Guarde bem este nome quando for ao Irã: Xá Abbas I.

Ninguém discute que Ciro foi o maior de todos os governantes persas e também o mais conhecido – pelo menos até Hollywood apresentar o nome e os músculos de Xerxes ao mundo, no filme 300. Mas Abbas I não fica muito atrás no ranking de líderes locais. Aliás, pelo que li, arrisco a dizer que ele fica bem próximo do topo, até.

Abbas I (Foto: Baronnet - CC BY-SA 3.0)

Abbas I (Foto: Baronnet – CC BY-SA 3.0)

Este descendente da dinastia safávida começou sua carreira de chefão aos míseros 4 anos de idade, quando foi nomeado governador de um estado, logo depois que seu pai foi obrigado a mudar de cidade por problemas de saúde. Como a tradição mandava que sempre tivesse algum parente do xá vivendo no lugar, baby Abbas I recebeu as honras e foi deixado para trás, aos cuidados de pessoas fiéis ao governo.

É óbvio que a presença daquela criança no estado era apenas simbólica e que ela não apitava coisa nenhuma, mas não demorou muito para que o pequeno começasse a mandar de verdade. E desta vez, num cargo bem maior.

Em 1588, ainda um moleque de 16 anos, ele foi nomeado nada menos que da Pérsia e, nas décadas seguintes, conquistou territórios novos (inclusive destruindo Tbilisi, na Geórgia) e expulsou invasores antigos, botando para correr até os nossos amigos portugueses, que dominavam ilhas do Golfo Pérsico.

Limites do Império Persa sob Abbas I

Limites do Império Persa sob Abbas I

No seu governo de mais de 40 anos, Abbas I também estimulou a produção de seda, cerâmica e outros produtos, construindo fábricas por todo o império. E para vender tudo isso e fortalecer a economia, fez acordos com países europeus e abriu mais estradas do que qualquer antecessor, colocando nelas 999 caravançarais – postos de proteção noturna e descanso para as caravanas de mercadores, localizados a cada 30 km, o equivalente a um dia de caminhada no lombo de um camelo.

Antigo caravanserai em Yazd (Foto: Gabriel Prehn Britto - CC BY-NC-ND 3.0)

Antigo caravanserai em Yazd (Foto: Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-ND 3.0)

Nas palavras do livro Todos os Homens do Xá, ele (que não é o xá do título) “organizou a vida do país como não acontecia desde a época de Ciro e Dario, dois mil anos antes” e deu um senso de união gigantesco ao povo persa.

Nas artes e na arquitetura, inclusive nos tradicionalíssimos tapetes, toda a dinastia safávida é reverenciada por ter estimulado as produções e trazido experts de fora para subir o sarrafo da qualidade. Mas Abbas I é considerado o maior nestes assuntos, por ter feito muito mais do que todos.

Mesquita Sheikh Lotfollah, Esfahan - Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

Hoje você vê referências a Abbas I em todos os cantos do Irã e o nome dele está em 18 páginas do Lonely Planet sobre o país. Mas nada do que ele fez foi maior e mais lindo do que as transformações na cidade de Esfahan, que o xá adotou como sua capital e decidiu que deveria ser fantástica.

Esfahan Expresso Persa Rota da Seda

Segundo um iranologista inglês, a cidade teve um planejamento raro no mundo islâmico, com a construção de boulevares lindíssimos, casas de banho, pontes maravilhosas (que hoje, tragicamente, estão sobre um rio seco), mesquitas que são consideradas as maiores joias da arquitetura islâmica no planeta (falei sobre elas aqui), palácios incríveis e um bazar onde o sujeito pode passar o dia inteiro caminhando, de tão cheio de coisas interessantes, tanto para comprar quanto para apenas olhar.

Além, é claro, da cereja do bolo, a indescritível praça Praça Naqsh-e Jahan (que todo gringo chama de Imam Square, bem mais fácil), o principal ponto de encontro da cidade, onde famílias e amigos se reúnem todos os dias, todas as horas, para descansar, se divertir e fazer piquenique. Um lugar para quem quiser ver o melhor do Irã, em todos os sentidos.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

Esfahan portão Imã

Mulher Esfahan Praça

Esfahan Praça

Esfahan Praça

Esfahan Praça

Esfahan Bazar Tapetes

Loja de tapetes Silk Road. Esses caras dão uma aula sobre tapetes para você

Esfahan monte temperos bazar

Esfahan palacio chehel sotun 2

Interior do palácio Chehel Sotoun

Esfahan palacio chehel sotun

Jardins do palácio Chehel Sotoun, tombados pela Unesco

Esfahan bazar vitrine mulher

Esfahan boulevard

Boulevar da avenida Chahar Bagh Abassi

Esfahan parque

Esfahan placa Corao 2

O Corão ensinando a não fazer bullying nas pessoas.

Esfahan placa Corao

Esfahan ponte arcos

Arcos das pontes de Esfahan: pontos de encontro de esfahanis

Esfahan ponte arcos músico

Esfahan ponte criancas

Crianças brincam onde antes havia um rio

Esfahan ponte

Caminhar pelo rio Zayandeh e ver as pontes deste ângulo é algo que não se podia fazer há algum tempo, antes dele secar

Esfahan ponte

Esfahan ponte

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

Tudo isso foi criado e executado por um exército de artesãos e arquitetos magníficos, grande parte estrangeiros “importados” à força, principalmente armênios, considerados os melhores na época.

Aliás, os armênios que se estabeleceram na cidade acabaram criando um bairro que hoje é um dos melhores lugares de Esfahan, moderno, bonito, aparentemente rico e lotado de lugarzinhos charmosinhos daqueles que não aparecem nos guias, com direito até a uma igreja católica de fazer muitas catedrais europeias parecerem sem graça.

Catedral Vank, no bairro armênio (Foto: Gabriel Prehn Britto - CC BY-NC-ND 3.0)

Catedral Vank, no bairro armênio (Foto: Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-ND 3.0)

Americanos infiéis adorados pelos perigosos iranianos, em uma loja no bairro armênio de Esfahan

Americanos infiéis adorados pelos perigosos iranianos, em uma loja no bairro armênio de Esfahan

Um dos cafés aconchegantes do bairro armênio

Um dos cafés aconchegantes do bairro armênio

O mesmo café

O mesmo café

Sorvete de açafrão com mel

Sorvete de açafrão com mel

É natural que o esplendor da cidade mais famosa do Irã atual não seja o mesmo de 400 anos atrás, quando ela não tinha infinitilhões de carros buzinando e entupindo seus boulevares nem 2 milhões de pessoas vivendo nas suas ruazinhas. Por isso é possível que você, como eu, precise de um tempo para gostar dela. Um tempo para conhecer seus charminhos com calma e conseguir encontrar o que atraiu tantos nobres e diplomatas do mundo inteiro naquela época, que gerou comparações com Roma e Atenas e que fez ela ter ganhar o apelido de “Metade do mundo”, repetido pelos esfahanis nos últimos 4 séculos.

Com essa calma, talvez você acabe mudando os planos e colocando um dia a mais para Esfahan na sua viagem, exatamente como eu fiz também.

Esfahan flores placa

Esfahan fontes praça

Esfahan Cafe

Casa de chá Azadegan (veja indicação abaixo)

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

Mais Chehel Sotoun

Hossein Fallahi, miniaturista iraniano, com exposições nas maiores e mais modernas cidades do mundo.

Hossein Fallahi, miniaturista iraniano, com exposições nas maiores e mais modernas cidades do mundo.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

Tiozinhos admirando a polaroid que fiz para eles

Irã - Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 4.0) Irã - Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 4.0)

Irã - Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 4.0)

Mesquita do Imã

Mesquita do Imã

Mesquita Sheikh Lotfollah | Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

A parte triste da história é que tudo que Abbas I tinha de inteligência e visão ele também tinha de insegurança, egoísmo e crueldade.

Por essas características, ele impediu a educação, matou ou cegou todos os seus filhos – os potenciais inimigos na disputa pelo trono – e acabou não deixando herdeiros preparados para continuar o legado da dinastia safávida, praticamente encerrando o último período dourado da história do Irã.

O nome Abbas I poderia ter entrado para a história sem essa.

 

esfahan na prática

Tentei responder o máximo possível sobre a cidade, neste post. Se você tiver alguma outra dúvida, escreva nos comentários e eu tentarei responder também. Mas, por favor, só coloque dúvidas sobre Esfahan. Dúvidas sobre o país ficarão para o post geral.

 

É Esfahan ou Isfahan?

Não sei. Já vi jornais brasileiros escrevendo das duas formas e acabei adotando Esfahan, porque é como você vai encontrar nas placas de lá, em inglês.

Aliás, em português de Portugal é Ispaão, segundo a Wikipédia. Infinitamente mais legal, como sempre, mas daí daria um nó até na minha cabeça.

 

Onde ficar

A quantidade de quartos disponíveis em hotéis é um grande problema de Esfahan. Eles são muito poucos, então é bem comum receber retorno de que o hotel está cheio. Isso significa que o mais seguro é reservar com antecedência, principalmente se você for na alta temporada (entre o meio de março e o final de agosto) ou em feriados nacionais.

Dito isso, eu não reservei nada, estava em média-baixa temporada e consegui vaga na segunda tentativa (o primeiro hotel estava lotado). Acabei ficando no Sheykh Bahaei Hotel, um lugar bem bom, com cara de executivo, bela localização e preço ótimo: o equivalente a 50 USD por um quarto duplo. Recomendo.

Em relação a melhor área para ficar, procure algo perto da avenida Chahar Bagh Abassi. Parando entre o rio Zayandeh e praça Imam Hossein, você vai estar perto da maior quantidade de atrações da cidade. Vai ter que pegar um táxi para visitar o bairro armênio, por exemplo, mas vai custar uma merreca, então não se prenda por isso.

Aliás, o bairro armênio é um ótimo lugar para ficar também, por ser mais moderno, só que daí você vai ter que pegar táxi para ir até as principais atrações da cidade. Ok, dá para caminhar, mas não vai ser pouquinha coisa, não.

Enfim, pese aí e decida.

Para terminar, parece que o melhor hotel da cidade é o Abassi, que se diz o hotel mais antigo do mundo (vá saber) e fica bem pertinho do Sheykh Bahaei.

 

Onde comer

Esfahan tem ótimos restaurantes, numa média acima das outras cidades (exceto Teerã, é claro). Lugares que experimentei e recomendo:

Arshia Traditional Restaurant. Um restaurante perto da Praça Naqsh-e Jahan, mas no lado externo dela. Ele está indicado no Lonely Planet Iran, com marcação no mapa. Aproveite para comer um beryani, uma delícia típica local que vai aliviar (um pouco) o seu paladar dos onipresentes kebabs.

Bastani Traditional Restaurant. Ótimo. Fica dentro do bazar e também tem opções que vão além dos kebabs. Aproveite, porque isso é raro.

– Um café lindinho no bairro armênio, em frente ao hotel Julfa, na Jolfa Street, bem pertinho da catedral Vank. Pergunte pelos sorvetes. Comi um de romã com limão e outro de açafrão com mel. Alá, Alá meu bom Alá!

Azadegan teahouse. Como o próprio nome diz, não é um restaurante: é uma casa de chá. E como chás pretos são basicamente iguais, eu recomendo que você vá lá apenas para ver a decoração do lugar, lotado de quinquilharias pelas paredes e teto (veja foto no post). Eu me perdi para encontrar a casa, porque ela fica escondida demais, mas anotei para você: na Praça Naqsh-e Jahan, na extremidade oposta à mesquita do Imã, entre no bazar e procure a Chah Haj Mirza Alley (foto da placa, abaixo, feita com um iPhone sujo). Então procure esta entrada:

Esfahan casa de xá Azadegan

Azadegan

A cidade também tem é famosa pelos seus doces e você vai ver dezenas de lojas especializadas neles. Pare em pelo menos uma e compre no mínimo uma caixa de gaz, o doce esfahani mais famoso do mundo. Ele é um nougat misturado com açafrão, pistaches e amêndoas. Eu trouxe 4 caixas para o Brasil, 3 eram para presentear. Acabei ficando com todas.

Também vale aproveitar para comer um faloodeh, um tipo de sorvete feito de água de rosas e suco de limão, que também pode ser misturado com outros sabores. Ele parece pequenos pedacinhos de macarrão branco e é original de Shiraz, mas fácil de ser encontrado na Praça Naqsh-e Jahan.

 

Onde ir

Além de todas as atrações listadas nos guias, não perca a chance de se enfiar pelo bazar e ficar perdido nele. Você vai encontrar maravilhas se não tiver preconceito ou receio bobo por estar no Irã. Fiz isso e descobri um hotel/restaurante fantástico além da mesquita mais antiga da cidade, cujo portão tem 1000 anos. Como em outras vezes, bastou ficar parado na porta, olhando para dentro, para ser convidado para entrar e subir no topo, para enxergar a cidade de cima. Se você fizer o mesmo, convém deixar uma gorjeta para a manutenção da mesquita.

Esfahan mesquita antiga bazar 1000

Outro passeio que você não pode deixar de fazer é caminhar à beira do leito seco do rio, entre uma ponte e outra. Apesar do cenário tristíssimo do rio seco por estupidez humana, você vai ver muitas famílias de esfahanis aproveitando os gramados e as árvores para fazer piqueniques, conversar e jogar qualquer coisa esportiva. Caminhe também por dentro do rio. É desolador, mas é bom para imaginar o que era aquilo cheio de água.

 

Melhor época para ir

Segundo os guias, nas mesmas épocas em que é melhor ir para o Irã: primavera e outono locais (abril-maio / setembro-outubro). Outras épocas podem ser muito quentes ou muito frias.

Porém, eu estive lá nos primeiros dias de novembro e foi ótimo.

 

Como chegar

Eu fui de carro, mas é certo que você pode ir de ônibus, de trem e de avião. Esfahan é a cidade mais turística do Irã. Todos os caminhos levam até ela.

 

Como se locomover

A cidade é grande, mas as principais atrações estão a uma distância caminhável da maior parte dos hoteis. Isso significa que vale se movimentar a pé mesmo.

Para lugares como o bairro armênio, pegue um táxi. É barato.

 

Internet

Normal para os padrões iranianos. Meu hotel tinha wi-fi e existem vários cafés onde você pode se conectar na rua.

 

Quanto custa

A média de gastos diários, para duas pessoas, ficou em 85 USD – incluíndo aí os 50 USD do hotel. Ou seja: 42,5 USD por pessoa.

Alguns preços, para duas pessoas:

Jantar/almoço – de 3 a 13 USD

Entrada em uma mesquita – 6 USD

Entrada na catedral armênia – 10 USD

Entrada em um palácio: 19 USD

Táxi – 3 USD

 

Onde trocar dinheiro

Caramba, não sei. Troquei bastante em Teerã e não precisei fazer isso em Esfahan. Mas duvido que você não encontre alguma casa de câmbio na avenida Chahar Bagh Abassi. Ou pergunte para o seu hotel.

 

Quantos dias fiquei

Quatro dias inteiros. O roteiro indicava 3, mas resolvi mudar e fiquei mais um. Foi bom, mas dá para ficar até dois a mais, porque Esfahan tem muita coisa bonita escondida.

 

Onde comprar tapetes

Não comprei tapete porque meu caixa não permitiu, mas se eu fosse comprar, iria direto na Silk Road, uma loja que fica no bazar (foto no post). Para chegar nela, pare em frente à mesquita do Imã e siga pela entrada à direita. A loja fica bem na esquina e os vendedores podem dar uma aula fantástica sobre tapetes, sem você nem comprar nada.

 

Onde comprar miniaturas

Na loja do queridíssimo senhor Hossein Falahi. Para saber mais sobre as miniaturas (a arte mais persa que existe), leia este post.

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    6 Comentários
  1. Muito bacana, lindas fotos.

  2. Por que não continua com o Planetóvski Rússia, são muito interessantes as suas postagens de lá, aliás todas!!!

  3. Confundi sub-regiões com repúblicas, foi mal

    • Mas são repúblicas mesmo. 😉

  4. Gabriel, seus posts são inspiradores! eu e meu noivo vamos para o Irã em 20 de Maio e a ansiedade só aumenta =DD Obrigada por nos inspirar ainda mais com suas fotos e histórias!

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