Segundo o Lonely Planet, quando dois iranianos se conhecem, a primeira pergunta que se escuta é “De onde você é?”.

O motivo para essa curiosidade é bem lógico: o Irã de hoje continua sendo a sopa de etnias, línguas, culturas e religiões que sempre foi, com muitas delas podendo ser reveladas pela região onde a pessoa vive ou nasceu.

CIA – Domínio público

Porém, salvo preconceitos individuais e bobagens típicas de povos vizinhos (vide brasileiros e argentinos), a pergunta acima é mera curiosidade e não significa que alguma etnia seja considerada inferior ou qualquer coisa do gênero.

Todos os povos do país, inclusive aqueles que têm ligações étnicas ou religiosas com povos do outro lado da fronteira, são fortemente unidos pela identidade iraniana, criada ao longo de vários séculos.

Os curdos iranianos, por exemplo, não se juntaram aos curdos iraquianos durante a guerra Irã-Iraque, mesmo sendo um só povo e vivendo lado a lado. Nem os azerbaijanos iranianos abriram mão do país quando os soviéticos invadiram o Azerbaijão.

A força da identidade persa é enorme e ainda tem a ajuda fundamental das leis locais.

Pela Constituição do país, “todos os povos do Irã, seja qual for a etnia ou tribo a que pertençam, gozam de direitos iguais. Cor, raça, língua, e assim por diante, não asseguram nenhum privilégio”. E todos também podem ter acesso aos mais altos escalões do governo, como comprova ninguém menos que o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, o homem que manda em tudo por lá e é azerbaijano iraniano.

A língua oficial do país é o farsi e todos os documentos oficiais e tal precisam ser escritos nela. Mas as outras línguas faladas pelos outros povos são livres e podem ser usadas na imprensa e nos livros, além de ensinadas nas escolas.

birdfarm (CC BY-NC 2.0)

Pode ser que toda essa mistura cause alguma dor de cabeça para os governos, já que sempre existem alguns grupos pensando em independência. Pode ser, também, que essa paz e esse respeito interno não sejam tão grande quanto se acredita. Mas enquanto os eventuais problemas permanecerem pontuais, o resultado para nós, simples turistas, é lindo de se ver: uma única viagem pelo país nos coloca em contato com culturas completamente diferentes.

Veja as principais e o seu percentual de representação dentro dos 75 milhões de iranianos.

Persas – 61%

Vivem por todo o país, logicamente, mas suas principais cidades são Teerã, Mashad, Esfahan, Yazd e Shiraz. A língua oficial do país (o farsi) é deles.

HAMED MASOUMI (CC BY-NC-ND 2.0)

 

Azerbaijanos – 16%

Vivem no Noroeste do país, nas províncias do Azerbaijão Oriental, Azerbaijão Ocidental e arredores. Falam turco-azerbaijano, um dialeto que mistura turco e farsi.

F4fluids (CC BY-SA 3.0)

petalouda62 (CC BY-NC-ND 2.0)

 

Curdos – 10%

São provavelmente o povo mais complicado de se entender no Irã: falam dialetos diferentes entre eles mesmos e alguns são muçulmanos sunitas, enquanto outros são xiitas. Vivem basicamente no Noroeste do país, grudados na fronteira com o Iraque, mas também existem muitos no Nordeste, que foram enviados para lá para defender a fronteira com o Turcomenistão e nunca mais voltaram.

Sua província principal é o Curdistão e eles se dizem os iranianos mais antigos do país, já que descendem dos Medos, um povo que vivia na área antes dos persas chegarem.

Persia2099 (CC BY-SA 3.0)

HAMED MASOUMI (CC BY-NC-ND 2.0)

 

Luros – 6%

Também se dizem ser os iranianos mais antigos, porque também são descendentes dos Medos e dos Cassitas (outro dos primeiros povos da região). Falam uma mistura de árabe e farsi, habitam principalmente o Leste do país e têm uma provícia para chamarem de sua: o Lorestão (abaixo).

Uwe Dering – Dr. Blofeld (CC BY-SA 3.0)

tenderobject (CC BY-NC-ND 2.0)

 

Árabes – 2%

Se você já leu este post aqui, sabe que iranianos não são árabes.

Agora, também sabe que existem iranianos árabes. (Sim, é uma confusão.)

unicefiran (CC BY-ND 2.0)

Eles vivem principalmente no Leste (na província do Cuzistão) e nas regiões litorâneas do Golfo Pérsico, como a província de Hormozgan (abaixo). Esses que vivem no Golfo são conhecidos como bandari, um apelido que significa algo como “portuário”, já que “bandar” significa “porto”.

Uwe Dering – Dr. Blofeld (CC BY-SA 3.0)

Falam um dialeto árabe, têm músicas próprias e se vestem de forma bem diferente do resto dos iranianos (suas mulheres usam burcas, algo raro no Irã).

Hamed Saber (CC BY 2.0)

 

Turcomenos – 2%

Dizem que os traços dos rostos turcomenos podem ser completamente diferentes entre eles, indo do estilo mongol até o caucasiano de olho azul. São descendentes de tribos nômades, vivem na região Norte, junto ao Mar Cáspio, na província do Golestão, e falam um dialeto turco.

Uwe Dering – Dr. Blofeld (CC BY-SA 3.0)

>=> Mãhi Teshneh (CC BY-NC-SA 2.0)

 

Balúchis – 2%

Apesar de ocuparem em uma área bem grande e de terem uma província com o seu nome (Sistão-Baluchistão), os balúchis iranianos são apenas um pequeno braço do povo que vive em número muito maior no Paquistão e no Afeganistão. Sua língua também é chamada de balúchi e é ligada à língua afegã pashtu. São muçulmanos sunitas e vestem de forma colorida, com roupas diferentes das usadas pelos iranianos.

Uwe Dering – Dr. Blofeld (CC BY-SA 3.0)

unicefiran (CC BY-ND 2.0)

Infelizmente, o Sistão-Baluchistão é a única área onde o Lonely Planet recomenda cuidado no Irã, por causa do tráfico entre o país, o Paquistão e o Afeganistão.

 

Outros – 1%

Aqui são muitos: armênios, assírios, georgianos, judeus e mais um mundo de gente, muitos nômades como essa menina aqui embaixo.

HORIZON (CC BY-NC-ND 2.0)

No meu roteiro, até o momento, estão previstos encontros com persas, curdos e árabes. Mas já fiquei com vontade de conhecer os balúchis e os turcomenos. Vamos ver o que acontece.

(Importante: fiz o melhor que pude na hora de procurar fotos de cada representante destes povos acima e tentei me certificar de cada imagem, mas não está descartada a possibilidade de que alguns aí não tenham nada a ver com o povo imaginado. Enfim. É a vida.)

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Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem ao Irã

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Se você pensa que iraniano é árabe

– Nem tudo é burca

– Feliz ano novo

– Muito prazer, Ferdowsi

– O paraíso é persa

– Arg-e Bam, um tesouro quase perdido

– O heroi americano do Irã

– Temperada com milênios de história (ATUALIZADO DEPOIS DA VIAGEM)

– Vou-me embora pro Irã

– O visto iraniano e uma historinha

– Os judeus do Irã

DEPOIS DA VIAGEM:

– Irã – Prologo

– O país mais injustiçado do mundo

– O Irã numa casca de pistache

– Teerã: é amor?

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    36 Comentários
  1. Gabriel, maravilhoso seu post ! Cultura pura, algo raro na net.Parabéns

  2. Gabriel, você está no twitter ?

    • Oi, Daniel! Obrigado pelo elogio! =)

      Estou no Twitter, sim: @gabebritto

      Abraço!

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