Hamadan (ou “Hamedan”, como você pode encontrar em alguns lugares por aí) não estava incluída no meu roteiro pelo Irã. É claro que eu gostaria de visitar a cidade, mas o velho desafio de conciliar tempo e desejos numa viagem me obrigou a passar a faca nos planos, tirando Hamadan do meu mapa.

O destino, porém, fez questão de mexer no meu roteiro e teve uma forte ajuda da minha ingenuidade e inexperiência em viagens de carro. Hoje, eu só tenho a agradecer a estes fatores pela mudança.

Obrigado, destino.

Obrigado, ingenuidade e inexperiência.

*****

As capitais mais famosas do Império Persa são Pasárgada e Persépolis, mas a verdade é que o reino tinha várias cidades com este status. Todas existiam por motivos estratégicos mas algumas eram utilizadas também por suas condições climáticas, para que as cortes reais pudessem viver sempre em temperaturas amenas, mudando para lá e para cá de acordo com as estações do ano. Basicamente, os reis corriam para a capital mais fria no verão e para a capital mais quente no inverno.

Uma destas capitais era Hamadan. Ela tinha uma posição economicamente estratégica e fica em uma região alta e gelada, então foi escolhida como a capital de verão do império persa. Ciro, Dario, Xerxes e tantos outros reis passaram bons tempos nela, mas não foram eles que deram fama ao lugar. Bem antes, a cidade (conhecida pelos gregos como Ecbátana) já era capital de outro reino e considerada uma das mais importantes do mundo. Dizem até que ela tinha sete muralhas de proteção, sendo uma coberta de ouro e prata.

Mapa de Hamadan no século 16 – Matrakçı Nasuh

Infelizmente, a Hamadan de 2014 não tem quase nada de relíquia dos tempos antigos. Ao longo dos seus tantos milênios de existência, ela sofreu destruições, terremotos e reconstruções que acabaram com praticamente qualquer vestígio das glórias do passado. Por isso, mesmo sabendo que os túmulos de Ester e Mordecai estão na cidade – e que são o principal local de peregrinação dos judeus no Irã – eu não pretendia parar por lá.

Foi quando entrou em cena aquela coisa toda de destino, ingenuidade e inexperiência que falei ali em cima.

Em meus delírios viajantes, eu sinceramente achei que tudo aconteceria dentro do previsto e eu conseguiria sair de Teerã e dirigir por 500 km entre montanhas até a cidade de Sanandaj, a capital do Curdistão, logo no meu primeiro dia on the road. Obviamente não consegui e até me senti um campeão quando avistei Hamadan, 160 km antes da meta planejada. No meio de todos os perrengues daquela primeira viagem de carro e depois de achar que teria que dormir em alguma vilazinha na beira da estrada, chegar na capital de uma província era uma baita vitória.

Descansado e com várias lições aprendidas, resolvi passear por Hamadan na manhã do dia seguinte e fui direto para o local onde estão os túmulos de Ester e Mordecai.

O Irã tem (supostamente) oito figuras bíblicas enterradas em seus domínios. Ester e Mordecai são duas delas. Ambos eram judeus e são personagens importantíssimos para o judaísmo, com sua história contada no Livro de Ester, que faz parte do Antigo Testamento.

Segundo a Bíblia (e contado aqui de forma muitíssimo resumida, é claro) Ester era órfã e foi criada por Mordecai, seu primo mais velho. Já adulta, se casou com o rei Xerxes, virou rainha da Pérsia e agiu de forma fundamental na salvação dos judeus de um massacre planejado por um conselheiro do seu marido. O ato foi tão marcante que virou um feriado judaico chamado de Purim, celebrado até hoje.

Ester e Mordecai, por Aert de Gelder – Dominio Publico

Não sou dos mais religiosos, mas amo história e sou fascinado por religiões, então visitar as tumbas de personagens tão importantes para o mundo já seria algo emocionante por si só. Mas teve muito mais.

Ester e Mordecai estão em uma sinagoga bem no centro de Hamadan. Desde muito antes de embarcar para o Irã, eu já desejava fazer uma visita a uma sinagoga no país, porque eu sabia do respeito que os iranianos têm pelos judeus (tanto que escrevi um post sobre isso) e queria ver aquilo com meus próprios olhos, queria ver um templo religioso judaico em um país que o mundo acredita ser povoado inteiramente por antissemitas. A parada inesperada em Hamadan era a minha chance de ouro.

No início parecia que não ia dar certo. Cheguei no portão da sinagoga e vi que estava fechado, sem nenhum sinal de vida no pátio interno. Comecei a procurar informações no guia e já estava quase desistindo quando um homem que passava por ali me pediu para ir atrás dele e me levou para uma rua lateral até chegarmos em um outro portão. Era uma entrada alternativa para a sinagoga e estava bem aberta.

Na frente dela, na calçada, conversando com amigos sob o maravilhoso sol da manhã de outono, estava um senhor simpaticíssimo, já idoso, que abriu um sorrisão e foi logo se apresentando:

– Seja bem-vindo. Eu sou o rabino Rajad. Eu cuido da sinagoga.

E emendou num tom mais alto, confiante e orgulhoso, como se quisesse mostrar o contrário do que o mundo pensa, falando abertamente, sem nenhum medo:

– Eu sou judeu.

Foi arrepiante.

Ainda entrei na sinagoga acompanhado por ele, visitei as tumbas de Ester e Mordecai, conversamos sobre amenidades e fizemos fotos, mas isso foi um extra naquela manhã. Tudo que eu queria ver com meus próprios olhos no assunto “iranianos e judeus” já estava visto e sentido.

A sinagoga de Hamadan – Foto: Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 4.0)

Segundo o Lonely Planet, essa portinha de pedra pesa 400 kg

Dentro da sinagoga

Em primeiro plano, Ester. Em segundo, Mordecai

O querido rabino Rajad e sua caneta

O Lonely Planet diz que o rabino Rajad coleciona canetas dos viajantes que aparecem por lá. Entreguei a minha e fui embora quando um grupo de turistas chegou, acabando com a paz, o silêncio e o sossego em que estávamos naquele lugar tão especial, ironicamente posicionado a poucos metros de uma praça chamada Imam Khomeini.

Obrigado, destino.

Obrigado, ingenuidade e inexperiência.

 

Hamadan fica a 340 km de Teerã e é a capital da província que tem o mesmo nome. A cidade tem várias atrações ao seu redor, mas os guias não são muito estimulantes no que diz respeito a elas. Mesmo assim, depois da experiência na sinagoga da cidade, eu recomendo: se você puder passar pelo menos uma manhã por lá, passe. Vale o esforço. E apesar de não ter nada de muito especial na arquitetura, a parte mais antiga de Hamadan (onde está a sinagoga) é agradável, e as montanhas nevadas no horizonte formam um cenário lindão.


Exibir mapa ampliado

 

Onde ficar

Dormi no hotel Baba Taher, considerado o mais caro da cidade. A decoração é aquela coisa meio demais, cheia de mosaicos de espelhos, mas as instalações e a localização são boas. Paguei 70 USD por um quarto de casal.

 

Como chegar

Eu estava de carro próprio, mas o Lonely Planet diz que existem ônibus e voos regulares para a cidade.

 

Onde ir

Como você percebeu no texto acima, eu só fui na sinagoga, então não posso indicar nada além dela. Mas o Lonely Planet aponta outras atrações que não me chamaram a atenção, é óbvio, mas talvez chamem a sua.

Independente do que você decidir, sugiro boas caminhadas pela parte antiga da cidade. Eu gostei muito do clima.

 

Melhor época para ir

Estive lá num dia 28 de outubro, quase metade do outono, e fazia um friozinho bom. Dizem que a cidade é ótima no verão (tanto que virou a capital persa da estação) e congelante no inverno, entre novembro e março. Espere bastante neve se você for nessa época.

 

Como se locomover

Dentro da cidade: de táxi ou a pé. Nem se preocupe com ônibus ou qualquer outro meio de transporte. O táxi é tão barato que você fica constrangido.

Ao redor da cidade: converse com o pessoal do seu hotel, mas acredito que o melhor é táxi mesmo.

 

Onde comer

Só comi no hotel Baba Taher, então não tenho dicas para dar. Desculpe.

 

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    6 Comentários
  1. Olá Gabriel, essa informações são valiosas. Outro dia mesmo numa sinagoga aqui no Rio ouvi gente dizer que o Irã é um lugar onde os judeus são duramente perseguidos. Tive que discordar usando você como fonte. Não é que não possa existir perseguição religiosa por lá (acredito que exista de alguma outra forma de, digamos, constrangimentos, porque existem relatos de judeus que tem que fugir de lá), mas é bom estar atento porque as coisas não são como a mídia nos faz crer.

  2. Muito bom o post, enquanto não vou ao Irã, desfruto das suas historias que são emocionantes, vejo que cada metro quadrado da terra persa guarda um tesouro que, só indo realmente para conferi pessoalmente.

  3. Gabriel,
    Conheci o teu blog através de um post do Rick Freire (Viaje na Viagem) e daí passei a seguir o seu blog e sempre que tenho um tempo, venho aqui para ler algo.
    Eu sempre fico impactada pelo seu jeito simples de juntar palavras para descrever um local que você conheceu. Confesso que fico até emocionada algumas vezes com o jeito como você se permite ser surpreendido pelo novo, pela diversidade, pela inexperiência…uau, viva lá vida! Lindo demais.
    Me tornei uma apaixonada pelo seu trabalho. Farei, em breve, uma viagem seguindo as suas sugestões. Abraço

    • Obrigado pelos elogios, Eduardo, Cleydalton e Viviane! =) Muito obrigado!

  4. Que LINDO, Gabe. Arrepiei só de ler! Serendipity rules. Always 🙂

  5. Show, show.
    Fico feliz pela frustração dos planos de vocês 🙂

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