O mundo nunca foi uma calmaria total, mas parece que ele anda mais tenso do que o normal, nos últimos tempos.

Na África Ocidental, o ebola se espalha e as previsões não são otimistas. Na Europa, a Rússia de Vladimir Putin faz ameaças à Ucrânia e a outros países das redondezas, criando um climão de Guerra Fria. No Oriente Médio, o ISIS avança, gerando tensão na região e até em lugares distantes.

Isso sem falar dos problemas de sempre, que se agravam de tempos em tempos, tipo Coreia do Norte, Israel-Irã e Israel-Palestina, além das gripes aviárias e suínas que volta e meia pipocam por aí.

Cecilia Espinoza (CC BY-NC-ND 2.0)

Cecilia Espinoza (CC BY-NC-ND 2.0)

Mas a vida segue e então vêm perguntas que importam muito para este blog (que afinal é sobre viagem): é possível se programar para viajar no meio de tantas incertezas? Como ir para lugares próximos a estas zonas problemáticas?

Eu estou vivendo isso agora. Minha viagem para a Jordânia e a Geórgia está engatilhada e eu estou apenas esperando para embarcar.

Para lembrar, a Jordânia é uma ilha de paz e segurança, mas faz fronteira com a Síria e o Iraque, justamente as duas nações com espaços dominados pelo ISIS. A Geórgia também vive em paz, mas não dá para esquecer que ela tem uma fronteira bem grande com a Rússia, tem histórico de ser invadida pelos russos e que Putin já esticou o olho para aquele lado.

Mapa Jordania

A Jordânia (em vermelho) e seus vizinhos

Geórgia e Rússia

A Geórgia e o seu grande vizinho invocado

Porém, a menos de duas semanas de entrar no avião, nem penso em desistir de qualquer um destes destinos. Desde que comprei minhas passagens, venho tomando uma série de cuidados para ter certeza de que tudo anda bem por aquelas bandas e também venho me preparando para quando estiver por lá.

Esses tais cuidados, que agora eu divido aqui com você, são bem fáceis e simples, e envolvem tanto a segurança quanto a parte financeira da viagem (para não tomar um preju caso seja necessário cancelar qualquer coisa).

Espero que eles ajudem na sua aventura e que ela não seja descartada pelos motivos errados. Afinal, de acordo com uma reportagem de 2003 da saudosa revista Caminhos da Terra, a humanidade teve paz total em míseros 292 anos dos últimos 5 milênios. Se formos esperar por um mundo sem guerras ou ameaças, nunca viajaremos.

 

antes da viagem

 

• Fique de olho no noticiário, tanto no brasileiro quanto no gringo, mas sempre com as ressalvas das duas próximas dicas abaixo.

 

• Nunca leia apenas as manchetes e os títulos das reportagens. Não esqueça que a tendência delas é fazer alarde e que o pouco espaço disponível impede que elas passem a mensagem completa.

Quer um exemplo prático? Em 31 de julho, o Estadão colocou em letras bem grandes esta notícia aqui:

Estadão

O que você compreende ao ler isso? Que é melhor cancelar suas férias em qualquer lugar da África, certo? Pois se você ler as linhas logo abaixo, vai ver que não é bem assim:

Estadão

Viu? Os EUA haviam recomendado que fossem evitadas viagens apenas à Libéria, à Guiné e a Serra Leoa, não para todo o continente africano.

E se você continuar lendo, no texto da reportagem vai encontrar a informação mais importante para a sua viagem a qualquer outro lugar da África:

Estadão

Por isso, repito: nunca leia apenas as manchetes e os títulos das reportagens.

 

• Use o noticiário apenas para ter uma ideia do cenário geral (“tem guerra na Síria”, “tem ebola na África”, “existe um conflito na Ucrânia”), mas nunca encare ele como a verdade sobre a rotina de toda a região e nunca tenha essas notícias como única fonte de informação.

As reportagens sobre estes problemas internacionais geralmente não têm a intenção de mostrar que tudo está em paz nos vizinhos ou em outras regiões do país afetado. O foco é mostrar apenas o problema, o que deixa uma margem enorme para você se assustar e começar a pensar bobagens.

 

• Em conjunto com as dicas acima vai uma outra bem importante: não dê ouvidos a alarmes de parentes ou amigos. Não é por mal, eles certamente estão preocupados com você, eles amam você. Mas muito provavelmente leram apenas as manchetes e títulos dos jornais ou usaram o notíciário como única fonte de informação. Caso algum deles diga algo muito sério e novo, faça o seguinte: peça para ele fornecer a fonte e vá checar você mesmo, seguindo as recomendações acima.

 

• Confira fóruns de viagem regularmente, para ver relatos recentes de viajantes que passaram pelos lugares aonde você pretende ir. Para mim, essa é a melhor forma de saber como está a situação em uma área tensa, já que é a informação de quem está ou esteve lá recentemente, vivendo quase as mesmas situações que você vai viver, sem a necessidade de ser alarmista para conseguir cliques (como os portais de notícias).

O Lonely Planet tem um fórum ótimo chamado Thorn Tree. É o que eu mais uso, mas você também pode checar os fóruns do TripAdvisor, do Virtual Tourist e também do CouchSurfing (mas para este é preciso fazer cadastro).

Foi num destes fóruns que eu descobri, por exemplo, que a Ucrânia está tranquila para o turismo, que os ucranianos estão tratando os poucos turistas como filhos queridos e que a única região afetada é o leste do país.

 

• Acompanhe blogs, colunas e twitters de jornalistas especializados na região aonde você está indo. Estes profissionais costumam ser ponderados, realistas e – o melhor de tudo – muitas vezes têm contatos lá dentro dos lugares, com informações fresquinhas. Eles são zilhões de vezes mais confiáveis do que as notícias dos mesmos jornais para os quais escrevem.

Alguns profissionais que eu recomendo:

Guga Chacra – Para informações sobre Oriente Médio e qualquer perrengue envolvendo os Estados Unidos.

Diogo Bercito. Para informações sobre Oriente Médio (principalmente Israel).

Sandro Fernandes. Para informações sobre Rússia ou qualquer país da ex-União Soviética.

(Se você tiver qualquer outra indicação, por favor, me avise. Obrigado.)

 

• Acompanhe blogs de pessoas que vivem nos países por onde você vai passar. Todo lugar tem um gringo escrevendo em inglês e, se bobear, todo lugar tem um brasileiro escrevendo em português.

O site Expat Blog é uma boa fonte de pesquisa neste tópico. Ele tem uma lista com muitos blogs de expatriados vivendo ao redor do mundo.

 

• No campo financeiro, procure comprar passagens aéreas com direito a reembolso. Assim você não perde uma fortuna se der um problemão e precisar cancelar a viagem em cima da hora.

 

• Procure fazer reservas em hotéis com direito a reembolso ou cancelamento sem multas. Melhor ainda: tente reservar hotéis que não cobrem nada antecipadamente e que permitam o cancelamento. É verdade que muitas tarifas ficam mais baixas se você escolher a opção “não reembolsável”, mas se a diferença não for muito grande, pode valer a pena para garantir um sono tranquilo.

 

• Anote os endereços e os telefones das embaixadas brasileiras em todos os países por onde você vai passar (na verdade, isso é uma recomendação para qualquer viagem). Em caso de emergência, é para elas que você tem que ligar primeiro.

 

• Dê uma olhada no Portal Consular, do nosso Ministério das Relações Exteriores. Mas se for fazer isso antes da viagem, faça apenas para ter uma orientação geral, porque órgãos governamentais costumam ser precavidos demais nestes assuntos. Já se algo grave acontecer durante a viagem, eles podem ser uma boa fonte de informação, em conjunto com o que for dito pela embaixada brasileira no local.

 

• Informe-se sobre a necessidade de vistos para países que fazem fronteira com os seus destinos. Se acontecer o pior, talvez você tenha que correr para um deles.

 

durante a viagem

 

• Basicamente, siga as orientações de segurança acima e acrescente a elas a leitura de jornais locais. Muitos países têm publicações em inglês, com foco nos gringos que vivem neles. Coloque no Google e descubra os dos seus destinos.

• Fique de olho nas movimentações nas ruas.

• Peça informações no seu hotel. Se algo sério acontecer na região onde você estiver, eles certamente darão orientações.

• Não chegue muito perto das fronteiras entre a área segura onde você estiver e a zona conturbada. Não dê chance ao azar.

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    16 Comentários
  1. Olá Gabriel;

    Depois de ter recebido uma mensagem com promoção para a Jordânia, consultei uma conhecida que esteve lá… Foi um verdadeiro balde de água gelada! Apesar de eu sonhar em conhecer o Oriente Médio, Oceania, Antártica, Sibéria e todo lugar onde ninguém se imagina ir, relutei em pegar a promoção, até que li seus relatos, que me demoveram da idéia de desistir.
    Bem, estou indo para lá no final de Maio…
    Queria saber se você poderia me dizer algumas coisas:
    – É fácil trocar dinheiro por lá? Precisa ser em Aqaba (minha porta de entrada) ou Amman somente? Casa de câmbio, banco, hotel?
    – Convém alugar um carro lá ou providenciar daqui (hertz)? O ideal é estar de carro mesmo?
    – Tenho lido relatos de que é possível tirar o visto na chegada. Você recomendaria essa opção?

    Parabéns pelos relatos e um abraço.

    • Oi, Renato! Que bom que você vai! =)

      Respostas:

      – É facílimo. Aqaba não é uma cidade pequeninha. Ela tem porto, resorts, hoteis, shoppings e um monte de coisas. Você vai achar casas de câmbio lá, acredito que facilmente. Dê uma conferida no Lonely Planet para saber endereços ou pesquise na internet.
      Ah, você não precisa trocar dinheiro só em Aqaba ou Amman. Você pode trocar em qualquer cidade onde haja uma casa de câmbio. Você vai encontrar isso, certamente, em Petra (Wadi Musa), em Madaba e em vários outros lugares.
      A troca pode ser feita em hoteis ou casas de câmbio. Não sei se os bancos trocam (não testei), mas acredito que sim.

      – Eu aluguei por e-mail. De uma empresa local de lá. Faça uma pesquisa de preços. Se você conseguir locar a partir do Brasil com preço menor, ótimo.

      – Eu fiz o visto na chegada, mas recomendo que você verifique com o consulado da Jordânia em São Paulo. Aliás, você leu este post? http://gabrielquerviajar.com.br/a-jordania-na-pratica/ Recomendo. 😉

      Abraço!

  2. Gabriel, ótimas dicas!

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