Conforme prometido, voilà o post sobre como é ser mulher turista no Irã.

Apesar de ter sido escrito por mim, o conteúdo foi inteiramente relatado pela minha esposa, Márcia Steyer, designer gráfica e apaixonada por cultura e moda étnica, artesanal ou simplesmente produzida em locais diferentes da nossa realidade. Essa moça aqui embaixo, em Persépolis.

Ela passou o tempo inteiro ao meu lado, dizendo o que deveria ser colocado, o que ela sentiu, o que ela tem de dicas e quais fotos deveriam ser mostradas.

A seção de perguntas e respostas foi montada em cima do que foi enviado pelas leitoras. As questões que se repetiam foram agrupadas, e aquelas que não tinham total relação com o assunto “mulher turista no Irã” ficaram de fora, para não confundir as coisas.

Três ressalvas importantes:

– Este post trata apenas da experiência da Márcia como turista no Irã. Em nenhum momento ele pretende mostrar a realidade feminina no país. Para saber mais sobre este assunto, leia esta fantástica reportagem de Samy Adghirni, correspondente da Folha em Teerã.

– As informações abaixo são baseadas numa experiência vivida em outubro/novembro de 2013. Antes de embarcar, verifique a situação atualizada em fóruns pela internet. Hoje as coisas estão bem leves no Irã, mas já estiveram mais difíceis.

– Ao longo deste post, os lenços que cobrem apenas os cabelos das iranianas são chamados de “véus”, para facilitar. Mas o nome correto é hijab.

Esperamos (eu e a Márcia) que o post ajude bastante e que vocês todas embarquem logo para lá.

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MULHER E TURISTA NO IRÃ

“Acho que me acostumei com o véu e com essas roupas.”

Precisei de 9 dias no Irã para dizer a frase acima. Quem anotou a data foi o Gabriel, que ficou feliz escutando aquilo, porque era nítido que eu estava desconfortável nos dias anteriores.

Em Esfahan, no primeiro dia à vontade

Eu havia pesquisado bastante sobre como deveria me vestir no país. No Irã, as mulheres não podem usar roupas que mostrem suas curvas e são obrigadas a cobrir os cabelos e o corpo, o que não as impede de andarem lindas e bem vestidas. Eu sabia disso e havia feito vários testes em casa, mas encarar aquela realidade sempre que eu colocava meu nariz para fora do quarto do hotel era algo ainda mais chato do que eu havia imaginado.

Qualquer mísera descida ao lobby exigia pensar em uma roupa, colocar um véu e checar no espelho para ver se não havia nada que pudesse ser considerado ofensivo ou errado. Pelas manhãs, quando me preparava para um dia de turismo, meu tira-e-bota de modelos só não era maior porque eu sou econômica na bagagem e havia poucas opções. O problema não era nem me sentir bonita e confortável, era lidar com as mudanças de temperatura ao longo do dia. As manhãs e as noites eram frias, mas se os termômetros subissem em algum momento, eu precisava estar preparada para me desfazer de peças sem deixar braços de fora ou ficar com alguma camisa justa ou decotada para os padrões iranianos.

Em Howraman, no Curdistão iraniano

Em Persépolis, sob um solzão

No meio do rio Zayandeh, totalmente seco, em Esfahan

Na rua, a preocupação com o corpo até diminuía, mas o receio com o véu aumentava. Eu sabia que ele costumava escorregar pelos cabelos, mas precisei chegar no Irã para descobrir que ele escorregava demais, o tempo todo, o que me mantinha em estado permanente de atenção e me fazia inventar formas inúteis de prender o tecido à minha cabeça.

As coisas foram melhorando com o passar do tempo, naturalmente. E na manhã daquele 9º dia, o primeiro em Esfahan, eu finalmente me senti dominando essa parte da rotina muçulmana. As roupas largas e longas não incomodavam mais, porque a temperatura estava boa. O véu já nem era mais percebido. Depois de ter passado por Teerã e pelo Curdistão iraniano, visto tantas mulheres e turistas, de tantos tipos, com tantas roupas, todas seguras e relaxadas, eu relaxei também. Percebi que a atmosfera era muito tranquila e que não aconteceria nada de grave se algo fugisse do controle.

Mulheres em Teerã

Mulheres em Howraman

Linda, não?

A tranquilidade passou a ser tão grande que não me assustei nem quando vimos a “polícia de costumes” em ação, no aeroporto da cidade de Bandar Abbas, vários dias depois. O visual das oficiais dá arrepios, sim. Elas parecem os dementadores, do Harry Potter, com seus chadores pretos, esvoaçantes, fechados até o pescoço, sempre andando em duplas, de caras amarradas, mirando suas vítimas e indo até elas como se estivessem flutuando a poucos centímetros do chão. Porém, mesmo com toda essa aparência, elas foram gentis e discretas ao abordarem suas presas – uma mulher com um casaco bem justo e outra com um monte de cabelos para fora do véu. As trangressoras, vale ressaltar, pareciam apenas enfadadas pela situação e acompanharam as “dementadoras” com toda a calma do mundo. Ambas saíram de uma salinha alguns minutos depois, cada uma com um pequeno papel nas mãos, e seguiram suas vidas, aparentemente despreocupadas, como se tivessem apenas passado por mais uma reles burocracia estatal.

Mulher abordada por uma “dementadora”. Foto: Amir Farshad Ebrahimi (CC BY-SA 2.0)

Depois do celebrado 9º dia, mencionado ali em cima, meu único incômodo aconteceu justamente na data em que conheci as “dementadoras” e nos dois dias anteriores. Aliás, foi o maior perrengue relacionado ao vestuário islâmico em toda a viagem.

Estávamos na ilha Qeshm, no Golfo Pérsico, uma das regiões mais quentes do país, totalmente não recomendada durante o verão e ainda extremamente sufocante perto do inverno, nossa época por lá.

Mesmo com roupas leves – compradas em Shiraz, já pensando no calor da ilha – foi terrível andar toda coberta sob um calorão de não-quero-nem-saber-quantos graus, passeando por lugares sem a menor sombra. Era um círculo suarento: o lenço esquentava minha cabeça, o calor me fazia suar, o suor fazia o lenço grudar na cabeça (e no rosto e no pescoço), e o lenço grudado esquentava tudo ainda mais. Para piorar, havia as roupas compridas.

Enfrentando um calorão terrível, sem sair do estilo local

Mas foi apenas isso. No fim das contas, as partes difíceis de ser uma turista mulher no Irã não passaram destas.

Sei que talvez este post seja decepcionante para quem esperava um relato cheio de histórias escabrosas, mas a verdade é que todo o resto dos meus 27 dias iranianos correu como em qualquer lugar civilizado. Arrisco a dizer que foi até melhor.

Fui abordada não sei quantas vezes por mulheres sorridentes, queridas e curiosas, que vinham conversar e tirar fotos comigo, e que me deram a certeza de que eu teria um batalhão feminino me ajudando, caso precisasse de qualquer auxílio com roupas e véus. Conversei com homens de forma totalmente natural – apenas evitando estender o braço para apertar suas mãos, coisa que eles não costumam fazer com mulheres desconhecidas. Comprei absorventes de um vendedor que agiu com mais naturalidade do que eu mesma, que entrei na loja receosa com a experiência que estava por vir. E até mesmo no aeroporto onde vi a polícia dos costumes agindo, fui tratada com sorrisos, gentileza e atenção pelas oficiais da segurança.

É claro que esta foi apenas a minha experiência e que outras viajantes podem ter outras sensações, para pior ou para melhor. Porém, para mim, visitar o Irã é algo que não oferece nenhuma difículdade gigantesca se a viajante tiver bom senso e souber que está em um lugar de cultura moralmente conservadora.

Mas que dá um alívio tirar o véu dentro do avião na volta, ah, dá!

 

– É possível uma mulher ir sozinha para o Irã?

Sim, é perfeitamente possível. Não há absolutamente nada oficial que impeça uma mulher de viajar sozinha pelo Irã.

 

– Você viu alguma mulher sozinha?

Sim, vi pelo menos duas.

Uma era de origem oriental, jovem e pequeninha, mas estava almoçando sozinha no Cafe Gallery, em Teerã. Não parecia estar preocupada com muita coisa, não.

A outra caminhava pelas ruas de Esfahan ao lado de um jovem que parecia ser seu guia. Ela era loira, estilo nórdica, e estava totalmente à vontade, batendo papo com o rapaz.

 

– É seguro viajar sozinha? Quais conselhos você dá para quem viajar assim?

Não posso responder por experiência própria, porque eu estava acompanhada do Gabriel, mas posso dizer que acredito muito que, sim, é seguro viajar sozinha pelo Irã.

O que eu vi foi um clima geral muito tranquilo. Em todos os lugares por onde andamos, fui tratada com respeito extremo, conversei com homens de forma natural, vi muitos se levantando para que eu sentasse nos metrôs e me senti querida por todas as mulheres. Convenhamos que isso não seria algo normal em um lugar onde estrangeiras estivessem em perigo constante, né?

De qualquer maneira, todas as sociedades têm seus idiotas pervertidos (até o metrô do Japão teve que criar um vagão exclusivo para mulheres e o metrô de Los Angeles precisou colocar um cartaz bizarro nos vagões). Aliás, uma arquiteta iraniana de 54 anos diz uma frase forte na reportagem que o Gabriel recomendou ali em cima. Segundo ela, que viaja muito para a Europa a trabalho, o preconceito ocasional iraniano contra mulheres, seja na rua ou no trabalho, parece muito com o da Itália. “Na maioria dos países europeus, a situação não é tão diferente da nossa”, diz ela.

Então é melhor tomar cuidados e preocupações básicas, como você toma diariamente no Brasil. Além do normal, o que recomendo é:

– Procure usar os vagões exclusivos para mulheres nos metrôs. Eles têm até áreas isoladas para embarque, nas plataformas;

Foto: psit (CC BY-NC 2.0)

– Use apenas roupas discretas. Se você estiver muito insegura quanto a isso, procure uma loja de véus e peça ajuda para comprar e usar um chador (aquele “lençol” preto que cobre o corpo inteiro). Certamente você será auxiliada e não vai mais precisar se preocupar com isso, já que vai “sumir” na multidão de mulheres usando o mesmo pelas ruas.

Mulheres usando o chador

– Se você achar mais prudente, contrate uma guia mulher para acompanhar você. Em Yazd, conheci a Pegah Latifi, que me acompanhou durante um dia inteiro na Ashura, a cerimônia religiosa mais fervorosa dos xiitas. Ela é maravilhosa, moderna e fala inglês perfeitamente. Se ela não puder acompanhar você pelo país inteiro, certamente pode indicar colegas. Anote os contatos dela: traveltoyazd@gmail.com, fone 0935 935 7079.

Da esquerda para a direita: eu, uma neozelandesa que conheci em Yazd e a guia Pegah Latifi

Para finalizar, veja algumas coisas interessantes que Virginia Maxwell, coautora do Lonely Planet Iran, escreveu para mulheres viajando sozinhas:

“Quase não se ouve nada sobre violência contra mulheres estrangeiras no Irã.”

“Relatos de agressões sexuais são raros.”

“Evite casas de chá e hotéis baratos ou pensões.”

“Seja educada, mas não extremamente aberta e amigável quando conversar com homens.”

“Se você precisar de ajuda na rua, procure pedir informação primeiro para mulheres. As mais jovens são as que têm mais chances de conseguir falar inglês com você.”

“Em ônibus intermunicipais, você pode sentar em qualquer lugar, mas tente sentar ao lado de uma mulher.”

A este último conselho, eu acrescento: caso você não encontre um assento ao lado de uma mulher, demonstre seu desconforto para o motorista. Acredito muito que as pessoas no ônibus vão resolver o problema com toda a gentileza do mundo.

 

– Você saiu sozinha?

Não cheguei a caminhar solitariamente pelas ruas, mas eu e o Gabriel nos afastamos em determinados momentos, principalmente quando passeávamos por bazares. Nessas horas, não dava para alguém saber se eu estava acompanhada ou não, mesmo assim não senti nenhuma hostilidade.

 

– Como você foi tratada em hotéis, restaurantes e outros lugares?

Como disse acima, sempre com total respeito e cortesia, com sorrisos e curiosidade, além de convites para fotos.

 

– Como você acha que seriam tratadas uma mulher sozinha, um casal de mulheres ou um grupo de amigas?

Creio que todas são atendidas da mesma forma que eu fui, com respeito, atenção, cortesia e tudo mais. Sobre o casal de mulheres, é preciso deixar claro que, se elas forem namoradas ou casadas, não devem demonstrar isso em público. Infelizmente a homossexualidade não é tratada naturalmente por lá. O melhor é agirem como se fossem apenas duas amigas viajando juntas.

 

– Você conversou com mulheres iranianas sobre assuntos como machismo, liberdade sexual, homossexualidade e sobre a vida delas?

Não conversei, até porque não é comum você conhecer uma pessoa e já sair perguntando o que ela pensa de machismo, liberdade sexual e homossexualidade, certo? Fui abordada por mulheres querendo conversar, mas os assuntos que elas tratavam eram bem mais amenos: filhos, marido, família, emprego, vida no Brasil etc.

 

– Existe alguma regra na hora de se dirigir a um atendente, garçom ou balconista para pedir algo? Isso pode ser feito pela mulher?

Se existe, não percebi, porque todos vinham até nós e nos atendiam normalmente. Eu pedia minhas coisas sozinha, fosse para um atendente homem ou mulher.

 

– Mulher desacompanhada pode pegar táxi sozinha?

Pode, mas o Lonely Planet recomenda que eles sejam chamados por telefone (o que não é muito diferente do que fazemos no Brasil, certo?)

Teerã tem pelo menos uma companhia de táxi só para mulheres, com carros dirigidos por mulheres, o que é excelente para quem não se sentir segura com um motorista homem. Em outras cidades, pergunte no seu hotel se existe algo parecido.

 

Foto: TfUnQ (CC BY-NC-SA 2.0)

 

– Como a mulher é tratada ao negociar nos mercados?

No meu caso, tudo correu normalmente. Sobre negociações, é preciso lembrar que persas não são árabes, então a ideia que muitas pessoas têm de que vão negociar no Irã como negociam no Marrocos, por exemplo, é completamente equivocada. Os iranianos até negociam um pouco, mas é só um pouco.

Negociando tapetes com homens, sem nenhum problema (nem regalia)

 

– Quais as recomendações para se entrar em mesquitas?

Se não houver sinalização exigindo algo especial ou proibindo o acesso a mulheres (o que acontece em determinadas áreas durante os cultos, por exemplo), você só precisa do bom senso natural ao se entrar em locais religiosos. Ajeite o véu e aja com respeito.

Na foto abaixo, por exemplo, eu estava em uma mesquita.

 

– As turistas são mais assediadas pelos homens?

Não posso responder esta questão porque estava acompanhada. Mas, sinceramente, acredito que aconteça o assédio normal que uma estrangeira (ou seja, uma pessoa exótica para os locais) recebe em qualquer lugar.

 

– É preciso andar nos vagões femininos do metrô?

Não é obrigatório. Você pode andar em qualquer outro, estando sozinha ou acompanhada.

 

– Como uma mulher anda de ônibus urbano?

Não peguei nenhum ônibus urbano, mas o Lonely Planet diz que eles são divididos, com metade exclusiva para mulheres, metade exclusiva para homens. Neles, sim, é proibido andar na parte masculina e vice-versa.

 

– Como uma mulher anda de ônibus intermunicipal?

Eu e o Gabriel estávamos em um carro alugado, então não usamos ônibus intermunicipais. Mas cito o Lonely Planet de novo: procure sentar ao lado de outra mulher, se você se sentir insegura ao lado de um homem.

Como em qualquer lugar do mundo, muitos iranianos ficam apenas com caras de bobo ao lado de uma desconhecida bonita. Foto: Ensie & Matthias (CC BY-NC-SA 2.0)

 

– Uma mulher viajando sozinha pode alugar um carro? 

Sim, pode. Não confunda o Irã com a Arábia Saudita. As iranianas dirigem normalmente e o site da locadora de carros não indica nenhuma restrição. Você só precisa ter a carteira de habilitação internacional.

Foto: Kamyar Adl (CC BY 2.0)

 

– Como é dentro dos aviões? Há separação?

Não. Dentro dos aviões é igualzinho ao mundo inteiro, com todos misturados. Já li que o pessoal do check-in tenta colocar mulheres sozinhas ao lado de outras mulheres sozinhas, mas não tenho certeza disso. Nos aeroportos, a única divisão acontece na revista de segurança. Leia a questão específica, mais abaixo.

 

– É possível perceber que uma mulher é turista, mesmo com o véu?

Depende. Se suas características físicas, suas roupas e seu jeito de usar o véu, por exemplo, forem muito diferentes das mulheres iranianas, vai ser fácil perceber que você é turista. A lógica é a mesma em qualquer lugar do mundo. Às vezes você reconhece um turista na sua cidade, certo? É assim lá também.

O que você pode fazer para reduzir as chances de ser percebida como uma turista é usar o chador. Mesmo assim, se o seu rosto ou a cor da sua pele forem muito diferentes das iranianas, vão saber que você não é de lá. E ainda que não percebam na maior parte do tempo, em algum momento você vai pegar um mapa para procurar algo e vai se entregar.

Se você quiser se disfarçar, tudo bem. Mas pela minha experiência é muito melhor que saibam que você é gringa. Você vai ser muito mais bem tratada, já que eles mimam os visitantes.

 

– Existe diferenciação entre homem e mulher na hora de pedir o visto?

Absolutamente nenhuma. O formulário a ser preenchido é exatamente o mesmo. A recomendação é apenas que você envie uma foto com os cabelos cobertos, mas apenas a fotos do seu visto. A foto do seu passaporte não importa.

 

– Casais podem andar de mãos dadas?

Sim. Andamos de mãos e braços dados e vimos muitos casais assim. Beijos e abraços em público, no entanto, não são recomendados, porque creio que sejam proibidos. É como namorar em novela de época, sabe? Tudo é mais recatado.

Foto: Kamyar Adl (CC BY 2.0)

Foto: Kamyar Adl (CC BY 2.0)

 

– Um casal de namorados pode ficar no mesmo quarto? Ou é necessário comprovar que são casados?

Andamos por cidades pouco turísticas e ficamos em hotéis bem baratos, mas ninguém nos perguntou nada, nunca. Só chegávamos, pedíamos um quarto de casal e éramos atendidos.

Segundo o Lonely Planet, é assim mesmo e ninguém dá bola para o seu estado civil, mas exceções raras podem acontecer em lugares muito isolados ou em pensões familiares muito pequenas.

Em conversas com pessoas nas ruas, no entanto, nunca diga que vocês são namorados. Sempre diga que são casados. É melhor.

 

– Quais são as regras gerais para se vestir no Irã?

O que você precisa fazer é:

– Cobrir cabelos e pesçoco com um lenço (pode ser qualquer um, desde que cubra estas partes);

– Cobrir o corpo, o que significa não usar camisas de mangas curtas, blusas decotadas, regatas, bermudas nem saias que mostrem as pernas;

– Disfarçar as curvas do corpo, o que significa não marcar cintura e cobrir as nádegas.

Infelizmente eu e o Gabriel não fizemos muitas fotos de street style por lá, mas selecionei algumas imagens em Creative Commons para você ver que as regras acima não significam mulheres sisudas e fechadas nas ruas – e para ver que nem todas as obrigações são seguidas. Para saber mais, vasculhe o The Tehran Times, um site de street style do país. É excelente.

Foto: Kamyar Adl (CC BY 2.0)

Foto: Kamyar Adl (CC BY 2.0)

Foto: Kamyar Adl (CC BY 2.0)

Foto: Kamyar Adl (CC BY 2.0)

Foto: Kamyar Adl (CC BY 2.0)

Foto: Ninara (CC BY 2.0)

Foto: Ninara (CC BY 2.0)

Foto: Ninara (CC BY 2.0)

 

– É realmente necessário que uma turista cubra a cabeça com o lenço?

Sim.

Não existe exceção: toda mulher em território iraniano é obrigada a seguir as regras acima. Não importa se ela é turista, se é estrangeira, rica, pobre, diplomata, solteira, casada, acompanhada, sozinha, esteja no país apenas por pouco tempo ou simplesmente fazendo uma conexão no aeroporto de Teerã. Pisou em território iraniano, é obrigada a seguir as regras acima. É lei desde 1979.

 

– O que acontece se o véu escorregar da minha cabeça no meio da rua?

Provavelmente alguém vai gentilmente avisá-la de que o seu véu escorregou. Só isso. Eu vi uma cena assim na rua e nada aconteceu à mulher. Aliás, a Caroline Dutra, que morava lá na época, era um primor de desenvoltura: enquanto almoçávamos, o véu dela caiu várias vezes, mas ela nem ligou. Invejei.

Ops, caiu! Foto: Paul Keller (CC BY 2.0)

 

– O que acontece se eu colocar o véu de forma errada?

Se os cabelos estiverem cobertos, provavelmente nada. Se os cabelos estiverem aparecendo demais, acredito que alguma mulher vá avisá-la gentilmente. Mas é importante saber que não existe uma “forma certa” de usar o véu. Cobrindo o que deve ser escondido, ele está certo. Pode não estar bonito e elegante, mas está certo.

 

– O que acontece se eu deixar um pouco de cabelo para fora?

Como você viu nas imagens acima, muitas iranianas não cobrem tudo, deixando belos nacos de cabelos à mostra. Segundo o Lonely Planet, você, enquanto estrangeira, sempre vai ser um pouco mais perdoada do que elas, neste quesito. E o guia ainda diz: “milhares de mulheres vão para o Irã todos os anos e nós nunca ouvimos falar de alguma que tenha sido ofendida na rua por não usar o hijab [o véu] adequadamente”.

 

– Existe algum lugar onde o uso do véu não seja necessário?

Apenas em lugares privados, em locais onde haja apenas mulheres ou pessoas conhecidas.

Exemplos: dentro do seu quarto no hotel, em banheiros femininos ou se você for convidada para visitar a casa de alguém e os anfitriões sinalizarem para você ficar à vontade e retirá-lo, se quiser. Mas da porta para fora destes lugares, você precisa se cobrir de novo.

 

– É preciso usar o véu mesmo dentro dos hotéis?

Sim. Saiu do quarto, véu na cabeça. Mas, calma: você não vai ouvir palavrões no hotel, em caso de esquecimento. Eles trabalham com estrangeiros, estão acostumados com essas dificuldades. Provavelmente alguém vai simplesmente avisar que você está sem véu.

No livro “O Irã Sob o Chador”, uma das jornalistas esqueceu de se cobrir ao jantar no restaurante do hotel. As pessoas até olharam para ela, meio assustadas, mas nada aconteceu.

 

– Posso tirar o véu dentro do carro, numa van de excursão, num ônibus ou no avião?

Carro, van, ônibus – Não. Se houver pessoas desconhecidas ao seu redor ou se você estiver em um local público, precisa usar o véu.

Avião – Se for voo interno, precisa permanecer de véu. Se for voo internacional, eu ainda tenho dúvidas em relação às companhias iranianas porque já li que elas exigem véu e também que não exigem. O certo é que, se a empresa aérea for estrangeira, você pode descobrir os cabelos.

Eu retirei meu véu assim que entrei no avião da Turkish, na volta.

 

– Preciso usar burca?

De maneira alguma. Ao contrário da ideia geral, é raríssimo encontrar mulheres de burca no Irã. Aliás, você não precisa nem usar o chador. Você só precisa cobrir os cabelos, o corpo e disfarçar seus contornos. Nada além disso.

Leia este post para saber as diferenças entre os véus.

 

– Para entrar nos lugares que exigem chador, ele é emprestado ou tem como alugar?

Não entrei em nenhum lugar onde fosse preciso usar chador, mas, pelo que li, eles são exigidos apenas em espaços muito sagrados e em prédios governamentais (como um ministério, uma assembleia legislativa e similares). Dizem que sempre há alguns para pegar emprestado, caso seja necessário.

 

– É preciso cobrir o quadril?

Sim, sempre. A sua roupa deve ir até abaixo das nádegas.

 

– Dá para usar blusa de mangas curtas ou 3/4?

Mangas curtas, não. Mangas 3/4, sim.

 

– Dá para usar bermudas ou qualquer peça curta nas pernas?

De jeito nenhum. Pernas cobertas de cima a baixo. Até dá para mostrar as canelas, mas o melhor é evitar.

 

– Dá para usar sandálias ou sapatilhas?

Sim. Vi muitas mulheres com pés à mostra pelas ruas.

 

– Alguma cor de roupa ou estampas devem ser evitadas?

Aparentemente, não existe nenhuma restrição a cores das roupas. É claro que o preto dos chadores é dominante (principalmente nas cidades do interior), mas vi mulheres coloridíssimas. Aliás, algumas regiões do país são famosas pelas cores que as mulheres usam. No Curdistão iraniano e na ilha Qeshm, por exemplo, elas são muito coloridas.

Em relação a estampas, vi de tudo, inclusive coisas claramente americanas. É claro que uma estampa chamativa vai chamar a atenção, do mesmo jeito que acontece aqui. Então, se você não quiser ser notada, o melhor é evitar.

As mulheres da ilha Qeshm chegam a usar burca, mas adoram usar cores também

Cores e estampas em Qeshm

Chador estampado e máscara colorida. Quer mais?

As mulheres de Abyaneh também gostam do colorido

 

– Alguma cor de roupa ou estampa deve ser evitada por mulheres sozinhas?

Nada específico. Vale seguir a regra: se você não quer ser notada, vista-se de forma discreta.

 

– Pode usar calças tipo legging ou skinny?

Sim, eu usei e vi mulheres usando também. Mas fica a dica: se a calça for muito justa (de novo: cuidado com os exageros), vale cobrir até bem mais abaixo das nádegas, evitando que os contornos das pernas apareçam demais.

 

– Elas se maquiam?

Sim! Muito! A obrigação de cobrir o corpo é claramente compensada com a maquiagem no rosto. Nos banheiros femininos, você vai ver mulheres com nécessaires enormes, cheias de maquiagem. As iranianas são muito vaidosas.

 

– Como enfrentar o calor no Irã?

Como você viu no texto lá em cima, esta é a pior parte das roupas islâmicas. É bem difícil, viu?

A primeira atitude que você pode tomar para evitar esse incômodo é escolher bem a época em que vai viajar e as regiões que vai visitar.

Junho, julho e agosto são os meses de verão, o que significa calor infernal em quase todo o país, com algumas regiões apresentando termômetros bem acima de 40ºC. Nessa época, você passaria calor mesmo se pudesse andar pelada pela rua.

Dezembro, janeiro e fevereiro são de neve em muitas áreas, mas com temperaturas minimamente decentes nas regiões perto do Golfo Pérsico.

No resto do ano, tudo vai variar. Em alguns lugares pode ser friozinho, em outros pode ser quente. Você vai precisar ver cidade por cidade para ter uma ideia.

Eu estive lá entre 20 de outubro e 17 de novembro e vivi dias agradáveis em todas as regiões – exceto no Golfo, é claro.

Outra atitude que você pode tomar para aliviar o desconforto é usar roupas claras e de tecidos leves (mas nunca transparentes!), saias longas e largas e véus de algodão. Mas isso é apenas para “aliviar”. Se você for para algum lugar quente, o calor vai ser inevitável, porque é impossível se sentir fresca coberta de tecidos.

 

– Existe diferença entre o que as mulheres usam em Teerã e no interior?

Sim.

Como qualquer capital do mundo, Teerã é muito mais cosmopolita do que as cidades do interior. Nela você vai ver mulheres usando roupas mais modernas, mostrando mais o cabelo e ousando muito mais do que nas outras cidades, onde você até vê algumas mulheres mais descontraídas (como as moças das fotos abaixo, em Shiraz e Esfahan), mas o chador domina. Depois de passar um tempo no interior, você fica um pouco chocada ao voltar para Teerã, porque parece um outro país.

A dica é: observe as mulheres ao seu redor e aja de acordo com o clima que você percebe.

Foto: Paul Keller (CC BY 2.0)

Foto: Paul Keller (CC BY 2.0)

 

– Dicas gerais sobre roupas e véus

– Para segurar véus que vivem caindo da cabeça, as iranianas usam um prendedor de cabelo com um aplique de flor, feito de um tecido sintético. Ele faz com que o véu pareça estar sobre um coque e, por ser sintético, “agarra” o tecido e não o deixa escorregar. Você pode encontrar esse aplique de flor em várias lojas, em qualquer cidade, porque praticamente todas as mulheres que usam véu se aproveitam desta técnica.

Prendedores em formatos de flores, feitas de tecido sintético

Por baixo do véu dela, certamente existe um prendedor em formato de flor

– Véus de algodão ou com alguma textura são os melhores para se evitar que escorreguem pelos cabelos. Véus de seda podem ser bonitos, mas pouquíssimo práticos.

– Você pode levar alguns prendedores de cabelo para segurar seu véu, mas não é necessário. Lembre-se de que você não vai ser atacada se ele escorregar por alguns momentos.

– Se você for usar algum aeroporto que não seja o internacional de Teerã (Imam Khomeini – IKA), vista-se com roupas discretas e ajeite bem o véu. Como em qualquer aeroporto do mundo, esses lugares são naturalmente mais vigiados, o que significa que pode haver oficiais da polícia de costumes por eles. É melhor não dar bandeira, né?

 

– As roupas que levei

– Três calças: uma legging preta, uma legging cinza-chumbo e uma jeans skinny;

– Um vestido de malha com listras azuis e manga comprida, um vestido de linho preto cavado e uma camisa jeans longa, todos com comprimento até o meio das coxas, para usar sobre as calças citadas acima.

– Um vestido de malha, azul, longo e solto, para usar por baixo dos vestidos mais curtos, citados acima;

– Um casaco tipo parka cinza claro, com comprimento até os joelhos;

– Uma jaqueta esportiva preta, um pouco justa (mas não muito);

– Duas blusas de malha, justas, de mangas longas, para usar por baixo dos vestidos;

– Cinco lenços de várias cores, todas combinando com as produções possíveis;

– Um tênis cinza e rosa;

– Uma sapatilha.

 

– Roupas que comprei no Irã

– Um mantô de pashmina, comprado em Teerã;

– Uma bata leve, azul, comprada em Shiraz, para enfrentar o calor do Golfo Pérsico.

Se você estiver insegura em relação às roupas que tem, considere comprar lá. Existem opções baratas e todas estão de acordo com o que as iranianas usam, o que livra você de preocupações.

 

– Eles revistam as malas na entrada do país? Tem problema entrar com medicamentos e produtos íntimos femininos?

Assim como qualquer polícia de aeroporto do mundo, a polícia iraniana pode revistar as suas malas, sim, é claro. Mas isso não significa que ela vá fazer alguma revista. Se fizer, você não precisa ter medo de nada, caso não esteja carregando drogas, álcool, pornografia ou carne de porco (eles são islâmicos, lembre-se disso). Ninguém vai apreender algo de uso íntimo feminino.

Sobre medicamentos, vale a mesma regra do mundo inteiro: tenha sempre um atestado médico para remédios de uso controlado e mantenha os mais leves em suas embalagens originais.

 

– Como são feitas as revistas pessoais nos aeroportos?

Na entrada da sala de embarque, onde costumam ficar os aparelhos de inspeção, homens e mulheres são separados e enviados para duas salas diferentes. Dentro delas, o procedimento é igual ao do Brasil. Você passa pelo detector, sua bagagem de mão passa pelo raio-x, você pega as suas coisas e segue adiante. Todos se encontram novamente logo depois da porta.

A separação é feita apenas para que as mulheres possam retirar seus véus na revista, sem homens olhando.

 

– Como foi a experiência com os banheiros? Você tem dicas?

Os banheiros são meio complicados. Nos hotéis eles costumam ser do tipo “ocidental”, mas fora deles muitos são do tipo “turco” – aqueles em que é preciso se agachar.

Desculpe mostrar isso, mas é melhor já ir se acostumando

Anote as dicas:

– Tenha sempre papel higiênico com você. É raro encontrá-los nos WCs;

– Os sanitários do tipo “turco” sempre têm uma mangueirinha ao lado, para a higiene;

– Se você tiver esquecido o papel higiênico, procure alguma caixa de lenço de papel (tipo Kleenex) no lugar onde você estiver. Os iranianos são loucos por esses lenços e mantêm caixas por toda parte (menos nos banheiros).

– Antes de entrar no banheiro, livre-se do máximo possível de bagagens e bolsas. Não existem ganchos para pendurar trecos e você vai ter que se agachar para fazer o serviço. Acredite: é bem difícil fazer isso segurando um monte de coisas.

– Tome muito cuidado com o véu. Se você bobear, ele vai encostar no vaso ou até cair. Daí já viu, né?

– Sabonetes líquidos são outra neurose dos iranianos: os banheiros podem não ter água, mas sempre têm litros e litros de sabonete.

 

– O que você recomenda levar, em especial?

Pessoalmente, não lembro de nada que saia do normal em uma viagem, mas o Lonely Planet recomenda levar absorventes internos, que são caros e difíceis de encontrar por lá.

 

– Que livros e blogs você recomenda, sobre o assunto?

The Tehran Times. Perfeito para ver como as iranianas mais modernas se vestem.

– Lonely Planet Iran. Sei que é óbvio, mas é isso mesmo.

Coordenada XY. A autora, Caroline Dutra, morou em Teerã por 3 anos e recém foi embora de lá.

Sozinha Mundo Afora. A Mari Campos vive viajando sozinha e sempre tem dicas ótimas para mulheres que querem fazer o mesmo. Ela não fala do Irã no livro, mas certamente ele vai ser bem útil em vários outros aspectos. Ah, também tem o blog dela, se você quiser algo mais imediato.

 

– Uma última e importantíssima recomendação:

Relaxe!

Sei que esse monte de regras assusta (eu estava muito receosa antes de embarcar), mas o clima é bem leve. Apenas siga as recomendações básicas quanto às roupas, mas sem paranoias. Nada de muito ruim vai acontecer se você errar. Em Esfahan, vi uma estrangeira que só usou calça jeans por dias (sem nem cobrir as nádegas!) e nada aconteceu com ela.

Vá e viva um país maravilhoso, para onde eu não vejo a hora de retornar.

Lembre-se: chador nunca, nunca, nunca significa antipatia

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    39 Comentários
  1. Oi Gabriel, muito bom o seu blog. Vou com a minha namorada em Maio, já compramos as passagens. Você acha que há problema por não termos certidão de casamento ? Quais hotéis sugere em Tehran, Isfahan, Yazd e Mashhad ? Como você reservou ?
    Você levou em Cash todo o seu dinheiro ?
    Obrigado

  2. Super adorei o blog! Meu recém esposo é iraniano,ele já veio ao Brasil onde nos conhecemos e nos casamos agora ele voltou para o Iran e eu vou ir agora em julho para conhecer a familia dele, e tudo o que ele me disse sobre as roupas,como devo me vestir,a maneira que os turistas são recebidos no iran super batem com o que vocês escreveram no blog,adorei!

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