Quem viveu a virada dos anos 80 para os 90 leu muitas notícias sobre um lugar chamado Curdistão e um tal de “povo curdo”.

Infelizmente, eram apenas notícias terríveis, que falavam de refugiados, genocídio, armas químicas e atrocidades cometidas, na maioria das vezes, pelo ex-presidente iraquiano Saddam Hussein, durante a guerra Irã-Iraque.

Um curdo mandando ver no seu narguile. (Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0)

Eu vivi aqueles tempos e não entendi muita coisa na época (adolescente besta, sabe como é), mas acabei me informando sobre o assunto nos anos seguintes e descobri que lugar chamado Curdistão se espalhava por quatro países, inclusive pelo Irã.

Vários anos mais tarde, ele virou meu primeiro destino depois de Teerã.

O tal “povo curdo” é o maior povo sem país no mundo. Seus companheiros mais famosos neste clube desgraçado são os tibetanos e os palestinos, que vivem nas manchetes mundiais. Mas nenhum dos dois, nem qualquer outro povo na mesma situação, faz cócegas nos números impressionantes dos curdos. São aproximadamente 30 milhões de pessoas unidas por origem, história e cultura, mas sem uma nação para chamar de sua. Isso é cinco vezes mais do que o 2º colocado nesse ranking (o povo tibetano) e quase a mesma quantidade de habitantes do Canadá.

A maior parte de toda essa gente vive há milênios em uma área do tamanho do estado do Paraná – o tal Curdistão – dividida entre o Irã, o Iraque, a Síria e a Turquia. Infelizmente, é praticamente certo que os curdos nunca vão formar um novo país. Primeiro porque a região é rica em petróleo e em água e não vai ser dada de bandeja pelos donos atuais. Segundo porque eles mesmos têm divergências internas, inclusive com grupos políticos de ambições diferentes.

No geral, o que cada pedaço do Curdistão quer é respeito e maior autonomia dentro dos países onde já estão.

Os curdos do Iraque estão em melhor posição nesse sonho. Depois de terem comido o pão que Saddam Hussein amassou, hoje eles são praticamente donos dos seus próprios narizes dentro do estado iraquiano, vivendo em uma região tão separada do resto do país que dá até para fazer turismo nela sem preocupações.

Bandeira do Curdistão iraquiano

Os curdos da Síria “aproveitam” o conflito nacional para conquistar o mesmo que seus parentes iraquianos. Eles estão em guerra aberta contra os grupos rebeldes e estão evitando a invasão dos seus domínios. Segundo uma reportagem do programa da Vice, no canal HBO, as áreas afastadas da fronteira interna do país são calmas e tranquilas, com direito a mulheres de cabelos soltos e usando jeans. Aliás, um dos objetivos dos curdos da Síria é construir um estado laico para eles.

A pior situação está na Turquia. O governo turco passou muito tempo perseguindo os curdos e chegou a proibir o idioma no país, gerando conflitos feios, com guerra civil, atentados e tal, mas fez negociações recentes e conseguiu uma paz relativa – que anda ameaçada por causa de algumas promessas não cumpridas.

No Irã, a coisa fica no meio do caminho.

Os curdos iranianos somam 7 milhões de pessoas (pouco mais do que a nossa Santa Catarina), têm uma província grande com o seu nome, são maioria em uma área enorme e se espalham por cidades importantes próximas da fronteira com o Iraque.

Arte: Persia2099 (CC BY-SA 2.5)

Também mantêm sua cultura, falam sua língua e seus dialetos, mas ainda são totalmente submetidos ao governo de Teerã, que reprime qualquer mísero pensamento de independência, e sofrem preconceito no resto do país. Segundo o Lonely Planet, a imagem errada que o mundo tem dos iranianos (de que são perigosos) é a mesma imagem que os iranianos de outras origens têm dos curdos.

Para os forasteiros, no entanto, o cenário é bem diferente.

Apesar da área ser fronteiriça, ter barreiras militares nas estradas e o escambau – coisas que sempre assustam os turistas – Sanandaj, a capital da Província do Curdistão, é definida pelo Lonely Planet como extremamente receptiva “até mesmo para os altos padrões iranianos”. Já Howraman, uma das muitas vilas penduradas nas lindíssimas montanhas da região, onde hábitos curdos antiquíssimos ainda resistem, aparece em vários relatos de experiências inesquecíveis de viajantes, assim como sua irmã mais famosa, Palangan.

Passei pouquíssimo tempo na capital curda para confirmar a afirmação do Lonely Planet, não consegui visitar Palangan e confesso tristemente que não vivi nada de excepcional em Howraman. E ainda que o Curdistão não tenha nenhuma das maravilhas arquitetônicas de todo o restante do Irã, a experiência por lá foi positiva, no fim das contas.

Chá preto, onipresente também no Curdistão

Amigos curdos fumando narguile em um restaurante na beira da estrada

Meninos jogando bola em Howraman.

Um senhor de Howraman usando uma roupa típica: um kolobal, usado só pelos mais velhos e, por isso, em risco de extinção. Infelizmente a foto não é minha, é de Alessandro Longhi (CC BY-NC-ND 2.0), mas eu trouxe um kolobal para casa.

Levando as ovelhas para passear

Vilas e montanhas, uma constante

Uma vila tão perdida quanto eu estava naquele momento

As lindas montanhas curdas

Eu estava completamente perdido, mas parei para fazer uma foto

A caminho de Howraman

Ainda a caminho de Howraman

Aqui já era voltando de Howraman

O vale de Howraman

As montanhas curdas foram uma surpresa na paisagem. Eu até me acostumei depois, vendo picos altíssimos e nevados em vários outros lugares, mas naquele momento eu fui pego desprevenido. A cordilheira Zagros, a maior do Irã, praticamente define a fronteira com o Iraque e chega a 2 mil metros de altura no Curdistão (que nem é a parte mais alta). Dirigir por ela, mesmo perdido, com frio e com fome, é uma diversão gigantesca.

Saber que você está passeando pelas fronteiras da antiga Mesopotâmia também é algo emocionante. Porém nada, nada, nada foi mais impactante do que ver a moda masculina curda. A feminina também chamou muito a atenção, já que as mulheres da etnia quase nunca optam pelo chador e usam roupas muito coloridas, algo lindo de se ver e totalmente diferente dos outros lugares do país. Mas a masculina foi imbatível.

Cores curdas 

Em um mundo onde as pessoas se vestem de forma cada vez mais parecida e onde hábitos tradicionais são deixados para momentos especiais, é incrível passear por várias cidades pequenas curdas e ver todos os homens (repito: todos!) usando o mesmo tipo de calça e quase todos com o mesmo tipo de conjunto, formado por um turbante, uma camisa, um pequeno casaco e a calça larga como uma bombacha, tudo amarrado por uma faixa na cintura – que costuma ser retirada e rodopiada ao redor da cabeça durante festas. É sensacional. Nada de moda masculina estrangeira parece ter espaço no Curdistão. Chora, Ermenegildo Zegna.

Pedi uma foto, ele posou todo orgulhoso

Ele também posou orgulhoso, ainda que lá de longe

Esses não posaram orgulhosos, não

O lado triste de uma visita ao Curdistão iraniano fica a cargo da memória de quem viveu aquele período que citei no início do post. É impossível passar por lá sem lembrar, o tempo inteiro, que muitos parentes daquelas pessoas foram mortos na guerra com o Iraque.

Um sentimento que só um beijo inesperado de um militar, em uma barreria no meio da estrada, pode aliviar.

Torça para receber o seu.

 

Deixando de lado a paisagem, o povo, as emoções e a história, as principais atrações do Curdistão iraniano são as cidades de Sanandaj e Kermanshah, as vilas de Howraman e Palangan e as relíquias arqueológicas de Taq-e Bustan e Bisotun. Como eu disse ali em cima, o único lugar que eu consegui conhecer mesmo foi Howraman, então sou obrigado a me limitar a ele nas dicas práticas. Sanandaj e a pequena cidade de Marivan aparecem nas linhas abaixo porque a primeira me serviu como base para visitar a vila, enquanto a segunda pode ser uma boa opção para você.


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Como chegar

A vila Howraman fica no fim do asfalto de uma estradinha minúscula na beira das montanhas da região. É possível chegar lá de três formas: com transporte público (que eu não utilizei), com um táxi ou com um carro próprio/alugado.

Eu estava com um carro alugado, mas depois dos perrengues dos primeiros dias decidi que as visitas a cidades pequenas seriam feitas sempre com um táxi, para evitar ficar perdido e jogar fora meu precioso tempo iraniano. Assim, deixei meu carro no hotel em Sanandaj e pedi um táxi que me levasse até a vila.

Saí de Sanandaj, com o táxi, às 8h da manhã do dia seguinte. Foram mais ou menos 3 horas de viagem até Howraman (não acredite no que o Google Maps diz). Para chegar na vila, o táxi pegou a estrada 46 em direção a Marivan e dobrou na rodovia 15, em direção a Dezli. A entrada da rodovia 15 é bem pequena e fica na localidade de Biakara – fique ligado nas placas.

Depois de entrar na 15, basta seguir sempre reto, passando por várias vilazinhas, até chegar em uma bifurcação em frente a um posto militar.

Se você escolher seguir na 15 (que continua à direita na bifurcação), certamente vai ver paisagens lindas, mas vai ter que passar pelo pessoal do tal posto militar, já que o caminho tem vista para o Iraque e é sensível para os iranianos.

Se você escolher sair da 15 e entrar na estrada que segue pela esquerda, você vai descer até Howraman, zigue-zagueando pelas curvas das montanhas.


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Na volta, fui almoçar em Marivan já no meio da tarde e retornei para Sanandaj à noite. Ou seja: considere o dia inteiro nessa viagem.

Preço do dia táxi para uma viagem Sanandaj-Howraman-Marivan-Sanandaj: 80 USD.

 

Onde ficar

Em Sanadaj, fiquei no Shadi Hotel. Bom lugar, com quartos grandes e equipe que fala inglês. Fica um pouco afastado do centro da cidade, mas nada de excepcional. Você consegue um táxi baratíssimo rapidinho. Preço de um quarto de casal: 70 USD.

Não fiquei em Howraman, mas é possível. Visitei um hotel que pareceu ser bom, chamado Hawraman Hotel. Infelizmente o site indicado no cartão de visitas dele não funciona e as informações estão em farsi. Se você quiser ficar lá, vai precisar ir na sorte.

O cartão do hotel

Hawraman Hotel por dentro

Uma ótima opção de base para visitar Howraman é Marivan, muito mais perto da vila do que a capital Sanandaj. Existem hoteis que pareceram bons por lá, alguns em frente ao lindo lago da cidade. Marivan fica a 630 km de Teerã, a 130 km de Sanadaj e tem posto de travessia para o Iraque. É um ótimo ponto de passagem para quem quiser conhecer o Curdistão iraquiano.

Pedacinho de Marivan

O lago Zarivar, em Marivan

 

Onde ir

Não há muito o que fazer em Howraman, além de caminhar, fotografar e interagir com as pessoas.

Em Marivan, você pode fazer um passeio pelas margens do lago.

 

Melhor época para ir

Estive lá bem no fim de outubro, quase metade do outono. Foi frio pela manhã, mas o sol esquentou legal à tarde. Fique ligado no inverno: a neve cai sem dó sobre a região e pode até impedir sua viagem.

 

Como se locomover

Dentro de Howraman, a pé.

 

Onde comer

Não comi em Howraman, mas acho que dá para fazer lanchinhos nos mercadinhos da vila. Almocei em Marivan, num restaurantezinho qualquer que cobrou 10 dólares por uma baita refeição para 3 pessoas.

 

Cuidado importantíssimo

A região é militarmente sensível e vigiada por todos os lados. Tome muito, muito, muito cuidado ao fotografar. Soldados não gostam de câmeras e podem causar alguma dor de cabeça, como já aconteceu com muitos viajantes. Se você optar por passear pela parte da estrada 15 de onde se vê o Iraque, nem pense em fotografar alguma coisa.

De resto, aproveite.

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    15 Comentários
  1. Eu sou do região. nasci em Pave(hawraman).Sou casado com brasileira e esto morando em Fortaleza. Muito feliz de ver historia do Gabriel Prehn Britto (author) e também reação dos amigos sobre Curdistão e povo Curdo. Um povo que no meio de um região extra complexo(oriente médio) tentando criar um estado democrático e laico e viver em Paz com outros povos como sempre viveram. Queria agradecer tudo mundo e para qualquer ajuda ou informação esto disposto. Minha família ainda mora la, em pava (hawraman) e Kermanshah. com certeza sera um viagem inesquecível.

    • Caramba, Jahan! Você é de Paveh! Que presença ilustríssima neste blog! Obrigado pelo elogio e pela presença! Volte sempre!

  2. Bom dia.
    Seu post ta showww.
    Quero saber mais sobre Curdistão turco.
    Abraços!!!

  3. 1 2
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