Dá para fazer uma noite romântica com um norte-coreano ou uma norte-coreana?

Os guias são espiões do governo?

Sou gay, posso ir para a Coreia do Norte?

A terra de do ditador Kim Jong-un um é um balaio de dúvidas e mitos para o mundo. Que o diga o inglês Simon Cockerell, diretor da Koryo Tours, a mais experiente agência de viagens especializada em Coreia do Norte. Simon mora em Pequim, na China, mas já pisou mais de 100 vezes na Kimlândia, então dá para dizer que ele vive mesmo na ponte-aérea entre a capital chinesa e Pyongyang, a capital norte-coreana.

Foto: Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 4.0)

Semana passada, o blog da Koryo Tours publicou um post em que Simon derruba 5 dos mitos que vive escutando, todos ligados à Coreia do Norte. Achei os assuntos tão interessantes que pedi para traduzir e publicar aqui – o que Simon gentil e imediatamente autorizou.

Prepare o kimchi e aproveite.

*****

 

1 – Posso sair com uma norte-coreana?

Isso não é tecnicamente ilegal, mas não é algo fácil de acontecer. O assunto é muito discutido entre os turistas e, apesar de alguns esforços bem grandes, eu nunca vi nenhuma tentativa dando certo de verdade.

Dizem que o par ideal é homem da Coreia do Sul e mulher da Coreia do Norte. Foto: Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 4.0)

A Coreia do Norte tem um orgulho enorme da sua homogeneidade e é uma sociedade profundamente conservadora, então sair com um visitante estrangeiro seria algo embaraçoso e distante da personalidade da maioria das mulheres norte-coreanas – e dos homens também, apesar do exibicionismo deles quando as conquistas amorosas entram na pauta das conversas. Sem falar que isso poderia ser antiético caso envolvesse algum profissional do turismo.

Basicamente, sair com pessoas locais não é algo que se possa esperar na Coreia do Norte. Cantadas são comuns, sentir atração por alguém é universal, mas tentar ir além seria uma decepção.

Os sedutores frustrados, porém, não precisam ficar tristes. Há algum tempo, nós levamos um grupo de conquistadores profissionais para lá e todos se deram mal. Se você falhar também, pelo menos vai estar em boa companhia.

 

2 – Posso ir para a Coreia do Norte sendo norte-americano, israelense ou mesmo gay?

Sim, sim e sim.

Até 2010, os norte-americanos só podiam entrar na Coreia do Norte durante o período dos Mass Games e apenas por 4 noites. Porém, desde janeiro de 2011, um visitante com passaporte dos EUA pode fazer quase o mesmo que qualquer outro turista, exceto viajar de trem e pernoitar em alguns hoteis do interior. A situação é igual com turistas israelenses. A Coreia do Norte tem relações diplomáticas com a Palestina, não com Israel, mas, na prática, isso não significa nada para os turistas. Viajantes isrelenses são bem-vindos no país.

Se não me engano, tem mais de um norte-americano nesta cena. Foto: Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 4.0)

Na questão da homossexualidade, os norte-coreanos sempre vão negar que existam gays entre eles, mas é muito mais uma questão cultural. A Coreia do Norte não é um país abertamente anti-gay, é apenas uma nação onde este assunto nunca é abordado e onde as pessoas geralmente crescem completamente ignorantes em relação à existência de orientações sexuais, de questões de gênero e até mesmo de qualquer forma de sexo que não seja a básica e convencional.

Nós já levamos muitos turistas gays e, na maioria das vezes, ninguém percebeu nada, mesmo quando os visitantes agiram naturalmente. Os sinais que são percebidos em outras sociedades simplesmente não existem na Coreia do Norte. É uma população totalmente ingênua.

Infelizmente, isso também significa que os gays norte-coreanos levam vidas frustradas, sem compreender a sua própria identidade, sem referências para entender eles mesmos e sem apoio da sociedade. Existe um caminho muito longo a ser percorrido nesse sentido, lá dentro. Mas para os turistas, isso não é um problema na viagem. Quase ninguém na Coreia do Norte pensa muito no assunto e a maioria acha que é apenas confuso ou até divertido, ao invés de achar algo problemático. Você pode viajar exatamente como qualquer outro turista.

 

3 – Tenho que jurar fidelidade aos líderes para conseguir o visto?

Não, de forma alguma.

Em alguns lugares visitados (estátuas dos líderes ou o mausoléu de Kim Il-sung e Kim Jong-il, por exemplo), os visitantes são convidados a “demonstrar respeito”, o que signfica fazer uma pequena reverência. Você pode aceitar ou apenas ficar parado. Os norte-coreanos podem achar que você está realmente honrando eles ou apenas seguindo um ritual.

Nós costumamos comparar isso com o ato de tirar o chapéu dentro de uma igreja ou retirar os sapatos em um templo budista. Não é nada mais do que seguir as regras sociais esperadas pelos anfitriões e não significa que você está “do lado deles” nem qualquer outra coisa.

Você não precisa deixar seus princípios de lado em uma vista à Coreia do Norte, não precisa fingir ser algo que você não é e não precisa agir como se estivesse de acordo com algo que você não está. A ideologia política norte-coreana é apenas para os norte-coreanos, e você é apenas um turista estrangeiro. Você não entra neste cálculo.

 

4 – Quantos turistas são presos a cada ano, na Coreia do Norte?

Em 21 anos de trabalho, a Koryo Tours nunca teve nenhum caso de turista importunado, detido, interrogado, preso nem expulso da Coreia do Norte, e nós tomamos um cuidado enorme na hora de informar os nossos clientes sobre as regras e os limites em uma viagem para lá.

Na verdade, é muito difícil ser preso em uma visita ao país. Algo simples como tirar uma foto “errada” significa nada mais do que receber um pedido para apagar a imagem. Aliás, nós costumamos avisar que quem entra em apuros quando algo acontece são os guias, não o viajante. A responsabilidade sobre os ombros dos turistas é muito pequena – o que não é uma licença para se comportar mal, já que alguém vai acabar sofrendo pelo que você fizer.

Militar na DMZ: nossa, que ameaçador. Foto: Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 4.0)

Recentemente aconteceram alguns casos famosos de pessoas que visitaram o país como turistas e foram presas, mas os detalhes destes incidentes são públicos. Em todos eles, os motivos para as detenções e prisões não eram coisas que os turistas normalmente fazem, não foram acontecimentos arbitrários. Por isso aconselhamos a todos que saibam o que pode e o que não pode ser feito na Coreia do Norte.

Basicamente, uma viagem pela Coreia do Norte não coloca em risco a liberdade ou a sua vida. Não há razão para você ter problemas. Mas estar informado é estar preparado.

 

5 – Os guias são espiões do governo?

Não.

Ainda que seja muito legal contar aos seus amigos que você “foi seguido por agentes do governo o tempo todo”, a verdade é que os guias apenas levam você para os lugares interessantes.

Os guias norte-coreanos não trabalham para o governo. Eles trabalham para a KITC, a empresa de turismo do país. Ela é propriedade do estado – e há diferenças entre “estado”, “propriedade do estado” e “governo” – mas com objetivos iguais aos de qualquer empresa, inclusive o lucro. Guias do governo trabalham com organizações governamentais e são diferentes. Espiões são algo mais diferente ainda.

Não querendo decepcionar ninguém, mas sendo bem prático, os turistas não são tão importantes e não têm nada a oferecer de valioso para a inteligência governamental da Coreia do Norte. Além disso, existem mais turistas visitando o país do que o mundo imagina e simplesmente não há logística que possibilite que os guias espionem todos – sem falar nas falhas às quais os próprios guias estão naturalmente sujeitos.

Eu já li um viajante dizendo na internet que “o guia segue você em todos os lugares, inclusive no banheiro”. É difícil imaginar como um guia conseguiria acompanhar todo um grupo de pessoas cada vez que alguma delas fosse ao banheiro, o que torna essa história algo completamente sem fundamento. Mas é algo em que todos acreditam, porque afinal é a Coreia do Norte.

A vida real é bem mais chata e mundana: os guias são responsáveis pelo grupo, o grupo precisa ficar junto do guia e às vezes o guia também precisa ir ao banheiro. Isso pode acontecer na mesma hora em que você precisa tirar água do joelho. Seria uma coincidência? Ou seria uma prova irrefutável da conspiração do governo norte-coreano para evitar que você não faça nada de errado enquanto dá sua mijadinha?

Deixo você decidir.

*****

Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Por Que Pra Lá – Coreia do Norte

– Visto norte-coreano: uma experiência surreal

– O que se faz na Coreia do Norte

– O que se faz na Coreia do Norte (segunda parte)

– Curiosidades norte-coreanas

DEPOIS DA VIAGEM:

– Coreia do Norte: o país mais estranho do mundo é um país deste mundo

– As (minhas) melhores imagens da Coreia do Norte (como fotografar no país)

– Arirang. A Coreia do Norte a cores

– Air Koryo, a Coreia do Norte que voa

– Dançando com norte-coreanos

– O que fiz na Coreia do Norte – 1º e 2º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 5º dia

– O que fiz na Coreia do Norte – último dia

– Tony Wheeler na Coreia do Norte

– Gabriel Quer Viajar na CBN

– A Coreia do Norte na prática

– É ético ir para a Coreia do Norte?

– Mulheres de Conforto

Meu longa-metragem na Coreia do Norte

Você também poderá gostar

Se gostou do que viu, assine o blog!


    29 Comentários
  1. Posso levar uma garrafa de Coca-Cola e um Big Mac comigo, caso eu vá um dia ? Não sei como são as coisas por lá, então vai que eu levo e sou preso por isso.

  2. Olá, queria saber se eu não posso questionar sobre as prisões, se tem familiares presos aos moradores, e se eles não tem vontade de sair. Ou sempre que eu falar sobre isso, eles vão falar que o pais é uma maravilha?

    abs!

    • William, não sei qual seria a resposta deles, porque não perguntei nada disso.

      Você pode perguntar o que quiser, só precisa estar preparado para a reação. E se você perguntar essas coisas, a reação certamente vai ser negativa para você e possivelmente para o seu grupo. Ou seja: você pode prejudicar um monte de gente que nem conhece.

      Então a minha recomendação é: se você sente muita necessidade de fazer estas questões, não vá para a Coreia do Norte.

      Abraço.

  3. Além destes pontos, muito bem abordados nesta reportagem, já tive contato com um professor na universidade que esteve um mês visitando a Coréia do Norte e também uma reportagem de ex-combatente norte-americano que optou por viver na Coréia do Norte após a guerra USA x Coréia. Trata-se de um país maravilhoso no aspecto cultural, culinária fantástica, paisagens lindas, grandes museus e obras de arte, pessoas que se respeitam e extremamente seguro para fazer turismo.

  4. ¡Me gustan mucho las informaciones! 🙂 não sabia nada sobre a Coréia do Norte, só sabia que era…a Coréia do Norte! Na Coréia do Norte tem fuzilamentos públicos para quem desobedece alguma lei do governo, como li numa revista? O que é considerado uma foto “errada” por lá? Tem praias lá? Como é o clima?

  5. Gracias, pero era solo curiosidad mía. Afinal, quem não fica curioso para saber coisas sobre esse país, com um dos regimes mais fechados para o mundo?

  6. Oi Gabriel, tudo bem?

    Fiquei super interessado em ler as tuas matérias, mas os links dos outros posts sobre a Coréia do Norte não estão disponíveis. Eles não abrem. Tem outro acesso?
    Abraços.

    • Oi, André! Não entendi de quais links você está falando. Acabei de testar quase todos aí em cima e deu tudo certo. Tem algum específico que não funcionou para você?
      Aliás, você também pode selecionar a categoria Coreia do Norte, ali na barra lateral do blog, e ver todos os posts.
      Valeu! Abraço!

  7. Olá, Gabriel. Tenho uma dúvida, pela qual pesquisei e não encontrei claramente uma resposta, se souber responder, agradeço: até onde vai a liberdade dos norte-coreanos para viajar ao exterior?

    • Giovanni, alguns têm permissão para sair, mas não sei os critérios. Devem ser muito confiáveis para o regime, acredito.

  8. Encontrei esse blog hj, por coincidência também estive na Coreia, julho de 2014.

    Algumas perguntas que eu vi que consigo responder, o trânsito de coreanos para fora do país é livre, o obstáculo em sair é financeiro, por ser uma economia socialista pequena e embargada e garantir uma razoável distribuição de riqueza pra população, o soldo de um coreano médio é insuficiente para sair do país, uma realidade nada incomum para outros países também.

    Prostituicao não existe e o consumo de drogas é proibido (uma observação a maconha, que não é considerada droga e portanto não é proibida, mas não sei dizer se há consumo e sua escala.)

    Durante as duas semanas que passei no país eu pude sair sozinho sem problema, em pyongyang eles têm o instituto de língua português na Universidade Kim Il Sung, o que é uma boa oportunidade de conversar com os coreanos, muitos me perguntaram de Jorge Amado, que é muito lido lá (talvez por ser comunista).

    Gostei do blog, parabéns!

    • Obrigado pela contribuição, Lucas! E pelo elogio também! =)

  9. 1 2
Deixe seu Comentário