Guias impressos que cobrem uma região inteira têm ao menos uma bela vantagem em relação aos guias que cobrem apenas um país: eles são uma baita chance do leitor descobrir novos lugares e aumentar a sua infindável lista de desejos viajantes.

Exatamente como está acontecendo comigo agora.

Mausoléu Momine Hatoon - Foto: Fuad2006 (CC BY 2.5)

Mausoléu Momine Hatoon – Foto: Fuad2006 (CC BY 2.5)

A edição do meu Lonely Planet sobre a Geórgia não é exclusiva. Ela também traz a Armênia e o Azerbaijão, que muitas vezes são visitados em conjunto. Então, de bobeira, inventei de ir além das páginas do meu próximo destino e acabei encontrando um lugar incrível.

Seu nome: República Autônoma de Naxçivan (com ç mesmo, no original).

Esse território estranho, cujo nome em português é indefinido (encontrei Naxcivan, Nakichevan e o maravilhosamente lusitano Naquichevão), é um pedaço do Azerbaijão totalmente não-conectado com o restante do país e 100% envolvido por Armênia, Irã e um pequeno pedaço da Turquia. É um exclave, portanto.

Localização de Nakichevan - Arte: Uwe Dedering, Don-kun - (CC BY-SA 3.0)

Localização de Nakichevan – Arte: Uwe Dedering, Don-kun – (CC BY-SA 3.0)

As lendas locais dizem que ele foi fundado por ninguém menos que Noé, o da Bíblia, cuja famosa arca teria encalhado no Monte Ararate, uma montanha que não fica em Nakichevan, mas na Turquia, junto da fronteira entre todos estes países acima. Aliás, segundo uma pá de estudiosos, a palavra “Nakichevan”, signifca algo como “o lugar da descida”, justamente uma referência ao ponto onde Noé terminou seus dias como capitão de navio.

Monte Ararate, Turquia - Foto: Самый древний (Domínio público)

Monte Ararate, Turquia – Foto Самый древний (Domínio público)

Já a versão laica da história de Nakichevan não deixa certo quando a região foi habitada pela primeira vez, mas diz que na antiguidade ela foi dominada por armênios, árabes, mongóis e persas, entre muitos outros. Ela inclusive foi uma capital importante do Império Persa e o local de origem de muitos armênios enviados (por vontade própria e à força) para a lindíssima Esfahan, no Irã, onde criaram uma vila que se tornou o atual bairro armênio local, o mais legal e moderno da cidade (escreverei sobre ele em breve).

Bandeira do Azerbaijão - Arte: SKopp and others (domínio público)

Bandeira do Azerbaijão – Arte: SKopp and others (domínio público)

O mapa atual de Nakichevan só começou a ser definido quando os russos apareceram pelas bandas. O território chegou a ser uma república independente por dois anos (a República de Aras), mas logo foi engolido pela União Soviética, que decidiu que tudo aquilo era Azerbaijão e ponto, mesmo separando o país ao colocar a Armênia no meio.

Em 1990, quando os soviéticos já estavam mais para lá do que para cá, Nakichevan fez algo histórico, mas que durou tão pouco tempo que nem foi registrado oficialmente: ele foi o primeiro território a declarar independência da URSS, semanas antes da Lituânia, hoje considerada a primeira a dizer “tchau” aos russos.

Bandeira da República Autônoma Socialista Soviética do Nakichevan - Arte: Aivazovsky e SiBr4 (domínio público)

Bandeira da República Autônoma Socialista Soviética do Nakichevan – Arte: Aivazovsky e SiBr4 (domínio público)

Os anos seguintes foram de guerras entre armênios e azerbaijanos, o que gerou um aversão local enorme aos vizinhos da Armênia. O climão pesado – que dura até hoje – é justamente o motivo de Nakichevan ser um destino difícil para o turismo, segundo o Lonely Planet.

As fronteiras com a Armênia são totalmente fechadas, deixando apenas três alternativas para quem quiser entrar ou sair de Nakichevan: por terra desde/para o Irã, por terra desde/para a Turquia ou por avião (existem linhas diretas com a capital do Azerbaijão e outras cidades).

Fronteiras Nakichevan

Para piorar, os oficiais de imigração e a polícia são muito desconfiados dos estrangeiros, acreditando que qualquer um possa ser um armênio querendo se infiltrar para desestabilizar o território. Ainda de acordo com o Lonely Planet, qualquer menção a intenção de visitar um monumento armênio (dos que sobraram lá dentro, porque o governo local é acusado de destruir todos os indícios da presença armênia na área) pode colocar o turista sob suspeita. Os oficiais também costumam interrogar os recém-chegados usando palavras no idioma vizinho, para ver se o sujeito entende e entrega sua origem. Indo mais longe, vasculham bagagem atrás de propaganda pró-Armênia e chegam a interrogar taxistas que levaram gringos pelas cidades.

Foto: Fuad2006 (CC BY 2.5)

Foto: Fuad2006 (CC BY 2.5)

A recompensa para quem decide enfrentar as barreiras geopolíticas e o mau humor e a desconfiança dos homens da lei de Nakichevan é um período junto de “um povo extravagantemente hospitaleiro” (palavras do Lonely Planet), no meio de paisagens lindas que incluem desertos e montanhas, conhecendo uma cultura exclusiva de hábitos diferentes do resto do Azerbaijão e com chance de ver monumentos antiquíssimos, incluindo um que os habitantes de Nakichevan juram ser a tumba de Noé (a última foto, lá embaixo).

Urek Meniashvili (CC BY-SA 4.0)

Urek Meniashvili (CC BY-SA 4.0)

Urek Meniashvili (CC BY-SA 4.0)

Urek Meniashvili (CC BY-SA 4.0)

Nakichevan visto da fronteira com o Irã - Foto: Adam Jones (CC BY-SA 2.0)

Nakichevan visto da fronteira com o Irã – Foto: Adam Jones (CC BY-SA 2.0)

Foto: Sefer azeri (domínio público)

Foto: Sefer azeri (domínio público)

Fotos: Grandmaster (domínio público) | Urek Meniashvili (CC BY-SA 4.0)

Fotos: Grandmaster (domínio público) | Urek Meniashvili (CC BY-SA 4.0)

A tal tumba de Noé - Foto: Самый древний (domínio público)

Foto: Самый древний (domínio público)

E o melhor: tudo isso com provavelmente nenhum outro turista ao redor.

Considerando que policiais de fronteira são chatos em 99% das vezes no mundo inteiro, eu acho que vale encarar os de Nakichevan.

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    11 Comentários
  1. Você sabe que eu sou fã de carteirinha do seu conteúdo sempre, mas ouso dizer que a sua seleção de fotos pros posts está cada vez mais escandalosamente sensacional também 🙂

    • Obrigado, Mari! =) Que bom ler isso, porque eu peno horrores procurando fotos que satisfaçam minhas exigências. Prefiro deixar um post quase sem nenhuma do que colocar só porcarias.

  2. Parabéns seu blog é sensacional! Muito bom desbravar esses destinos fora do trivial.

    http://www.destinofeliz.wordpress.com.br

  3. Não fazia ideia da existência deste país, muito curioso o nome, a cultura e tudo a seu respeito. Parabéns por compartilhar e por me deixar ainda mais curioso hehe.

    Depois desse post acabei passando um tempo no Google Maps e Earth para compreender melhor o Naxcivan.

    Valeu Gabriel.


    Gabriel Reynard
    Co-fundador do elaele
    http://www.elaele.com.br

    • De nada, Gabriel! Estamos aqui para isso! =)

  4. Muito bom como sempre!!!!!

  5. Se é Azeirbajao, precisa de visto. Como fez pra tirar?

  6. As vezes nós somos tão ignorantes não é? Pensamos que o mundo acaba em Europa, Estados Unidos e existem tantos lugares fascinantes como este, que eu não tinha a mera ideia da existência…
    Anne
    anneontheroad.blogspot.com

  7. Que confusão essa área. Andei lendo sobre Transnistria e Nagorno-Karabahk e ja estava maluco com essas disputas, agora mais essa.

    Incrível como somos alienados do que realmente acontece no mundo fora dos jornais 🙁

  8. recentemente fiz uma sensacional viagem ao pouco visitado lesta da Turquia , visitei com exclusividade as ruínas de Ani em Kars, O palacio de Ishak Pasha em Dogubayazit no território turco e no caminho para avistei muitas placas indicando o caminho para Nachivam (naquichevão em bom português lusitano) é uma região incrivelmente espetacular , acredito que dicas com as suas e um bom planejamento faz com que muitos possam viajar por aquelas bandas … parabéns e continua acompanhando as dicas.

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