Aposto minhas milhas que você nunca leu nada sobre Jean Louis Burckhardt, muito menos sobre Sheikh Ibrahim ibn Abdallah. Mas também aposto que você sonha em conhecer, ao vivo, a maior “descoberta” das vidas deles.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Esta descoberta é Petra, uma das cidades mais místicas do mundo, a atração mais famosa da Jordânia, que foi apresentada aos ocidentais por estes dois homens.

E estes dois homens, na verdade, são apenas um.

Para entender essa novela, vamos voltar um pouco na história.

A região de Petra começou a ser habitada há mais de 9 mil anos e passou pelas mãos de vários povos famosos. Alguns destes povos ficaram por pouco tempo, outros por muito. Entre os que permaneceram por um longo período estão os nabateus, os principais responsáveis pela Petra que vemos hoje, esculpida em pedra.

Eles chegaram na área por volta de 600 anos antes de Cristo. Estavam indo em direção ao sul da Palestina, em busca de um clima melhor do que o deserto infernal da Península Arábica, mas resolveram ficar no lugar em que hoje é Petra, onde encontraram água e a proteção dos desfiladeiros da região.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Na época, aquele já era o caminho das rotas comerciais entre os maiores impérios do período. E os nabateus, que não eram bobos, aproveitaram a posição estratégica para enriquecer, oferecendo segurança e descanso aos mercadores, em troca de impostos bem altos.

Rica e cheia de obras de engenharia brilhantes, Petra cresceu, virou a capital do Reino Nabateu e, por volta dos anos em que Cristo andava pelas vizinhanças transformando água em vinho, era uma metrópole de 30 mil habitantes, moderna, cosmopolita e cheia de vida.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Duto de água criado pelos nabateus (Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-ND 3.0)

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Porém, como nada dura para sempre, o início do comércio marítimo fez com que os nabateus perdessem força e acabassem dominados pelos romanos. Petra ainda seguiu muito importante durante séculos, crescendo e incorporando melhorias e características de outros povos, mas aos poucos foi sendo abandonada e, em 749 d.C., sofreu um terremoto que espantou a população local de vez.

O último registro da cidade foi feito em 1276, por um sultão que estava de passagem pela região. Depois disso, Petra ficou 536 anos escondida dos olhos da maior parte do mundo, até que Jean Louis Burckhardt apareceu por lá em 1812 e mudou a história.

Jean Louis Burckhardt

Jean Louis, um suíco de Lausanne, tinha 28 anos e estava no meio de um período de preparação para uma expedição pela África, em nome de uma associação de exploradores de Londres. Ele havia chegado na tal associação aos 22 anos e sua missão naquele momento era descobrir a nascente do Rio Níger (que, hoje sabemos, fica em Guiné e passa por Mali, Níger e Nigéria).

Como a região africana para onde deveria ir era predominantemente muçulmana e como o início da expedição seria no Egito, Jean Louis havia decidido passar um tempo no Oriente Médio para se familiarizar com a cultura islâmica, antes de se embrenhar África adentro.

Os preparativos tinham começado ainda em Londres, com aulas de árabe, estudos do Alcorão, de astronomia e de medicina, além de uma dieta de vegetais e de noites dormidas ao relento, no chão, para se acostumar com o perrengue que seria a expedição. Depois eles continuaram em Aleppo, na Síria, onde Jean Louis chegou em 1810.

Só que viajar pelo Oriente Médio, naquela época, não era tarefa para qualquer aventureirozinho, não. A região era um mistério para os europeus e muito perigosa, com tribos matando estrangeiros apenas por eles serem diferentes.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Para evitar a própria morte, Jean Louis chegou na Síria dizendo que era um mercador muçulmano da Índia e que sua língua materna era o hindustâni, por isso ele falava árabe com sotaque. Para fechar todas as pontas da sua mentira, criou o seu novo nome: Sheikh Ibrahim ibn Abdallah.

Se alguém descobrisse a verdade, Jean Louis certamente seria morto como espião, mas ele seguiu em frente e passou dois anos estudando na Síria. Só quando já estava falando árabe com perfeição e repetindo o Alcorão de trás para frente, ele saiu em direção ao Egito para finalmente começar a missão.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

A caminho do Cairo, passando pela atual Jordânia, Jean Louis escutou histórias de uma cidade antiga, esculpida em pedras, e ficou louco de curiosidade. O problema era que a tal cidade era proibida, por ter sido supostamente construída por “infiéis”. O nome “Tesouro”, por exemplo, que batiza a construção mais famosa de Petra, vem de “Tesouro do Faraó”, porque os berberes locais acreditavam que ela havia sido construída por um faraó, através de magia negra, para guardar suas riquezas.

Jean Louis não poderia revelar sua vontade de conhecer aquele lugar profano sem despertar suspeitas em relação à sua crença no islamismo, situação que levaria à sua morte. Então ele inventou outra história.

Dentro da área onde fica Petra, existe um lugar chamado Monte de Arão, também conhecido como Monte Hor. Segundo a lenda, é lá que está enterrado Arão, irmão de Moisés e profeta para judeus, cristãos e muçulmanos.

O Monte de Arão já era conhecido em 1812 e já tinha até uma tumba/santuário no seu topo, indicando que aquele era um lugar sagrado. Jean Louis sabia disso e falou ao seu guia muçulmano que havia feito uma promessa muito tempo antes: sacrificar um bode junto ao túmulo de Arão.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

O guia caiu no conto e levou Jean até a cidade mais próxima do monte, a atual Wadi Musa, onde uma tribo muçulmana controlava os acessos à tal cidade esculpida em pedra. Sugeriram que ele sacrificasse o bode ali mesmo, à vista do Monte de Arão, mas Jean negou e insistiu na história, arriscando muitíssimo o seu pescoço. Insistiu tanto que conseguiu.

Ele e seu guia caminharam pelo desfiladeiro (onde hoje caminham todos os turistas), até que chegaram ao Tesouro.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Naquele momento, Petra foi descoberta pelos ocidentais.

Obviamente, Jean Louis ficou encantado pela visão e começou a desenhar e a fazer anotações disfarçadamente, o máximo possível, até que chegou aos pés do Monte de Arão, sacrificou o coitado do bode e foi adiante na sua viagem.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Jean Louis chegou ao Egito, mas não conseguiu realizar a missão pela África. Acabou passando 5 anos perambulando pela região e morreu de disenteria em 1817. Antes disso, para a nossa sorte, colocou suas descobertas em seus diários e entregou para pessoas de confiança.

O diário “Viagens na Síria e na Terra Santa” foi publicado no ocidente em 1822 e deu início à lenda mundial da cidade magnífica entalhada na pedra, despertando a curiosidade de outros exploradores.

David Roberts – 1839 (Domínio Público)

*****

Hoje, quase 200 anos depois, Petra ainda está entre os lugares mais misteriosos e charmosos do planeta. É justamente por causa dessa imagem que a vontade que se tem, ao chegar à Jordânia, é de correr para lá. Mas o ideal é segurar os ânimos e fazer tudo com a mesma calma e sangue frio de Jean Louis teve.

Petra é para ser descoberta lentamente, com o timing certo, passo a passo. Acredite em mim: se fosse possível simplesmente se materializar de frente do Tesouro, a experiência seria imensamente prejudicada, sem chances de ser recuperada.

O ideal é chegar em Wadi Musa (a cidade onde fica o Parque Arqueológico Petra), no fim da tarde de uma segunda, de uma quarta ou de uma quinta-feira e esperar até o início do Petra By Night, um evento cujo criador deveria ganhar uma estátua de bronze na entrada do parque.

No Petra By Night, o parque é aberto às 20h30, já noite escura. Você passa o portão e começa a ver as primeiras das 1800 velas que guiam os visitantes pelo caminho entre o desfiladeiro, até o Tesouro. Além das velas, só a escuridão e, se você tiver sorte, a luz da lua.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

No início, o desfiladeiro ainda não é alto e você consegue perceber algumas grutas e esculturas nas pedras. Mas aos poucos as paredes ao seu redor vão subindo, subindo, subindo, até alcançarem dezenas de metros e você não enxergar mais o céu, apenas os paredões de pedra vermelha, iluminados e alaranjados somente pela luz amarela e fraca das velas.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Já é de tirar o fôlego e você ainda não viu nada.

Depois de mais ou menos 30 minutos de caminhada, com inevitáveis paradas para respirar fundo e se dar tapas no rosto para ver que aquilo não é sonho, você faz uma curva leve.

Então, no meio da penumbra, por uma fresta entre as paredes do desfiladeiro, o Tesouro olha para você.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

A partir daí, minha amiga, meu amigo, as sensações e reações mudam para cada um e é inútil escrever mais. Você precisa ir até lá para descobrir as suas.

No primeiro post sobre a Jordânia, eu disse que Petra vai muito além do Tesouro. Mas no Petra By Night, tudo acaba nele, já que não é possível seguir adiante na escuridão – e vamos combinar: nem precisa naquele momento.

A praça em frente à fachada de 2 mil anos de idade é inteiramente coberta por velas. No meio delas, um homem toca uma música suave em um violino, antes de outro homem começar a contar histórias. Os turistas ficam sentados em tapetes espalhados pelo chão, numa posição que faz a imponência da construção crescer ainda mais sobre você.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

São vários minutos naquele ambiente mágico (para adjetivar o mínimo). O Tesouro está à sua frente, finalmente, mas você não consegue ver a sua beleza por inteiro, por causa da luz fraca.

É justamente essa a maravilha de se programar para que a sua primeira visita à Petra seja à noite: você vê, mas não vê. Petra se revela para você, mas não totalmente. O mistério da cidade segue, mesmo que você já esteja no coração dela. Não existe nível mais alto de sedução.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Ao final do espetáculo, você faz o caminho de volta pelo mesmo desfiladeiro, seguindo as mesmas velas. Logo você está deitado na sua cama, louco para que o dia amanheça para, então sim, ver Petra por inteiro. Mas é difícil dormir.

Apesar de estar no conforto de um hotel, sem tribos assassinas ao seu redor e sem precisar mentir seu nome, você se sente um Jean Louis Burckhardt. E eu aposto uma última coisa nesse texto: ele não dormiu na noite anterior à entrada no desfiladeiro.

*****

Nos rascunhos deste post, tentei descrever como é Petra durante o dia, mas desisti depois de um sábado inteiro de escreve-apaga. Percebi o óbvio: Petra não é um lugar para ser descrito ou mostrado, é um lugar para ser conhecido e sentido.

 

– A Petra de hoje não é mais uma cidade: é um parque arqueológico preservado, fechado, com regras de visitação, horários e trilhas marcadas.

– O lugar onde os visitantes se hospedam é a cidade de Wadi Musa (“Vale de Moisés”), que fica colada no parque. Na verdade, a entrada do parque é praticamente uma continuação da avenida principal de Wadi Musa. É fácil e não tem erro.

– Wadi Musa é totalmente preparada para receber os turistas. Pessoas falando inglês (e muitas outras línguas), restaurantes, lojas e tudo mais não faltam por lá.

– Não perca tempo com Wadi Musa. A cidade é unicamente a porta de entrada e o dormitório de Petra. Não há nada de interessante nela além disso.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

– A entrada no Parque Arqueológico Petra é paga e cara, mas vale cada centavo. Para checar preços, ver passes de mais de um dia e tudo mais, veja o site oficial do parque ou o site do Jordan Tourism Board.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

– Para pessoas com dificuldade de locomoção ou para os simplesmente preguiçosos, existem charretes para fazer o trajeto entre a entrada do parque e o Tesouro. Não sei como é para ir a outros lugares. Procure informações no site.

– É possível contratar guias oficiais e autorizados na entrada do parque. Dependendo da sua intenção de caminhadas, é altamente recomendável ir acompanhado, até porque o guia também é treinado para explicar a você as histórias de cada lugar por onde vocês passarem.

– Para informações atualizadas sobre datas, preços e tudo que se refere ao Petra By Night, veja o site do Jordan Tourism Board.

– As melhores épocas para visitar Petra são o outono (março-maio) e a primavera (setembro-outubro). O verão (junho-agosto) pode ser terrivelmente quente e o inverno (novembro-fevereiro) pode ter até neve. Sim, neve. Não é algo normal, mas dizem que não é incomum – e também não me parece ruim. Enfim, verifique a previsão do tempo no período em que você pretende viajar, antes de marcar sua passagem.

richy_trip (CC BY-NC-ND 2.0)

– Use roupas confortáveis. Você vai caminhar bastante, vai andar na areia e, dependendo de onde quiser ir, vai subir em pedras.

– Nas épocas mais amenas (e principalmente nas mais quentes), proteja-se do sol e leve água.

– Existe comércio em Petra e lugares onde você pode comer, beber e descansar, obviamente com comidas e bebidas mais caras do que do lado de fora. O ideal é levar tudo na mochila, o suficiente para o tempo que você pretende passar lá dentro.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

– Existem banheiros nos locais próximos de comércio.

– Não sei como se chega a Wadi Musa de transporte público, mas você pode procurar essas informações aqui.

– Segundo informações oficiais, a viagem de carro entre Amã e Wadi Musa pode ser feita em 3 horas (pela estrada do deserto) ou em 5 horas, pela Estrada dos Reis, com vistas panorâmicas.

– No caminho entre Amã e Wadi Musa estão duas grandes atrações jordanianas que não precisam de muito tempo para serem apreciadas: o Monte Nebo e o mosaico de Mádaba. Para otimizar o seu período no país, inclua essas atrações na sua viagem entre as duas cidades, se você estiver de carro. Você vai precisar fazer alguns desvios na estrada e obviamente vai levar mais tempo do que o indicado acima, mas vai valer.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

– Quando você der de cara com o Tesouro pela primeira vez, não se preocupe em fazer fotos. Elas nunca vão conseguir captar a real beleza e imponência do lugar. Esqueça tudo e apenas curta o momento. Eu levei um tempão para começar a fotografar e, juro, só fiz por causa do blog. Fosse por mim, não teria feito nada.

– Acorde cedo e tente ser um dos primeiros a entrar no parque, para chegar no Tesouro sem muitos turistas (verifique o horário de abertura no site oficial). Mas caso você não consiga sair da cama num horário bom, não se desespere. Provavelmente o Tesouro vai estar lotado quando você chegar, mas siga sua visita e retorne a ele mais pelo meio da tarde. É grande a chance de muita gente já ter ido embora e a praça em frente à fachada estar quase vazia.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

– Repito quantas vezes for possível e enfatizo aqui mais uma vez: Petra é muito mais do que o Tesouro. Muito, muito, muito mais. Tumbas, igrejas, ruas, templos, um monastério, um anfiteatro, trilhas, montanhas e vistas deslumbrantes que mudam de cor a cada hora do dia são apenas alguns exemplos do que você encontra lá. E se bastam apenas 30 minutos para você ir da entrada do parque até o Tesouro, muitas outras atrações tão ou mais lindas exigem horas de caminhada. Então, se você tem algum interesse em conhecer mais do que o básico, reserve mais de um dia. Eu recomendo três. No mínimo.

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Gabriel Quer Viajar foi para a Jordânia em uma press trip oferecida pela Jordan Tourism Board.

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Leia também o post A Jordânia na Prática, com dicas para ir para lá.

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    29 Comentários
  1. Simplesmente demais esse post! Estou doido pra ir pra lá e fiquei ainda mais empolgado! Abraços

  2. Seu post esta fantàstico.Por coincidência estava em Petra nesta mesma època conhecendo e colhendo dados para nosso blog(Mundo A).Sua descrição sobre Petra by Night nos transporta diretamente para aquela cansativa caminhada e a inigualàvel sensação de conhecer o tesouro a noite.Parabéns .

  3. Olá,Gabriel,estou com passagem comprada para Telaviv agora em dezembro e pretendo dar uma esticadinha até Petra. Vc viu alguma situação embaraçosa ou complicada pra mulher viajante sozinha? Havia possiblidade de guias em espanhol lá no local do parque ou em Wadi Musa?Obrigada

    • Oi, Sílvia. Não vi nenhuma situação assim. Sobre os guias em espanhol, sugiro que você entre em contato com o site oficial de Petra (link no texto), porque eu não testei isso e não sei se existe. Abraço!

  4. Gabriel,

    Com a vantagem geográfica de morar em Dubai, fomos passar a Páscoa na Jordânia. Agora, revivi a experiência lendo teus posts – com extras, como o Petra by Night, que o curto tempo não nos permitiu experimentar.

    Como comentastes, certamente o ideal é reservar uns três dias pra ver tudo. Fizemos a visita em apenas um (incluindo o Monastério, o que foi ultra cansativo) e deixamos de ver muita coisa. Nosso plano é voltar com mais tempo numa próxima oportunidade.

    E, apesar de eu achar que nenhuma foto faz jus ao cenário ao vivo, as tuas estão ótimas. 🙂

    Um abraço!

    P.S.: Manda um beijão pra Marcia.

    • Que legal, Lu! Obrigado pelo elogio! =) A Márcia (aqui do meu lado) disse: “Oh, querida! Manda um beijão pra ela também!” Beijos!

  5. Gabriel, queria te agradecer por esses posts de Petra. Eu fiz minha doação pro blog já há uns 4 meses, mas não tinha ainda utilizado assim pra um fim prático, digamos assim. Hj entrei pesquisando para uma amiga sobre a Jordânia e me reencantei por Petra. Vc me fez viajar e reviver essa emoção de descobrir um lugar assim sem nunca ter ido lá 🙂 Hj tenho 38, mas ainda com 17, assinando a revista Terra, guardei uma edição sobre Petra por anos e anos, sonhando em um dia quem sabe conhecer esse lugar de filme. Esqueci disso tem tempos, ocupada demais com filhos, trabalho, etc. Seus posts me fizeram reviver esse sonho e sonhar de novo em um dia talvez quem sabe?
    Muito obrigada!! Continue viajando e escrevendo!!!!

    • Que bom, Patrícia! Fico feliz por isso! =) Obrigado por me contar!

  6. Ai que maravilha!! posts maravilhosos, parabéns!! Eu que já tinha muita vontade de conhecer Petra, agora então estou louucaa!! obrigada por dividir tudo conosco!

  7. Olá Gabriel;

    Eu estive na Jordânia em Junho/2015, percorrendo o país de norte a sul, e gostaria de dar minha colaboração principalmente no que se refere a Petra.

    Seguindo sua preciosa sugestão, cheguei em Wadi Musa numa segunda-feira, para coincidir com o “Petra by night”. Fui até a bilheteria, para comprar o passe para 3 dias, visto que o by night eu já tinha comprado no hotel. Aqui, diferentemente do resto da Jordânia, o atendimento não é lá essas coisas. Após comprar, o funcionário me disse que eu já poderia entrar (já era mais ou menos 15:30), e eu lhe disse que só iria entrar no dia seguinte. Ele então, me informou que o passe valeria somente até quarta-feira, e entramos num impasse, pois minha ideia seria visitar por 3 dias. Sua reação foi como se eu tivesse dito alguma ofensa ao rapaz, que começou a falar alto, me dizendo que eu deveria ter comprado somente no dia seguinte e blá, blá, blá… Decidi por deixar de falar com esse rapaz e ir até a portaria, onde o funcionário mem informou que não haveria problemas quanto a entrar até quinta-feira. E não houve mesmo…

    Quanto ao Petra by night, não acredito que possa dar um relato melhor que o seu, então, eu poderia somente acrescentar uma dica: Fique próximo à catraca, lá por 20:00, pois a liberação é antes de 20:30. Vantagens dessa dica: Você chega na frente. Todo aquele clima, andando por entre as velas, perde um pouco do encanto quando há pessoas falando e rindo alto, com iluminação (de lanternas ou do próprio celular) e o tumulto de uma multidão caminhando com você. Chegando antes, você anda somente entre a iluminação das velas, e chega enquanto não há o burburinho de um monte de gente procurando se acomodar, andando para lá e para cá na sua frente.

    No dia seguinte, a abertura, apesar de não estar explícito nas informações, é por volta de 06:00. Nos três dias, cheguei mais ou menos essa hora, e não havia praticamente ninguém. Minhas fotos ficaram exatamente como eu planejava (Tirei fotos da câmara do tesouro nos três dias). Depois dessas fotos, eu voltava para o hotel, tomava meu café, tomava outro banho para dar um relaxada e retornava para passar o resto do dia em Petra (Você fica super conhecido fazendo assim – até os policiais lembram de você).

    Além de todos os locais maravilhosos, um local que eu acho memorável, é o monte de Aarão, onde hoje há uma mesquita, visível (com um pouco de boa vontade) do alto do lugar do sacrifício. E aqui vai meu relato:

    No meu segundo dia, eu subi ao local do sacrifício, e havia um beduino vendendo suas quinquilharias por lá. Engatamos uma conversa e, nisso, me falou e mostrou o monte onde está construída a mesquita, em memória de Aarão. Obviamente, lhe perguntei se era acessível e liberado para visitas, e se o caminho era muito difícil. Em visada direta, há uma distância de 3930m, convertidos em uma caminhada de um pouco mais de 11Km a partir dali.

    O principal problema é que, se quiser conhecer a mesquita, é preciso ser guiado (eles falam que não é permitido, mas um policial, que me reconheceu por ter o estranho comportamento de entrar e sair todas as manhãs, me disse que não há nenhum problema, além do fato de não ter a chave da mesquita). Então, veio a principal parte da conversa: Quanto?

    O preço que o tal beduino me cobraria para me guiar até lá seria de JOD 50, aproximadamente U$ 70. Como já era tarde, combinamos de nos encontrar no mesmo local no dia seguinte. Na saída de Petra, fui perguntar no centro de visitantes o custo para uma visita guiada até lá: JOD 150, ou seja , cerca de U$ 210 (pôxa… para um trekking de 20 km?).

    No dia seguinte, subi ao lugar do sacrifício para encontrar o beduino, e ir ao monte Aarão. Como eu já suspeitava, ele não estava lá. Há que se tomar um certo cuidado com o que combina com eles… nem sempre honram a palavra.

    Então decidi ir por conta própria, até onde dava. No caminho, passei por uns outros beduinos, que me questionaram aonde ia, e me informavam de que não era permitido. Contei-lhes sobre a conversa que tive com o policial e a história mudou um pouco: eu poderia ir, mas não conseguiria passar do portão, do qual só eles têm a chave… chegamos, de novo, na pergunta: Quanto?

    Desta vez, o custo foi um pouco melhor: JOD 20, cerca de U$ 28. Aí já tinha negócio. Tiradas as dúvidas, de até onde iríamos, de quanto tempo precisaríamos, etc.. começamos a caminhada. Minha guia seria uma senhora que, de acordo com ela, sempre viveu ali. Apesar da idade um pouco avançada, das roupas pesadas, do calor imenso, do terreno acidentado (subida), dava bastante trabalho para o jovem aqui, de 46 anos, amante das montanhas, fisicamente ativo…

    Após todas as argumentações de minha parte em recusar o jumentinho que me ofereciam, que facilitaria minha caminhada, que custava mais JOD 20, consegui seguir a pé, pois se eu não consigo chegar em um cume de montanha com minhas próprias pernas, não faço questão nenhuma de ir. Fomos falando sobre nossas vidas, perguntei-lhe como falava seu inglês, sem nunca ter frequentado escola, sobre sua vida ali, sua rotina… Ela por sua vez, sobre mim, de onde vinha, meu estado civil (havia perdido minha querida esposa há quase um ano), etc.

    No caminho, passamos por uma caverna, que eventualmente é residência de alguém, mas que naquele momento era somente um depósito de uma erva que ela colocou em minha mão, que eu não sabia direito o que era, até que ela me dissesse: “é marijuana árabe”. Perguntei-lhe se isso era legal, se ela poderia armazenar isso, se poderia fazer uso disso no país… pelo que me disse, sim. Disse-lhe que não queria e fiz menção de jogar, mas fui impedido de desperdiçar a tal mercadoria tão “valiosa”, e ela pegou de minha mão e embrulhou em seu lenço, para depois…

    Na sequência, antes de subir o monte Aarão, tivemos que passar em seu acampamento para pegar a tal chave, e aqui começa uma história meio chata, meio cômica…

    Antes de chegar em seu acampamento, ela combinou comigo que iria falar para sua irmã, que eu a havia visto no dia anterior. Me pareceu uma brincadeira boba, e realmente era. Sua irmã ficou meio encabulada e eu confirmei, conforme havíamos combinado.

    No acampamento, me ofereceram chá… Normalmente é um momento agradável, mas vou descrever o ambiente do acampamento:

    Era sua família: sua mãe, irmã, filhos, incluindo um bebê de pouco mais de 1 ano, dormindo no chão sob lençõis, para evitar a nuvem de moscas. As moscas eram domesticadas, pois passeavam livremente pelo rosto de todos, pelos lábios, pelo nariz. Ninguém se incomodava com isso e não se davam ao trabalho de espantá-las. havia alguma carne armazenada no interior de um estômago de bode, enconstado num canto. Estavam almoçando. Todos comendo algo viscoso de uma panela no chão. Como água deve ser um artigo de luxo lá, aparentemente não tomavam banho com frequência, e o odor no ar era fortíssimo. Pelo mesmo motivo, não lavavam as vasilhas. Me ofereceram para comer, que, educadamente, recusei. Depois da insistência, aceitei um pedaço de pão (mínimo) e um chá, oferecido num copo sujo, que estava jogado no chão. Tomei muito rápido e me deram mais. Desta vez, fui mais esperto e tomei beeem devagar. Não via a hora de sair dali.

    Bem, tirei fotos, conversamos e recomeçamos a caminhada, desta vez, acompanhados pela irmã dela, que estaria encarregada de fazer um chá lá em cima, enquanto eu visitava a mesquita. Ao contrário de minha guia, sua irmã não era tão hábil e rápida, então fomos mais devagar. Ao chegar no topo do monte, fomos falar com os dois policiais que fazem a segurança e subimos para a mesquita. Passamos pela cisterna, onde ela coletou água para seu consumo, visitei a mesquita por fora e depois por dentro (não sei o porquê, mas ela não quis entrar). Tirei todas as fotos que queria, e iniciei a descida, onde todos já me aguardavam para o chá, inclusive minha guia, que me deixou sozinho lá na mesquita e me esperaria na guarita dos policiais. No caminho, me viu de longe e pediu que eu pegasse uns copos de papel que estavam no chão, à minha frente. Sentamos todos numa pedra, com vista para a mesquita e sua irmã nos trouxe o chá.

    Tomamos o tal chá, feito por sua irmã, nos copos que eu havia recolhido do chão. Sujos de terra mesmo… Estranhei o fato de que só eu tomaria o chá, e a irmã da guia, pois eles me disseram que já haviam tomado. Achei um pouco deselegante da parte deles, tomarem sem me esperar, mas relevei.
    Depois de tomar, veio a história chata, à qual eu me referi no início … Aparentemente eu estava fazendo parte de um ritual de “noivado”, pois sua irmã havia perdido seu marido recentemente. Então, da próxima vez que eu os visitasse, iria me “casar” com ela pois, afinal, eu também deveria estar procurando uma “noiva”. Isso me deu uma vontade louca de descer aquele monte voando, e foi o que fiz… falei que já ia descer, pois queria visitar o monastério uma vez mais e queria chegar ao pôr do sol, para tirar fotos nessa luz. Agora sim, deixei minha educação de lado e começei a descer o mais rápido que podia, sem efetivamente correr. Elas ficaram para trás, e me perguntava o porquê de andar tão rápido. Passei a responder com monossílabos, até uma encruzilhada, onde eu a pagaria e tomaríamos caminhos diferentes. Até agora me pergunto o que havia naquele chá…

    Ainda posso falar sobre o resto da descida, que, novamente precisei argumentar muito com um garoto (filho da guia) que caminhava ao meu lado por meia hora, insistindo que eu descesse sobre o jumentinho, por JOD20…

    Bem, falei muito, e nada sobre a mesquita, né? Quanto a ela, posso dizer que é tão interessante, tanto pelo local, quanto pela história, pela crença, quanto tudo em Petra. Apesar do perrengue, onde tive que exercitar toda minha diplomacia, valeu a pena, e a visitaria de novo (eu pularia a parte da visita ao acampamento e o chá ao final :-).

    Abraços

    • Renato, não tenho palavras para agradecer por este relato fantástico! Excelente! Que história! Muito obrigado MESMO! =) Abraço!

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