Os kassenas são um povo tinhoso. Mesmo enfrentando séculos de ataques de tribos inimigas e também o colonialismo europeu na África, eles conseguiram se manter até hoje nas mesmas terras onde seus ancestrais se estabeleceram, por volta dos anos 1600.

Seu território até foi dividido entre franceses e ingleses, fazendo com que os kassenas dos dois lados da fronteira desenvolvessem diferenças culturais ao longo dos séculos, mas todos seguiram lá, firmes.

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

Uma das armas dessa resistência ainda pode ser vista por quem visita as suas vilas, nas atuais Burkina Fasso e Gana. Aliás, é impossível não ver essa arma, já que ela é linda e o povo mora dentro dela: a arquitetura kassena, essa coisa louca aí da foto acima.

Igualzinho aos castelos ao redor do mundo – mas obviamente de forma bem mais simples – as casas dos kassenas foram feitas pensando nos invasores. Elas costumam ter uma única porta, bem baixa, e nenhuma janela, o que significa pelo menos três vantagens em relação ao inimigo:

– O interior é muito escuro e contrasta fortemente com o lado de fora, fazendo os invasores ficarem momentaneamente cegos depois entrarem nas casas, quando os kassenas aproveitam e liquidam os crápulas.

– Por serem muito baixas, as portas dificultam a entrada de flechas, protegendo quem está no interior.

– Também por serem baixas, as portas obrigam as pessoas a engatinharem para entrar, fazendo com que a cabeça seja a primeira parte do corpo a chegar do lado de dentro e colocando o invasor numa posição péssima para quem pretende ficar vivo.

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

Hoje os inimigos não aparecem mais com a frequência dos séculos passados e as características físicas de proteção servem apenas para evitar a entrada de animais grandes, o que faz com que muitas casas não sigam mais todas as regras criadas pelos anos de lutas. Mas a arquitetura kassena continua protegendo o seu povo.

Os desenhos ao redor destas pequenas fortalezas de barro, esterco e palha, construídas seguindo regras hierárquicas das vilas e com paredes que chegam a 20 cm de espessura, são uma tradição cuja origem não é conhecida, mas a finalidade é: proteger as pessoas contra os males espirituais e as construções, contra as chuvas.

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

As formas realistas, abstratas e geométricas que você vê nessas fotos são feitas apenas pelas mulheres das vilas, durante o período de seca, e dão uma trabalheira dos infernos. Elas exigem muito tempo de dedicação e trabalho sincronizado de várias operárias, e incluem lixar paredes, aplicar uma base de esterco e terra, preparar as tintas (feitas de cinzas e pó de pedras), fazer pincéis com penas de galinhas, definir os desenhos, pintar e ainda aplicar uma derradeira camada feita com alfarroba – um fruto que, dizem, rivaliza com o cacau.

Algumas etapas precisam ser repetidas várias vezes durante o processo. Essa última, com a alfarroba, precisa de três repetições e serve para impermeabilização das casas, evitando que elas se dissolvam na época das chuvas e que o trabalho da pintura tenha que ser refeito antes de 3 ou 4 anos.

A proteção espiritual fica por conta das formas que as mulheres desenham nas paredes. Apesar de parecerem sem sentido e aleatórias, cada uma tem um significado ligado às crenças dos kassenas.

Triângulos e losangos, por exemplo, são representações de porongos (ou cabaças), um objeto importantíssimo na vida deles e fundamental para as mulheres. Luas e sóis representam o universo. Ziquezagues são as flechas usadas em batalhas. Lagartos abençoam as casas. Asas de morcegos são desenhadas de forma estilizada, para proteger as famílias. Cobras são representações de jiboias, que carregam as almas dos avós dos kassenas e nunca são mortas. E por aí vai.

Enzo Priore (CC BY-NC-ND 2.0)

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

Rita Willaert (CC BY-NC 2.0)

Os kassenas somam mais ou menos 100 mil pessoas atualmente e, pelo que pesquisei, os melhores lugares para ver a arquitetura deles estão no sul de Burkina Fasso.

O destino mais conhecido é Tiébélé – uma vila que já apareceu aqui no blog, de forma superficial, e que ilustra este post com a maioria das fotos. Segundo o Bradt Guides e outras fontes, ela é preparada para o turismo, inclusive com pousada, bicicletas para alugar e guias prontos para ajudar os turistas, além de ter as casas mais bem preservadas e bonitas, perfeitas para longas sessões de fotos. Tiebelé também tem um mercado interessante e um festival cultural que começa no meio de fevereiro e vai até o fim da colheira (que eu não sei quando é). E dá até para dormir no teto da casa do chefe da vila, se você quiser.

Maarten van der Bent (CC BY-SA 2.0)

Pela infraestrutura maior, Tiébélé costuma ser a base dos turistas que querem fazer algumas day trips pela região. Os mais ligados incluem aí uma visita à vila de Tangassoko. Ainda que menos bonitinha e conservada, o guia diz que essa última é menos turística e mais genuinamente kassena, além de ser mais quieta, de ter atmosfera melhor e um complexo real (onde vive o chefe local) muito mais bonito do que o de Tiébélé.

Tangassoko – Carsten ten Brink (CC BY-NC-ND 2.0) 2

Tangassoko – Carsten ten Brink (CC BY-NC-ND 2.0) 3

Tangassoko – Carsten ten Brink (CC BY-NC-ND 2.0)

Independentemente de qual destas vilas você escolher para conhecer os kassenas, saiba que talvez você já tenha cruzado com um representante da etnia por aí. Ou, melhor ainda, talvez até seja um deles.

Os kassenas fazem parte de um povo maior chamado gurunsi – aliás, a região onde vivem os kassenas ainda é conhecida como “país gurunsi”. Apesar de terem sobrevivido a sabe-se lá quantos desafios e invasores, muitas vezes os gurunsi (e os kassenas, por consequência) não venceram seus adversários. Em algumas dessas derrotas, os capturados viraram escravos. E sabe qual era um dos maiores destinos deles?

Sim, o Brasil.

Conhecer uma vila kassena pode ser mais do que apenas uma viagem. Pode ser uma volta às origens.

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Fontes: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21.

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    9 Comentários
  1. Ao ler este post fiquei imaginado, quantas culturas diferentes existem neste nosso planeta gigante.

  2. Que coisa lindaaaaaaaaaaaaaaa! Tou há um tempo querendo fazer uma tatuagem nesse estilo, acho que vou roubar a ‘estampa’ da casa de alguém…

  3. Fantástico!Mais um post que nos leva para um lugar incrível,nos conta suas lendas e aumenta nossa admiração por este mundo fantástico e suas diversas realidades. Parabéns!!

  4. Não é à toa que eu sonho com essa região. Imagina só uma viagem por Mali e Burkina Fasso! Deve ser demais!

  5. Muito, muito, muito lindo. Essa região tem povoado nossos desejos, pena que Burkina Fasso esteja fora das possibilidades atualmente. Mas Gana…ah, Gana 🙂

  6. Nossa! Cada lugar com a sua cultura, mas essa daí é bem diferenciada. Belíssimo post, estou aqui ainda admirando essas construções tão diferentes das do Brasil.

  7. Um belo trabalho. Vale a pena divulgar e reproduzir seu conteúdo. Meus parabéns.

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