos norte-coreanos que cruzam a fronteira com a China. Fizemos algumas fotos e nos despedimos também.

O trem partiu pontualmente. Na janela, as últimas imagens de Pyongyang foram passando, passando, passando… até que pararam. Sem nenhuma explicação, o trem ficou parado por duas horas em uma região ainda dentro da capital, mas um pouco afastada.

No início da parada, achamos que seria algo rápido e seguimos conversando nos corredores dos vagões internacionais, confortáveis, com suas cabines de 4 beliches e sem fotos dos líderes. Mas depois de algumas dezenas de minutos, eu e o Guilherme (outro brasileiro perdido por lá, no meu grupo) resolvemos desbravar o trem para encontrar o vagão-restaurante.

A circulação por todos os vagões é livre. As únicas orientações são não fotografar sem autorização das pessoas, principalmente de militares, não fotografar estações (ordem que eu não cumpri, como você vai ver mais abaixo) e, obviamente, não descer do trem em nenhum lugar.

Passamos por alguns vagões locais, bastante simples e velhos, com bancos estofados, madeira nas paredes, as onipresentes fotos da dupla de ditadores e muitos norte-coreanos de todas as idades. Até ali, tudo bem. Mas quando chegamos no vagão-restaurante, a escolha pela volta de 24 horas de trem pareceu ter sido um erro escabroso.

Infelizmente não fotografei, porque havia soldados em todas as mesas, mas não vou esquecer a imagem: o ambiente estava sujo e caindo aos pedaços, as mesas eram de alumínio e os bancos eram de madeira. Todos fumavam com as janelas fechadas. A comida tinha um aspecto tenebroso que me fez agradecer a guia da Koryo Tours por sugerir que levássemos muitas bolachas para comer nas primeiras horas.

Sem escolha, nos sentamos, abrimos a janela ao nosso lado e ficamos ali por muito tempo, bebendo Fanta e comendo nossos lanches. Não me animei nem a pedir a Quilmes argentina que enxerguei na mesa ao lado, ocupada por oficiais norte-coreanos. Apenas fiz uma foto sorrateira para provar que eu havia visto aquilo.

O trem voltou a andar e seguimos viagem, passando e parando em várias estações. Em todas, sempre havia a foto do Grande Líder e uma bagunça enorme, com muitas pessoas nas plataformas. Naqueles lugares, já longe da capital-vitrine do país, a pobreza começava a ficar mais evidente, mas não era a miséria que o mundo inteiro sabe que existe em lugares não autorizados a turistas.

Então resolvemos que era hora de voltar para nossas cabines para preparar nossas coisas para a revista na fronteira.

Segundo as orientações dadas pela Koryo Tours, a revista era feita manualmente durante duas horas, ainda do lado norte-coreano. Todas as bagagens e câmeras eram revistadas, com as famosas ordens para apagar imagens consideradas ofensivas ao país ou aos líderes.

Entre os estrangeiros, começaram a circular ideias para esconder cartões de memória, proteger imagens ou enganar os oficiais pulando fotos na apresentação. Mas não deu tempo. De repente, ainda longe da fronteira, um grupo de soldados entrou nos nossos vagões e começou a pedir os passaportes. Por causa do atraso em Pyongyang, eles se deslocaram até uma cidade no caminho e adiantaram a revista, para ganhar tempo.

O susto foi grande, é claro. Alguns viajantes (eu, inclusive) ficaram bastante nervosos com a entrada inesperada dos soldados. Mas a maior surpresa não foi aquela.

Quando todos esperavam guardas mal humorados e loucos para estragar a viagem dos gringos, o que apareceu foi um grupo de pessoas sorridentes, educadas, curiosas com os países dos viajantes e – pasme! – piadistas a ponto de brincar até com uma gringa que estava fotografando justamente uma estação de trem.

No final, para o alívio de todos, eles simplesmente não olharam nenhuma câmera no nosso vagão e todas as fotos passaram intocadas. Nem a guia inglesa entendeu o que havia acontecido.

Àquela altura, já estávamos parados na estação de Sinuiju, a última cidade antes do Rio Yalu, que divide a Coreia do Norte e a China. É lá que acontece a separação entre os vagões internacionais e os locais, com esses últimos retirados da composição e apenas os outros levados pela ponte que liga os dois países.

Quando o trem começou a andar, tivemos a última visão ainda em território norte-coreano: a última estátua de bronze de Kim Il-sung, vista através de árvores, virada de costas para o trem.

Enquanto cruzávamos o Rio Yalu, enxergamos a antiga ponte, destruída na Guerra da Coreia e ainda mantida pela metade.

Era uma cena forte, mas não era nada comparada à diferença gigantesca entre o desenvolvimento dos dois países, separados apenas por aquele pedaço de água.

À esquerda, Sinuiju, na Coreia do Norte:

À direita, Dadong, na China:

Depois de 6 dias, estávamos fora da Kimlândia.

No lado chinês, aconteceu um dos momentos mais estranhamente divertidos da viagem. Nossa guia apareceu com o pacote lacrado onde estavam todos os celulares dos viajantes. As caras de alegria e alívio dos estrangeiros, ao receberem seu aparelhinhos, era impagável.

Logo em seguida, os policiais locais vieram verificar nossos vistos. A ordem era para que não saíssemos dos vagões enquanto eles não retornassem com nossos passaportes. Quando eles voltaram, demos uma volta rápida pela estação e fomos logo para o novo vagão-restaurante chinês. Depois de várias horas com bolachas e outras porcarias, aquele lugar moderno, bonito e limpo parecia ter 5 estrelas no guia Michelin.

Na manhã seguinte, exatamente às 8h40, depois de um bom sono, chegamos em Pequim.

Como eu sempre disse aqui, não sofri nenhuma censura extrema na Coreia do Norte e tudo foi muito mais leve do que eu esperava. Mas a simples pressão psicológica para tomar cuidado com o que se faz e o que se fala também pesa e acaba cansando.

Então, no momento em que pisei fora do trem e percebi que podia caminhar para qualquer lado, sem a presença de um guia, sem precisar pedir permissão para nada, podendo gritar qualquer palavrão contra Kim Il-sung e Kim Jong-il, me veio uma sensação de liberdade total e vi que o mesmo aconteceu com os outros estrangeiros. Nós nos olhávamos, respirávamos fundo e sorríamos.

Era muito estranho se sentir livre na China, um lugar onde a palavra “freedom” é bloqueada no Google. Mas era o que estávamos sentindo depois de 6 dias na Coreia do Norte.

Era o fim da aventura no país mais fechado do mundo.

*****

Gabriel Quer Viajar foi para a Coreia do Norte com o apoio exclusivo da Koryo Tours.

*****

Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Por Que Pra Lá – Coreia do Norte

– Visto norte-coreano: uma experiência surreal

– O que se faz na Coreia do Norte

– O que se faz na Coreia do Norte (segunda parte)

– Curiosidades norte-coreanas

DEPOIS DA VIAGEM:

– Coreia do Norte: o país mais estranho do mundo é um país deste mundo

– As (minhas) melhores imagens da Coreia do Norte (como fotografar no país)

– Arirang. A Coreia do Norte a cores

– Air Koryo, a Coreia do Norte que voa

– Dançando com norte-coreanos

– O que fiz na Coreia do Norte – 1º e 2º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 5º dia

– Tony Wheeler na Coreia do Norte

– Gabriel Quer Viajar na CBN

– A Coreia do Norte na prática

– É ético ir para a Coreia do Norte?

– Mulheres de Conforto

– Meu longa-metragem na Coreia do Norte

Você também poderá gostar

Se gostou do que viu, assine o blog!


    39 Comentários
  1. Não costumo fazer comentários, mas como não comentar, acompanhei cada linha dos seus 6 dias norte coreano e ao finalizar seu texto senti como atravensando a fronteira junto, parabens mesmo. excelente

  2. Gabriel, primeiramente gostaria de te parabenizar pelo belo post. Trabalho na TT Operadora, uma empresa apaixonada por Trens e adorei a forma com que você explorou a Coreia do Norte de trem. Apesar de todas estas restrições que o turista enfrenta no país, a Coreia do Norte é considerada um dos países mais seguros do mundo para o turista visitar. Para as pessoas que gostam de cultura e de história é uma ótima pedida.

    Abs,
    Fernando

    • Oi, Fernando! Obrigado pelo elogio! =)
      E, sim, a Coreia do Norte é mais segura do que qualquer cidade brasileira, para os turistas.
      Abraço!

  3. 1 2 3 4
Deixe seu Comentário