O Irã é um país surpreendente em vários aspectos e eu percebo isso em cada pesquisa que faço. Mas percebo muito mais em cada conversa sobre a minha próxima viagem.

Milad42 (CC BY-NC 2.0)

No meio de tudo que falo nessas conversas, existe uma informação que é a campeã incontestável na categoria Derrubamento de Queixos: a de que existem judeus vivendo no Irã. É justamente por isso que eu toco tanto no assunto. Porque é ele que abre a maior brecha no muro de preconceito contra o país e faz as pessoas quererem saber mais.

É totalmente compreensível que essa informação choque todo mundo. Com jornais, programas de TV e notíciários mostrando apenas as ameaças mútuas feitas por líderes de Israel e Irã e por minorias das populações, não tem como o sujeito acreditar em outra coisa.

O que a imprensa raramente mostra são as informações abaixo.

• O Irã tem a 2ª maior comunidade judaica do Oriente Médio (a 1ª está em Israel).

Milad42 (CC BY-NC 2.0)

• O Irã tem a maior comunidade judaica entre todos os países muçulmanos.

• O censo iraniano de 2012 apontou 8.756 judeus vivendo no país (mas o Comitê Judeu de Teerã diz que são entre 25 e 30 mil).

• Sim, existe um Comitê Judeu de Teerã. E também uma Sociedade Judaica Iraniana.

• O parlamento iraniano tem vaga garantida para um representante judeu – e o atual até acompanhou o presidente Hassan Rouhani na viagem dele a Nova York, durante a mais recente Assembléia Geral da Onu.

• Existem aproximadamente 100 sinagogas no Irã, espalhadas em cidades como Teerã, Shiraz, Esfahan, Sanandaj, Hamadan e Yazd. (Números do Comitê Judeu de Teerã).

• O judaísmo pode ser praticado legalmente no país.

• Alguns personagens bíblicos judeus (como Esther e Daniel) estão enterrados no Irã e permanecem respeitados.

Hamed Saber (CC BY 2.0)

O principal motivo para a existência de tudo isso aí em cima é a história da presença judaica no Irã, tão longa, tão ligada aos persas e tão importante que é respeitada pelos líderes religiosos muçulmanos do país.

Essa história vem desde o século 6º antes de Cristo, quando o maior de todos os reis persas, Ciro, conquistou a Babilônia e libertou os judeus da escravidão.

Além de dar a liberdade ao povo, Ciro também deu algumas coisas valiosíssimas: o direito de seguirem sua religião, a permissão para voltarem às suas terras e o OK para que construíssem o Segundo Templo em Jerusalém, um local importante até hoje, apesar de ter sido destruído há séculos.

“Ciro II, o Grande, e os Hebreus” – Jean Fouquet (1420-1480) – Domínio público

Muitos outros reis persas seguiram os passos de Ciro e também tomaram atitudes que foram fundamentais para a vida e a história dos judeus. Mas o dia a dia judaico nas terras iranianas não foi sempre facinho, não. Houve muitos altos e baixos.

Como em grande parte do mundo, os judeus do Irã também foram perseguidos por ordem de alguns governantes ao longo da história. Foram obrigados a se converter ao islamismo, a pagar impostos mais altos, a viver em guetos e a usar roupas diferentes do resto da população. Mas também foram liberados por outros líderes e chegaram a lutar na Revolução Constitucionalista do país, a ir para o front contra Saddam Hussein (na guerra contra o Iraque) e a fazer parte da elite financeira e intelectual da nação.

A presença chegou a ser tão grande que Esfahan, a maior jóia entre as cidades iranianas, ganhou o apelido de Dar-Al-Yahud, ou “Cidade dos Judeus”, por causa da quantidade na região. Na época da criação de Israel, eram 150 mil no país.

yeowatzup (CC BY 2.0)

O cenário mudou depois da Revolução Islâmica, de 1979. Muitos judeus fugiram para Israel e Estados Unidos, com medo do que poderia acontecer a eles, e a população diminuiu muito. Foi quando veio a ação mais surpreendente: o próprio aiatolá Khomeini emitiu uma fatwa (uma lei religiosa islâmica) decretando que a comunidade judaica do Irã deveria ser protegida.

E assim foi.

Muitos governantes passaram pelo comando do país, desde então. Alguns foram mais abertos, como Mohammad Khatami, o primeiro presidente a visitar uma sinagoga desde a Revolução. Outros foram mais agressivos, como Ahmadinejad, que declarou que o holocausto não existiue tomou um puxão de orelhas do então presidente da Sociedade Judaica Iraniana.

Na época de Ahmadinejad, o governo de Israel chegou a oferecer 60 mil dólares para cada família iraniana que se mudasse para lá, mas a maioria não aceitou a proposta e preferiu seguir no Irã, onde sua religião tem respeito oficial aos rituais e seu povo tem restaurantes kosher, hospitais, cemitérios, escolas e até permissão para o consumo de álcool, com fins religiosos.

Uma situação que, aliás, se repete com cristãos e zoroastristas, considerados “Povos do Livro” e oficialmente reconhecidos no país.

sethfrantzman (CC BY-NC-ND 2.0)

Se você for judeu e quiser conhecer o Irã, é fundamental saber que o país não permite a entrada de pessoas com passaporte israelense, nem com carimbo de passagem por Israel (o que é fácil de resolver com um passaporte novo).

Mas também é fundamental saber que não existe pergunta sobre a sua religião no formulário do visto e que o Comitê Judeu de Teerã se diz à disposição para esclarecer dúvidas e auxiliar judeus que queiram conhecer as maravilhas da Pérsia.

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Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem ao Irã

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Se você pensa que iraniano é árabe

– Nem tudo é burca

– Feliz ano novo

– Muito prazer, Ferdowsi

– O paraíso é persa

– Arg-e Bam, um tesouro quase perdido

– O heroi americano do Irã

– Temperada com milênios de história (ATUALIZADO DEPOIS DA VIAGEM)

– Vou-me embora pro Irã

– O visto iraniano e uma historinha

– Todos os iranianos do Irã

DEPOIS DA VIAGEM:

– Irã – Prologo

– O país mais injustiçado do mundo

– O Irã numa casca de pistache

– Teerã: é amor?

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    19 Comentários
  1. Uauuuuu, super interessante. Adoro historia!

  2. Gabriel, para quem tem o visto do Irã tem restrições para entrar em outros países como Israel, Jordânia, etc???

  3. Judeus e o Judaismo nunca tiveram problemas – que todas as outras religiões tambem tiveram – em nenhum lugar do mundo,
    muito menos na Palestina. Jã os sionistas …

  4. 1 2
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