A lenda diz que os georgianos estavam celebrando a vida com música, comida e vinho (bebida inventada por eles) enquanto deus fazia a divisão do mundo entre os povos. A festa estava tão boa que eles perderam a hora e já não tinha mais nada liberado quando chegaram no escritório do divino para pedir o seu pedaço de terra.

Conformados com a situação, os georgianos voltaram para a gandaia e convidaram deus para ir junto. O criador topou (afinal já tinha encerrado o trabalho) e acabou vivendo momentos tão felizes com aquele pessoal que decidiu: a área que ele havia reservado para ele mesmo no planeta seria dada aos georgianos.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

A Geórgia é virada em montanhas. Oitenta e cinco por cento dela é feita pelo Cáucaso, uma cordilheira que tem no mínimo 20 picos acima dos 4 mil metros de altura, com nada menos que 13 deles fazendo parte do país.

Com tanta montanha alta e sabendo que gigantes de pedra garantem cenários lindíssimos em qualquer lugar do mundo, ninguém precisa ir até lá para compreender a origem da lenda acima.

Mas ver a paisagem georgiana com os próprios olhos durante 14 dias e 1700 km de estrada faz você compreender a origem, concordar e ainda ajudar a espalhar essa história.

United Nations Cartographic Section - domínio público

United Nations Cartographic Section – domínio público

Nesse terreninho que quase foi do todo-poderoso, a região de Svaneti é a área que mais parece ter sido criada por alguém extremamente inspirado.

Ali, junto da montanha mais alta do país e também daquela que é considerada a mais linda e a mais perigosa do Cáucaso, estão vales que parecem irreais de tão perfeitos, com lagos, cachoeiras e rios que descem puros e cristalinos dos topos nevados, com cores outonais que chegaram a me dar angústia, porque eu sabia que não conseguiria traduzir aquilo neste bloguinho e percebia que minha câmera não captava o que eu via.

Um cenário que me fez inverter o clichê comparativo das paisagens: Svaneti não parece uma pintura, as melhores pinturas é que se parecem com Svaneti.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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Monte Ushba, considerado o mais bonito e o mais perigoso do Cáucaso para montanhistas.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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Ainda nos arredores da fronteira do país com a Rússia está outro clássico montanhoso da Geórgia: a cidadezinha de Stepantsminda, nos quilômetros finais da famosa Rodovia Militar Georgiana.

O cenário é diferente, as cores não são tão incríveis, mas a beleza dos picos, das nuvens com formações esquisitas em cima deles, do luar iluminando a neve e do golpe sórdido, vil e cruel que é a igrejinha solitariamente acesa em frente ao monte Kazbek (a primeira foto do post) me obrigaram a dormir de cortina aberta para aproveitar um pouco mais daquela vista, caso eu acordasse no meio noite.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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E ainda existem muito mais montanhas, no norte, no sul, no centro, cada uma com seus vales, seus rios e suas paisagens. Até a capital Tbilisi entra nessa conta, com seus penhascos, morros e montes não tão altos quanto os de Svaneti, mas que ficam belíssimamente cobertos de neve nos períodos frios do ano, formando um horizonte maravilhoso para a cidade.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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Montanhas na região da fronteira com Turquia e Armênia

Montanhas na região da fronteira com Turquia e Armênia

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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Vacas, cabras, ovelhas e até porcos na estrada, uma constante por toda a Geórgia

Vacas, cabras, ovelhas e até porcos na estrada, uma constante por toda a Geórgia

Akhaltsikhe estrada

Seja pela lenda ou por qualquer outro motivo, os georgianos são bastante fiéis ao seu deus.

A Geórgia foi o segundo reino da história a se converter oficialmente ao catolicismo, lá no século 4º, quando ainda se chamava Ibéria e só tinha um pedaço do que é hoje.

Desde então, a região formada por vários reinos diferentes foi unificada, separada, invadida, dominada, destruída e reconstruída zilhões de vezes, por povos de todos os cantos, inclusive persas, árabes e turcos. Nenhum invasor, porém, foi capaz de impor sua religião nem de impedir os georgianos de praticarem o que parece ser o passatempo local favorito há 15 séculos: a construção de templos católicos ortodoxos.

A quantidade de igrejas e mosteiros espalhados nas cidades e perdidos pelo interior do país é gigantesca, muitos deles considerados Patrimônios da Humanidade e outros tantos colocados em pontos estrategicamente lindos demais, alguns inclusive escavados na pedra, com vistas que até fazem o sujeito pensar em virar monge, apenas para poder passar a vida bebendo vinho georgiano de frente para aquele visual.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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Além de construírem igrejas e mosteiros em todos os cantos e em cantos abençoados pela natureza, os georgianos praticam sua religião ostensivamente (o que não impede os taxistas de roubarem nas corridas de/para o aeroporto da capital) e é comum encontrar senhoras totalmente cobertas andando pelas ruas. Eles também acreditam que são descendentes de Noé e têm São Jorge como padroeiro do país, com direito a uma estátua enorme do santo no meio da Praça da Liberdade, a principal de Tbilisi.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Exatamente nesta praça e exatamente onde hoje um dragão passa os dias sendo atacado por um São Jorge enorme e douradíssimo, ficava a última estátua de Lênin no país, derrubada em 1990.

Naquela época, a Geórgia estava prestes a sair das garras de um invasor poderoso que ficou lá dentro por 70 anos: a Rússia e sua União Soviética, que ironicamente patrocinou o período de maior terror quando era comandada pelo georgiano mais famoso do mundo e também o 2º ditador mais assassino da história, Josef Stalin, nascido a míseros 80 km de Tbilisi.

Porta de uma antiga cela, na exposição sobre os 70 anos da dominação russa na Geórgia, em Tbilisi

Porta de uma antiga cela, na exposição sobre os 70 anos da dominação russa na Geórgia, em Tbilisi

O que veio logo em seguida à liberação dos soviéticos foi um período de caos geral, com violência, guerras civis, separatismo, máfias, sequestros, corrupção e outras porcarias, em um país completamente quebrado e sem infraestrutura básica como água e luz.

Hoje é difícil de acreditar que esse período difícil aconteceu há apenas vinte e poucos anos.

A região da Cidade Velha de Tbilisi está caindo aos pedaços, sim, (e essa decadência é justamente uma das partes mais bonitas da cidade) e impressiona a quantidade de prédios, casas e postos de gasolina abandonados pelo interior do país, tão numerosos quantos as vacas soltas nas estradas. Mas a impressão geral que eu tive por lá era a de estar uma nação bastante desenvolvida e em crescimento, moderna, com a cabeça aberta, com arte por todos os lados (além de parreirais), com muita segurança e infraestrutura de dar inveja a muitos lugares que conheço aqui no Brasil, habitada por um povo simpático, hospitaleiro, educado – exceto no trânsito, como sempre – e louco para se livrar do passado russo e olhar para a União Europeia.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Prédio caindo aos pedaços em Borjomi

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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tbilisi cidade velha 2

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

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Parecem maus, mas é só pose

tbilisi cidade velha fruteira

tbilisi cidade velha georgian bread

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tbilisi cidade velha parreiral

tbilisi cidade velha porta parreiral

tbilisi cidade velha rua carro quebrado

tbilisi cidade velha rua

tbilisi cidade velha uvas senhor

tbilisi detalhe casa parreiral

tbilisi escultura

Tbilisi estatua olhando

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A Praça da Liberdade à noite. No meio, o São Jorge

A Rússia, apelidada por lá de “o dragão no ombro”, ainda não conseguiu digerir esse namoro georgiano com o ocidente e Putin não esconde que pode colocar o pé na porta a qualquer momento, como já fez nos perrengues envolvendo Abecázia e Ossétia do Sul e vem fazendo com a Ucrânia.

A nós e principalmente aos georgianos, resta torcer para que este dragão também seja derrotado, igualzinho àquele do São Jorge. E que o festerê que conquistou deus lá no início dos tempos possa seguir com muito vinho e sem medos.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Escultura em Tbilisi

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    35 Comentários
  1. Só posso concluir uma coisa: nenhum povo é normal ao volante. Belas fotos e belo post, cara.

  2. parabéns Gabriel, muito bom!

  3. Grande Gabe

    Se superou, aquela imagem do pico cm neve e a nuvem fodassa

    Como foi tua comunicação? Tentou em inglês mesmo?
    Abraço!
    @GusBelli

    • Valeu, Gus!
      A comunicação foi fácil. Fui no inglês mesmo e deu tudo certíssimo. =)

  4. Puxa vida.

    Parabéns pelo blog. Conheci agora e achei o post e o país as coisas mais maravilhosas do mundo hehe.

    Abração.

  5. Incrivel o post Gabriel!!!!! Mais um destino exótico “descoberto” por sua causa…

    Por falar em lugar exótico, estou indo para a Tanzânia no final do mês! Bora?!?! rs

    Abraços

  6. Não é que as fotos conseguem ser tão boas quanto o texto? Como vc consegue isso? Lindo post, super interessante.

  7. Fotos maravilhosas!! Que post incrível!! Imagino que a viagem deve ter sido mais ainda! Parabéns!! Quero comprar uma passagem e ir pra lá agora!! hehehehhe
    To ansioso na espera do post “guia prático para Geórgia”… hehehe..
    Araços!

  8. Só uma palavra pra descrever a respiração em suspenso com esse post: UAU!!!!

  9. Post muito bem feito com muitas informações sobre esse pais do caucaso. Fiz uma viagem saindo de Floripa-londres- Baku(azerbaijão), depois fui de avião para Tbilisi e de onibus para Yerevan(capital da Armenia) Os 3 paises apresentam muita historia, muita antiguidade, belos monumentos…Vale a pena viajar pelo Causaco….Parabens pelas belas fotos….

  10. Nossa! Parabéns! Texto enriquecedor, me senti na Geórgia. Fotos belíssimas!! Estou conhecendo um georgiano faz alguns meses, e cada dia fico mais curiosa com a cultura, e por acaso cai aqui no seu blog. Adorei!! Espero um dia conhecer esse lugar lindo e cheio de história. Abraço!

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