O arquiteto iraniano Ali Akbar Esfahani era um sujeito determinado. Lá nos anos 1600, ele recebeu um trabalho gigantesco que precisou de 25 anos para ser concluído. Durante grande parte deste tempo, Ali enfrentou o ódio do seu cliente, que exigia mudanças no projeto para que a obra ficasse pronta logo e chegou até a pedir que as paredes fossem construídas antes mesmo das fundações estarem terminadas.

O cliente era ninguém menos que o xá Abbas I, da Pérsia, o monarca responsável pela construção das maiores maravilhas arquitetônias do Irã, mas também um tirano sanguinolento que matou e cegou seus próprios filhos, irmãos e pai para não ser ameaçado no trono.

Mesmo com um patrão de currículo tão assustador, Ali fincou pé, disse que não mudaria nada e não mudou. Sua obra, a Mesquita do Imã, em Esfahan, não ficou totalmente pronta antes do governante morrer, mas o resultado já mostrava que seria bom e Ali (que chegou a sumir por um tempo, para não ser executado), acabou recebendo o perdão real pela teimosia.

Hoje Ali Akbar Esfahani tem uma estátua na cidade. E nós temos a Mesquita do Imã para admirar.

Ali Akbar Esfahani

A arquitetura persa islâmica é conhecida por ser monumental e absurdamente ornamentada, com desenhos rebuscados em cada mínimo cantinho. Isso dá a impressão dela ser complicada ao extremo, mas dizem que não é bem assim.

Os ornamentos – que sempre são florais, geométricos ou caligráficos, com milhares de repetições dos nomes de Alá, Maomé e também do profeta xiita Ali – fazem tudo parecer complicado, mas as plantas baixas de prédios persas legítimos costumam ter apenas alguns elementos básicos: um pórtico de entrada, várias arcadas e quatro pórticos menores que ligam o interior a um onipresente pátio interno.

Nas mesquitas isso não muda muito. Basicamente, o pórtico de entrada fica muito maior, são adicionados minaretes (as torres que você encontra em todas as cidades muçulmana) e os quatro pórticos internos ligam o pátio a quatro santuários onde os fiéis rezam, tudo devidamente voltado para Meca, na Arábia Saudita.

Planta da Mesquita do Imã, por Pascal Coste (domínio público)

Muitos consideram a Mesquita do Imã a maior obra-prima desta arquitetura, tanto pela técnica que exigiu muito tempo de construção e quase custou a vida do pobre Ali Akbar Esfahani, quanto pela decoração interna e pelo sentimento que ela gera em quem está lá dentro, seja rezando ou apenas caminhando pelo seu pátio gigantesco.

Hoje ela faz parte da lista de Patrimônios da Unesco e até já li um livro de viagem que diz que a Mesquita do Imã “ganha de longe da Basílica de São Pedro, no Vaticano”.

Na opinião de uma fiel muçulmana, em um vídeo que encontrei pesquisando para este post, ela é “um lugar silencioso e cheio de paz. Você sente que milhares de pessoas rezaram aqui antes de você, disseram as mesmas preces, sentaram sobre as mesmas pedras, falaram para o mesmo deus. Você sente a conexão com elas. A mesquita do Imã dá unidade e eternidade. Você se sente conectado com o futuro e com o passado”.

Pátio central sendo coberto para a Ashura, a cerimônia de luto pela morte do imã Hussein

Detalhe da cúpula sendo restaurada

Por trás das fontes da praça

Mas a Mesquita do Imã não é a única na Praça Naqsh-e Jahan, a região mais turística de Esfahan. Logo ao lado dela, dominando uma das laterais da linda praça retangular, está a Mesquita Sheikh Lotfollah, muito menor, mas mais curiosa: ao contrário do normal em mesquitas, ela não tem um pátio interno, nem minaretes, o que fez o pessoal entendido no assunto desconfiar que ela não era uma mesquita pública, mas apenas para uso do harém do xá Abbas I.

A Sheikh Lotfollah, cujo nome vem do sogro do xá, um libanês respeitado pelos seus conhecimentos do Alcorão, foi construída antes e em bem menos tempo do que a Mesquita do Imã, mas isso não significa que ela seja menos interessante. Para mim, foi ao contrário. Hoje, ela é a mesquita mais linda que eu já vi nessa minha curta vida de viajante.

Mesquita Sheikh Lotfollah, Esfahan – Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

Foto: Marcia Steyer (Todos os direitos reservados)

Sheikh Lotfollah e Mesquita do Imã são os melhores exemplos de algo que também pode ser encontrado em muitas mesquitas que visitei no país e que já foi dito pela muçulmana citada ali em cima: silêncio e paz.

Pelo fato do Irã receber tão poucos turistas, você passeia praticamente sozinho por aqueles lugares, olhando para todos aqueles desenhos maravilhosos que cercam você e se sentindo minúsculo diante da imensidão daquelas paredes e daquelas cúpulas. É um convite para se sentar num cantinho e ficar ali por horas, ouvindo os ecos (são 49 numa única sala da Mesquita do Imã), acompanhando a mudança das cores das paredes à medida em que o sol se move, pensando na vida e em porque você demorou tanto para ir para aquele país.

Você pode até não sair delas convertido ao islamismo, mas vai sair mais iraniano do que nunca e agradecendo aos arquitetos e operários que arriscaram suas vidas (quando não deram mesmo) para fazer tudo aquilo.

 

Quando estiver de frente para o pórtico da Mesquita do Imã, não entre nela. Entre na porta que leva ao bazar, à esquerda, e procure a loja Flying Carpet, logo em seguida. Não precisa comprar nada, apenas pergunte pelo rapaz amigo de um dos porteiros da mesquita e veja se ele pode levar você até o topo de um dos minaretes da entrada. Ele me ofereceu essa maravilha e combinamos de ir no dia seguinte, mas acabei me atrasando e cheguei tarde, depois de terminar o turno do sujeito. Como era o meu último dia, fiquei sem essa experiência que deve ser indescritível.

Se conseguir, por favor, venha aqui me contar, ok?

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    10 Comentários
  1. Muito legal o post! Gosto muito conhecer um pouco mais da cultura e da história de outros lugares.

  2. Que coisas lindas de todos os ângulos! Aliás, AMEEEEEEI as perspectivas das fotos!

  3. Really wonderful architecture and unknown to all of us. How is it possible to build such wonderful building. Many thanks for sharing all this in your blog.

    • Thank you Sandro!
      Obrigado, Mari e Brenda! =)

  4. Caramba, que fotos lindas!
    Desde que comecei a acessar o blog (já faz um tempinho :)) fico cada vez com mais vontade de conhecer o Irã. Espetacular!

  5. Oi Gabriel ! Estava eu aqui lendo sobre sunitas e xiitas, lembrei de um post seu sobre isso e achei vários outros ótimos, valeu! Em uma semaninha devo entrar no Irã e conto se achei seu camarada do minarete hehehe abraço ! (Obs.: seu artigo sobre as caixinhas persas gerou comoção aqui na minha companheira de viagem, se eu tiver que pagar excesso de bagagem em algum voo vou te mandar a conta hahaha)

    • Hehehe! Você não vai pagar excesso de bagagem pelas caixinhas, não! Elas são levinhas. Só tome cuidado porque são frágeis! =) Boa viagem!

  6. Oi Gabriel ! Eu acabo de subir ! Foi uma aventura e valeu a pena ! Aliás, sou sua melhor amiga ! Me manda seu email para eu enviar-lhe as fotos e te contar os detalhes, inclusive o nome do seu contato, que pede que você escreva pra ele !!! Abçs. Olga.

  7. Oi Gabriel, adoro seu blog, e confesso que depois de acompanhar sua viagem ao Irã fiquei tão curiosa e maravilhada q decidi conhecer este país. Então na próxima terça estou viajando para conhecer esse mundo tão diferente mas muito belo, e estou muito animada. Obrigada mais uma vez! Sucesso.

  8. Gabriel, como é possível eu só agora ter descoberto o seu blog?! Parabéns, parabéns, parabéns, seu blog é incrível.
    Quanto ao Irã, vou lá 3 vezes por ano e sou verdadeiramente apaixonado pelo povo iraniano e pela cidade de Esfahan. Dê uma olhada numa crónica chamada Declaração de amor a Esfahan, acho que você vai gostar.
    Abraço de Portugal, e até breve.

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