Ah, as tribos isoladas! Esses pequenos paraísos para quem gosta de conhecer histórias e hábitos fantásticos!

Veja, por exemplo, o pessoal de Tanna, a ilha onde fica este vulcão aqui embaixo, no arquipélago de Vanuatu, no Pacífico Sul. Eles são os últimos praticantes de um tipo de culto religioso interessantíssimo, batizado pelos antropólogos como Culto à Carga.

sydneydawg2006 (CC BY-NC-ND 2.0)

O nome é estranho, mas é bem fácil de entender de onde ele saiu. A “Carga” não é uma forma diferente de chamar um deus conhecido nem o nome de uma divindade nova. Nada disso. Ela é exatamente o que parece ser: os produtos e equipamentos que navios e aviões cargueiros carregam por aí. A pura e simples bagagem mesmo.

A origem destes cultos vem do século 19, quando colonialistas europeus e norte-americanos chegaram nas ilhas do Pacífico Sul com suas tropas de soldados e missionários cristãos.

O arquipélago de Vanuatu. Foto: M.Minderhoud (domínio público)

Os povos nativos destas ilhas – isolados no meio do mar desde sempre e com pouquíssimo ou nenhum contato prévio com as civilizações que chegavam para morar – ficaram encantados com toda a parafernália tecnológica que vinha junto com os novos vizinhos. Sem ter a menor ideia de como rádios, eletrodomésticos e similares funcionavam, logo tacharam tudo de mágica e começaram a ligar os pontos para entender como os gringos conseguiam aquelas coisas.

A primeira dedução foi a de que os navios que aportavam nas ilhas trazendo mantimentos e equipamentos, vindos lá do horizonte (onde não havia nada e o mundo acabava), eram enviados por alguma entidade divina.

A segunda dedução foi a de que os movimentos cotidianos das tropas – hasteamentos de bandeiras, marchas, formações e outros hábitos militares – eram rituais religiosos para pedir mais navios à tal divindade que vivia lá no horizonte.

A partir daí foi um passo para os líderes espirituais das tribos começarem a criar histórias e mitos em cima de tudo que acontecia. Surgiram lendas, homens santos e crenças que mudavam de ilha para ilha, de tribo para tribo. E surgiram também os rituais próprios de cada religião nascida do Culto à Carga. Rituais que, com pequenas diferenças entre si, sempre imitavam os objetos e movimentos dos soldados, além das fardas que eles usavam.

Mesmo sem nunca receber navios com cargas exclusivas para eles e sempre dependendo da boa vontade dos estrangeiros para ter acesso a qualquer equipamento, os nativos seguiram firmes na sua fé por muitos anos. Então veio a Segunda Guerra Mundial e, com ela, uma nova leva de tropas militares desembarcando nas ilhas, com mais carregamentos de materiais.

Foi quando os nativos ganharam um novo elemento e um enorme reforço nas suas crenças na divindade da carga: a parafernália mágica que antes chegava de navio passou a chegar de avião – ou em “pássaros de ferro”.

Nada poderia ser mais divino do que aquilo.

Quadro de Mondo Cane (1962), direção de Gualtiero Jacopetti, Paolo Cavara e Franco Prosperi

O tempo passou, a Guerra acabou, a vida seguiu e os nativos de praticamente todas as ilhas onde havia Cultos à Carga começaram a entender o que se passava, deixando de lado a sua fé. Menos um pessoal da tal ilha de Tanna, em Vanuatu.

Alguns habitantes desta porçãozinha de terra com 550 km2 – menor do que a Zona Sul de São Paulo – seguem firmes nas suas crenças e até desenvolveram duas religiões distintas baseadas no Culto à Carga: o Movimento John Frum e o Movimento Príncipe Philip.

O MESSIAS MILITAR

Os seguidores do primeiro movimento, moradores principalmente da vila de Lamakara, acreditam que um homem chamado John Frum retornará à ilha em algum dia 15 de fevereiro do futuro. E, é claro, ele chegará em um avião, trazendo não apenas muita carga para os seus devotos, mas simplesmente toda a carga do mundo, para que todos vivam a felicidade plena, cheios de bugigangas modernas.

Não se sabe se John Frum realmente existiu, muito menos se viveu na ilha. Como em várias religiões por aí, a história por trás deste messias também é confusa e cheia de versões.

Algumas dizem que ele era um nativo que andava com roupas ocidentais, outras dizem que ele foi apenas uma visão espiritual que apareceu para alguém que estava sob efeito de uma planta local. E existe também a versão que me pareceu a mais confiável: John Frum foi apenas um dos militares norte-americanos que desembarcaram em Vanuatu nos anos 1930, mas por ser negro como os nativos e também um oficial de alta patente – e, portanto, chefe de muitos outros -, ganhou a admiração de todos e virou um ídolo.

A cruz de John Frum. Foto: Tim Ross (CC BY 3.0)

Independentemente da versão sobre a origem de John Frum (cujo nome, aliás, também pode ser escrito como John Brum e acredita-se que venha de “John From America”), todas as lendas concordam com as orientações que ele deu aos seus fiéis: eles deveriam se livrar dos objetos estrangeiros, voltar ao modo de vida original das tribos e esperar pacientemente pelo seu próprio retorno, quando ele traria todos os rádios, geladeiras, fogões, comidas enlatadas e armas do mundo.

As ordens foram acatadas de forma tão fervorosa pelos nativos que o governo provincial chegou a prender os líderes espirituais das tribos, porque ninguém mais queria trabalhar e até o dinheiro local foi descartado, causando um problemão para a economia da ilha. Mas nada diminuiu a fé do povo, que, como vários outros da região (cada um acreditando na sua própria divindade da carga), chegou a construir uma tosca pista de pouso, para que John pudesse aterrissar sem passar pelo aeroporto oficial, dominado por infiéis.

Nativos de Papua esperando a sua carga, do seu deus. Quadro de Mondo Cane (1962), direção de Gualtiero Jacopetti, Paolo Cavara e Franco Prosperi

Quadro de Mondo Cane (1962), direção de Gualtiero Jacopetti, Paolo Cavara e Franco Prosperi

Hoje, entre muitas histórias que carregam a lenda para lá e para cá, os seguidores remanscentes fazem celebrações frequentes. Toda sexta-feira, por exemplo, é a noite de John Frum. Eles se reúnem e tocam músicas que lembram o estilo country americano e falam sobre uns tais Jerry Cowboy e Jimmy Cowboy, personagens de filmes antigos de bangue-bangue que acabaram incorporados como apóstolos do messias.

A festa mais importante, porém, acontece a cada 15 de fevereiro, o dia em que John Frum retornará para a ilha. Nesta data, acontecem grandes rituais religiosos que, entre danças típicas, imitam paradas militares, com fiéis vestindo uniformes americanos ou apenas com enormes “USA” pintados com tinta em seus peitos, carregando pedaços de madeira que simulam rifles e metralhadoras e fazendo movimentos típicos de soldados. Tudo na esperança de atrair John Frum.

Quadro do trailer de Waiting for John, de Jessica Sherry.

Quadro do trailer de Waiting for John, de Jessica Sherry.

Quadro do trailer de Waiting for John, de Jessica Sherry.

Apesar do ungido nunca ter dado nem um mísero “oi” nas últimas sei lá quantas décadas, o movimento parece não perder força, tanto que a igreja católica local, numa tentativa de angariar fiéis, adotou o nome de Unidade de John em Cristo e arranjou um jeito de colocar Frum na Bíblia, como um apóstolo de Jesus. Os devotos até adotaram uma cruz vermelha como símbolo da sua religião e houve uma mistura nas lendas, mas foi só isso. No geral, o pessoal segue esperando sua carga infinita, sem arredar o pé da pista de pouso do alto da montanha.

PRÍNCIPE, MARIDO E DEUS

O outro ramo religioso de Culto à Carga na ilha de Tanna, o Movimento Príncipe Philip, é bem menor do que o de John Frum e também tem origem confusa, mas ao menos os seus seguidores veneram um homem vivo e que até já apareceu por lá de verdade. Sim: o Príncipe Philip que dá nome à religião é ninguém menos que o Duque de Edimburgo, marido de Elizabeth II, rainha do Reino Unido.

Deus e a rainha, nos anos 1950. Foto: BiblioArchives : LibraryArchives (CC BY 2.0)

Deus em 2012. Foto: Mikepaws (CC BY-NC-ND 2.0)

Os devotos de Philip vivem na vila de Yaohnanen e acreditam que o príncipe, que está com 93 anos, seja o filho de uma lendária divindade das montanhas de Tanna. Segundo a lenda, esse homem saiu da ilha sabe-se lá quando dizendo que iria em busca de uma esposa poderosa e, após a sua própria morte, retornaria em espírito com muita riqueza e um carregamento gigantesco de cargas.

Uma das teorias diz que os yaohnanen começaram a desconfiar de que Philip era o tal sujeito quando viram o respeito com que os soldados britânicos da ilha se referiam a Elizabeth II. Até o momento, eles não conheciam outra mulher tão poderosa e logo concluíram que o marido dela só poderia ser o tal filho da divindade da montanha.

Então, em 1974, Philip e Elizabeth II fizeram uma visita a Vanuatu e a visão daquele homem elegante, vestido com uniforme militar, ao lado de uma esposa poderosíssima, confirmou totalmente a fé dos yaohnanen. Eles estavam diante de seu líder divino.

Philip levou um tempo para saber que era considerado um deus por uma tribo do Pacífico Sul, mas depois que tomou conhecimento chegou a enviar 3 fotos pessoais, autografadas, aos líderes da religião. Hoje essas fotos são protegidas pelos chefes tribais como relíquias sagradas.

Christopher Hogue Thompson (CC BY-SA 3.0)

Infelizmente, apesar de ter recebido e ainda receber muitos convites dos anciãos da tribo, Philip nunca retornou a Vanuatu e provavelmente não retornará mais.

Se retornasse, talvez pudesse fazer uma foto com os seguidores de John Frum também. Afinal, tanto para os fiéis do primeiro movimento quanto para os do segundo, Philip e John, apesar de nunca terem se conhecido e não terem absolutamente nenhuma relação possível, são nada menos que irmãos de sangue.

Como eu disse lá no início, tribos isoladas são pequenos paraísos para quem gosta de conhecer histórias fantásticas.

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Fontes: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16.

Para saber mais:

Deus, um Delírio – Richard Dawkins – Companhia das Letras

– Quest in Paradise – David Attenborough

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    8 Comentários
  1. Realmente fascinante!

  2. Muito interessante!

  3. Uma tribo numa ilha no meio de Oceania conseguiu ser totalmente influenciada pela dicotomia EUA/UK e ainda sim manter a sua cultura individual. Muito esquisito, muito foda, incrível!

  4. Muito bom! É incrível as curiosidades deste mundo que tu consegues descobrir! E, melhor de tudo, passar pra teus fiéis leitores. Parabéns!!!

  5. Inacreditável! Lembrei agora de um filme de comédia que fez muito sucesso na década de 80, chamado Os deuses devem estar loucos, que conta a história de uma tribo africana que venerava uma garrafa de Coca-Cola caída de um avião. ;p

  6. Acabei de sonhar com algo parecido e pesquisei na net e encontrei essa história.

  7. No livro e no filme Eram Os Deuses Astronautas? (Chariots of the Gods?) do autor Erich von Daniken, essa tribo é um dos primeiros exemplos apresentados na teoria dos antigos astronautas, que recentemente virou até série no canal History. Eu recomendo e acredito que pode servir como referência aqui.

    E a propósito Gabriel, seus posts são muito bons!

  8. Adoro (es)histórias, curiosidades e outras coisinhas como essas…

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