Talvez não exista destino turístico mais caro, difícil, cheio de regras e de perrengues do que ela. Mesmo assim, um mundo de gente (eu, inclusive) sonha com uma viagem até lá, porque também é provável que não exista destino turístico com vista mais linda e que ofereça uma experiência mais inusitada.

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC-ND 2.0)

Ela é a Estação Espacial Internacional, já visitada por mais de 200 astronautas, mas por apenas 7 sortudos e milionários turistas.

Na verdade, existem dúvidas se é correto chamar esse pessoal de turista, já que 5 deles negam o título. Aceitando ou não, o certo é que eles só foram até lá depois de pagarem dezenas de milhares de dólares por um assento na nave russa Soyuz, ainda que cadastrados em pesquisas científicas para trabalharem durante seus períodos no espaço.

Outra coisa certa é que a ISS (International Space Station) não nasceu para ser turística. Ela é um grande laboratório de testes biológicos, meteorológicos, físicos, astronômicos e muito mais, que começou a ser montado no espaço em 1998, em uma parceria entre as agências espaciais russa, norte-americana, européia, canadense e japonesa, depois de outras 8 experiências humanas fora do planeta.

Os primeiros habitantes chegaram no ano 2000 e encontraram um ambiente com atmosfera igual à do nível do mar, mesmo estando permanentemente entre 330 e 435 km acima de qualquer oceano, em uma região chamada de termosfera. Só que eles não ficaram sozinhos por muito tempo.

Apenas um ano depois, o primeiro turista desembarcou na estação. Era o nova-iorquino Dennis Tito, que pagou 20 milhões de dólares pela viagem e teve quase 8 dias de experiência no espaço, período em que deu mais de 120 voltas ao redor da Terra.

Nasa (domínio público)

O início da aventura de Tito foi cheio de discussões entre russos e americanos, porque os últimos eram terminantemente contra a presença de um visitante não-profissional na estação. Eles alegavam questões de segurança, mas os russos fofocam que a verdade é que os americanos estavam indignados por não serem os primeiros a levarem turistas. No fim, acabaram se entregando e Tito seguiu para a experiência que depois foi repetida por mais 6 pessoas. Na ordem:

Mark Shuttleworth – sul-africano: 2002

Gregory Olsen – norte-americano: 2005

Anousheh Ansari – iraniana (a única mulher turista espacial até hoje): 2006

Charles Simonyi – húngaro (o único a ir duas vezes): 2007 e 2009

Richard Garriot – americano-britânico: 2008

Guy Laliberté – canadense: 2009

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC-ND 2.0)

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC-ND 2.0)

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC-ND 2.0)

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC-ND 2.0)

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC-ND 2.0)

NASA Goddard Photo and Video (CC BY 2.0)

NASA Goddard Photo and Video (CC BY 2.0)

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC 2.0)

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC 2.0)

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC 2.0)

NASA’s Marshall Space Flight Center (CC BY-NC 2.0) 5

Nasa/Tracy Caldwell Dyson (domínio público)

Apesar da vista divina e da experiência rara que todos eles tiveram, uma visita à ISS não é feita só de alegrias. Pelo contrário. O isolamento, a estrutura limitada e a microgravidade fazem com que detalhes rotineiros que a gente nem imagina tenham que ser regrados e adaptados, quase sempre para alternativas nem um pouco confortáveis ou prazerosas.

As refeições, por exemplo.

Nasa (domínio público)

A culinária local não é muito apreciada pelos viajantes. Além de ser cheia de cuidados e técnicas de preparo que fazem com que ela seja bem diferente do que a gente come aqui, a microgravidade prejudica o paladar, levando os pratos apimentados para o topo da lista de preferidos dos astronautas. Líquidos são consumidos apenas em sacos, com canudinho, para facilitar e evitar que flutuem e estraguem equipamentos. As bandejas que carregam os pratos são imantadas e cheias de velcros, impedindo voos de talheres, de embalagens e da própria bandeja. Até as migalhas dos alimentos precisam de cuidados, porque não podem ser esquecidas, já que existe o risco de entrarem em dutos de ar e causarem estragos.

O final da refeição é quase como aqui: alguém tem que lavar tudo. A diferença é que a lavagem é feita apenas com panos umedecidos, para economizar água.

Nasa (domínio público)

Achou essa parte meio porquinha? Você ainda não viu nada.

A técnica de panos umedecidos também é usada nos banhos. Até existe um chuveiro, mas a preocupação com o racionamento de água é tão grande e o aparelho é tão complicado de usar (para você ter uma ideia, os astronautas da antiga estação Mir simplesmente jogaram ele fora, depois de um tempo) que a higiene é quase sempre nessa base mesmo. Para piorar, as roupas dos astronautas são trocadas apenas a cada 3 dias, mesmo com toda a equipe sabendo que seus corpos suam mais na ISS do que aqui no chão.

Nasa (domínio público)

As coisas só ficam piores quando bate uma dor de barriga – algo que também acontece com mais frequência no espaço. Nesses momentos, entra em ação um vaso sanitário especial, onde o usuário se prende com um cinto, antes de iniciar as atividades peristálticas forçadas. No vaso, que obviamente não usa água, um sistema de sucção puxa o dejeto para onde ele deve ir. Se for cocô, vai para um recipiente que é trazido de volta à Terra para descarte. Se for só um xixizinho, o destino é mais nojentinho: vai para outro recipiente onde é purificado para reuso na nave.

Nasa (dominio público)

Pois é.

E essas são apenas algumas restrições da ISS, que deve ficar em órbita por mais alguns anos ainda.

Nasa (dominio público)

É claro que as dificuldades não são problemas para a maioria daquelas pessoas que sonham em ir para lá. Uma ou duas semanas sem um banho decente, comendo mal e fazendo malabarismos para ir ao banheiro não são nada perto de uma experiência assim. Mas como o preço da passagem não ajuda, só resta uma alternativa para nos sentirmos próximos dela: observar a Estação Espacial Internacional daqui do chão mesmo.

CEBImagery.com (CC BY-NC 2.0)

Sim, é possível enxergar a ISS a olho nu. Na verdade, ela é um dos objetos mais fáceis de serem vistos no céu, inclusive em cidades grandes e iluminadas.

Atualmente, a estação é o maior corpo artificial em órbita da Terra. Ela tem 109 metros de comprimento por 51 de largura, o que é praticamente um campo de futebol de padrão internacional voando por aí.

Nasa (dominio público)

Com todo esse tamanho e, principalmente, por causa dos seus 73 metros de painéis solares espelhados, a ISS reflete muita luz do sol. Muita mesmo. É tanta luminosidade que às vezes ela brilha como o planeta Vênus e até 16 vezes mais do que Sirius, a estrela mais forte do nosso céu.

Nasa (domínio público)

As aparições dependem de vários fatores, como o lugar onde você está, a localização da estação, a luminosidade sobre ela, o ângulo em que ela vai passar no horizonte (se for muito baixo e houver uma montanha ou prédios, a visão vai ficar prejudicada), um céu limpo e o horário em que tudo isso coincide de forma favorável.

Se ela passar pela sua cidade ao meio-dia, por exemplo, vai ser difícil de enxergar (apesar de possível), porque o céu vai estar muito claro. O ideal é que aconteça logo depois do pôr ou antes do nascer do sol, quando o ângulo da Terra permite que a estação seja iluminada, com o céu escuro aqui embaixo.

arripay (CC BY-SA 2.0)

Rui Aperta (CC BY-NC-SA 2.0)

Bichologo (CC BY-NC-SA 2.0)

Parece difícil ter essa sorte, mas não é, não. A Estação Espacial Internacional se movimenta a mais de 27 mil km/h e dá 15,5 voltas na Terra a cada 24 horas. Com as constantes mudanças de ângulos, ela consegue ser vista em 95% das áreas habitadas do planeta (veja o vídeo abaixo).

Mas como saber se as combinações são favoráveis onde você está?

Simples e óbvio: com a ajuda de sites e aplicativos para smartphones. Eles estão aos montes por aí, alguns oferecendo disparo de e-mail e SMS para avisar que a estação está chegando perto de você. Até a Nasa tem um sistema desse tipo. Veja alguns sites:

Heavens Above

Não é nada bonito, mas eu acho o mais eficiente. Ele dá uma previsão de 10 em 10 dias, de acordo com localização que você colocar no sistema, e pode indicar todas as passagens ou apenas as visíveis. Aliás, ele mostra não apenas a ISS, mas um monte de satélites e coisas que passeiam pelo espaço.

As informações são mostradas em uma tabela com a luminosidade prevista (quanto menor o número indicado, maior o brilho), a trajetória da estação, a direção para onde olhar e os horários da visualização.

 

ISS Tracker

Não oferece previsões, mas mostra onde está a ISS em tempo real, de forma fácil e clara. É divertido para ver como ela é rápida. Também permite descobrir se aquilo que você viu no céu há algum tempo era a ISS ou não, apenas digitando o local, a data e o horário da visualização.

 

Space Station Finder

Digite o nome da sua cidade e espere para ver se existem previsões para passagens visíveis próximas. É bem didático, porque praticamente desenha sua tela as informações.

 

Spot the Station

É o site oficial da Nasa. Simples e fácil, também mostra as previsões em tabela. Para não perder nada, você pode se cadastrar para receber e-mail ou SMS avisando das visualizações.

 

Para quem usa iPhone, uma busca por “ISS” na App Store retorna com quase 100 opções, entre gratuitas e pagas. Eu tenho uma gratuita e uma paga no meu telefone, mas sinceramente não uso nenhuma, porque acabo vendo na internet mesmo. Ainda assim, fica a dica: ISS Spotter (gratuito) e ISS Locator (1,99 USD).

Agora é só escolher o seu site ou aplicativo preferido e ficar de olho nas previsões e no céu também.

Se você enxergar algo parecido com uma estrela forte, andando rapidamente em uma única direção, por alguns poucos minutos, você pode estar olhando para nada menos que o objeto mais caro já construído pelo homem e provavelmente a única atração turística que passa sobre a sua cabeça de tempos em tempos.

Certamente não é como ir até lá, mas é muito emocionante também.

Kristofer Williams (CC BY-NC-ND 2.0)

(Fontes: European Space Agency, Canadian Space Agency, Nasa, Wikipedia, Discovery.com, American Museum of Natural History)

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    16 Comentários
  1. Bom adorei muito, gostei do que eu li aprendi mais coisas tenho uma maquete para fazer sobre este assunto.Preciso de ajuda para fazer uma maquete,minha maquete para entregar dia 06/11/2013

  2. As viagens ao espaço serão comuns em alguns anos. Um dia serão tao faceis e rapidas. Isso irá acontecer graças aos estudos sobre os buracos de minhocas. Esperamos estar vivos ate la.

  3. Como é possível ver a estação espacial passando sobre a minha casa? o que eu preciso fazer? qual é esse site?

  4. A foto de dubai é a melhor

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