No meio da longa birra entre Irã e Estados Unidos, é bastante compreensível que você imagine que nenhum norte-americano seja bem visto no país dos aiatolás.

Mas isso não é verdade, e a melhor prova está em Tabriz, a 5ª maior cidade iraniana.

qiv (CC BY-SA 2.0)

Lá, em um prédio histórico, existe uma grande homenagem a um ianque legítimo, considerado um herói e um mártir do país.

Seu nome é Howard Baskerville.

Vamos algumas contextualizações para você entender essa história.

A atual hostilidade de parte dos iranianos em relação aos Estados Unidos não vem desde o descobrimento da América. Ela só começou em 1953, quando os americanos ajudaram os ingleses no golpe que derrubou o primeiro-ministro da Pérsia Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente, e colocou o poder nas mãos do xá Mohammad Reza.

À esquerda, Mossadegh. À direita, Reza

Até aquele ano, os vilões do povo persa eram apenas os ingleses e os russos, que abusavam do colonialismo e mantinham o país na miséria e no caos.

Com os EUA, o clima era bem diferente.

Segundo o livro Todos os Homens do Xá (de Stephen Kinzer), antes de 1953, “a maioria dos iranianos só tinha sentimentos de admiração [pelos EUA]. Os poucos americanos que eles conheciam eram generosos e devotados, interessados não em riquezas ou poder, mas apenas em ajudar o Irã”.

A admiração não era direcionada apenas para o povo americano, mas também para a Casa Branca, que, por volta de 1919, defendia publicamente os direitos do país nas brigas com os ingleses.

“Os americanos eram um objeto de admiração quase universal”, disse um iraniano que viveu aquele momento.

Howard Baskerville foi um dos que ajudaram a formar essa imagem.

Ele nasceu em 1885, em Nebraska. Estudou em Princeton, virou missionário presbiteriano e se mudou para Tabriz em 1907, onde foi dar aulas de inglês, história e geografia em uma escola.

Naquela época, a Pérsia estava no início da Revolução Constitucionalista.

A revolta popular pedia o fim do poder absoluto do através da criação de um parlamento e de uma constituição. O país vivia momentos muito conturbados, com russos, ingleses e a monarquia defendendo seus interesses em confrontos de verdade, onde tropas pró-xá atacavam os revolucionários.

Em 1909, com 24 anos, Howard se juntou aos defensores da democracia para combater as tropas reais que avançavam sobre Tabriz. Em 19 de abril, quando estava no comando de um batalhão de 150 homens que tentava abrir caminho entre os inimigos para buscar comida para a cidade, foi atingido por uma bala no coração.

Dizem que Howard justificou sua entrada no conflito dizendo “A diferença entre eu e esse povo é o lugar onde nós nascemos. E isso não é uma diferença muito grande”, mas ninguém sabe se as palavras são apenas uma lenda.

Não importa.

Howard poderia ter se escondido no consulado americano em Tabriz e sobrevivido sem nenhum arranhão, mas preferiu lutar ao lado dos seus amigos e dos seus alunos, defendendo a democracia no país onde vivia. Por isso é um herói para os iranianos, que até hoje depositam flores em seu túmulo na cidade.

Pouco tempo depois da sua morte, os moradores de Tabriz fizeram um tapete com o rosto de Howard, para enviar à mãe dele, em agradecimento, mas a homenagem nunca saiu do Irã.

Em 2005, o presidente Mohammad Khatami inaugurou um busto de Howard na Casa Constitucional de Tabriz.

Domínio público | Vathlu (CC BY-SA 3.0)

Na placa embaixo do busto, nenhuma palavra de ódio.

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ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Se você pensa que iraniano é árabe

– Nem tudo é burca

– Feliz ano novo

– Muito prazer, Ferdowsi

– O paraíso é persa

– Arg-e Bam, um tesouro quase perdido

– Temperada com milênios de história (ATUALIZADO DEPOIS DA VIAGEM)

– Vou-me embora pro Irã

– O visto iraniano e uma historinha

– Todos os iranianos do Irã

– Os judeus do Irã

DEPOIS DA VIAGEM:

– Irã – Prologo

– O país mais injustiçado do mundo

– O Irã numa casca de pistache

– Teerã: é amor?

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    1 Comentário
  1. História interessante. Incrível como mudou a imagem dos americanos hoje em dia, não só no Irã, mas no mundo como um todo.

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