“No Facebook você vê as pingas que eu tomo, mas não vê os tombos que eu levo.”

Na mesma semana em que um amigo me escreveu a frase acima, o pessoal do 360 Meridianos fez um baita post falando sobre o mesmo assunto, mas enfocando a vida de viajante.

Na Geórgia, não esqueça: vulcanizadora é "vulkanizacia".

Na Geórgia, não esqueça: borracharia é “vulkanizacia”.

Nas certíssimas palavras da Natália Becattini, a autora do post, “o que as fotos daquele seu amigo que está há seis meses na estrada não mostram são os momentos nada glamorosos que ele enfrentou entre um clique e outro. (…) Raramente postamos fotos da nossa cara ao final de uma viagem de ônibus de 17 horas ou de quando sua mala é extraviada e você fica três dias usando a mesma roupa.”

Inspirado na frase que abre este post e nas palavras da Natália, selecionei algumas fotos minhas para contar o que aconteceu nos bastidores delas e que eu acabei não postando em Instagrams, Facebooks e Twitters por aí.

Ou seja: os tombos que eu levei por causa daquelas pingas.

Já aviso que não são histórias escabrosas, porque eu tenho tido sorte (e cuidado) nas minhas viagens e me livrado dessas coisas. Mas são histórias que mostram bem que nem tudo é glamour numa aventura.

Ah, claro: depois de ver minhas histórias, não deixe de ler o post inteiro do 360 Meridianos. É bom para aprender.

 

Nascer do sol em Angkor Wat

O clássico nascer do sol em Angkor Wat

Angkor ao nascer do sol é lindo. Mas como o próprio nome diz, é o nascer do sol. Para conseguir ver aquele espetáculo, você precisa estar lá quando tudo ainda está escuro. E como Siem Reap (a cidade onde as pessoas normalmente se hospedam) não fica na esquina do templo, você precisa levantar ainda mais cedo para conseguir chegar em Angkor antes do sol subir.

Tudo bem, é chato cair da cama quando ainda é noite, mas não é nada absurdo. Só que a chatice não para por aí.

Quando você chega em Angkor para curtir aquele momento mágico de interação entre natureza, história e religiosidade, você percebe o óbvio: você não está sozinho.

Ao seu redor estão sabe-se lá quantos turistas, alguns discretos e introspectivos, é verdade, mas a maioria falando alto, fazendo zoeira, gritando e acabando com toda a magia do lugar. E para piorar, no meio de toda essa galera estão zilhões de mosquitos fazendo um banquete naquele mundo de pernas e braços descobertos – inclusive os seus.

Desta vez, eu fiz um vídeo sobre o assunto. Os mosquitos não aparecem nele, mas acredite: eles estavam lá.

 

Panorâmica de Tbilisi

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Os bastidores desta foto até foram compartilhados, mas apenas no meu Facebook pessoal.

Fazia aproximadamente 3ºC em Tbilisi, a capital da Geórgia, mas o vento era forte e eu estava em cima de uma montanha, o que jogava a sensação térmica para bem abaixo disso. Como eu havia chegado no topo muito antes do pôr do sol e perderia a hora azul se descesse para voltar mais tarde, tive que encarar o frio, mesmo sem estar propriamente vestido para o perrengue. Para piorar, a fome já estava aparecendo quando cheguei lá em cima e estava enorme quando desci.

Cheguei no hotel num mau humor do cão e a foto nem ficou tão bonita. Existem muitas outras bem melhores por aí.

 

As dunas do Saara

Sim, são lindas. É uma das visões mais incríveis que você pode ter.

Erg Chebbi, as maiores dunas do Marrocos - Foto: Gabriel Prehn Britto

Mas para chegar nesse lugar, no meio da dunas mais altas do Marrocos, tive que encarar um dia e meio dentro de um táxi, 4 horas no lombo de um camelo (algo que minha bunda nunca mais quer fazer), um dia inteiro de tédio num hotel no meio do nada e a alegria de uma viagem noturna de 10h num ônibus cujos bancos não reclinavam.

Mas as dunas, elas são lindas.

 

Casinha de Svaneti

Eu não devia ter parado o carro para fazer esta foto, mas parei (ainda bem).

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Por que eu não devia ter parado? Porque eu não estava em um passeio calmo e tranquilo pelas bucólicas montanhas do Cáucaso georgiano. Eu estava indo da pequena vila de Mestia para a maior cidade da região, Zugdidi, a apenas 130 km de distância, em um carro com todos os pneus cheios, mas um deles furado.

O furo havia sido descoberto na noite anterior e eu havia trocado o pneu. Mas na manhã da viagem, quando fui até o único borracheiro da cidade, fui avisado de que o sujeito estava com o braço quebrado e não poderia me atender.

As alternativas para descer a estrada montanhosa, cheia de curvas, beirando penhascos e com trechos muito ruins eram:

– Usar o estepe do Picanto, que mais parece um pneu de bicicleta e não me passou confiança para encarar uma estrada, muito menos aquela estrada;

– Encher o pneu furado e ir com ele mesmo. Pelos meus cálculos, ele tinha levado algumas horas para esvaziar, então eu teria tempo para chegar a Zugdidi antes que o bicho murchasse completamente de novo.

Escolhi a segunda opção e fui sem correr muito – até porque a estrada não permitia -, cuidando buracos como nunca e torcendo para que a minha teoria do esvaziamento lento estivesse correta. Se eu estivesse errado, ainda teria o estepe de bicicleta do Picanto, mas teria que fazer a troca numa estrada estreita e sem acostamento e teria que seguir viagem naquele pneuzinho fino.

Cheguei em Zugdidi aproximadamente 2h30 depois de sair de Mestia. Tinha vontade de subir tudo de novo, para fotografar mais, mas não dava. Segui adiante.

 

Mulheres bandari da ilha Qeshm

Esta é a foto que eu mais gostei, entre todas desta ilha iraniana. Apesar de tudo, acho que ficou bonita e sei que não é fácil conseguir que essas mulheres aceitem ser fotografadas.

Você vê o sorriso? Eu vejo, pelos olhos.

A experiência na ilha lá foi ótima, completamente diferente de tudo no país. Ela tem praias e mar (claro, é uma ilha), tem refeições com peixe ao invés de kebab, tem cultura e hábitos que só existem naquela região.

Mas a verdade é que praticamente todos os meus 3 dias nela foram lotados de roubadas. Alguns exemplos:

– Para ir e voltar, peguei lanchas tão lotadas que matariam todo mundo se acontecesse algo naqueles 60 minutos de travessia para cada lado.

– Na chegada, não encontrei o hotel que havia reservado e parei em um muquifo caro, num quarto sem lençol nem toalha e com apenas com privada turca – justamente onde tive, digamos, uma “prisão de ventre ao contrário”.

– Para me movimentar pela ilha (que é enorme e tem distâncias longas), tive que contratar um taxista que não falava um pingo de inglês, dirigia feito um louco e quase dormiu numa ocasião na estrada. Foram 3 dias fazendo mímicas e lendo dicionário de farsi para toda e qualquer orientação, o que também gerou algumas roubadas por mal entendimento de ambas as partes.

– Estava quente como a garagem subterrânea do inferno e não havia ar-condicionado que desse conta.

– Na volta da ilha, tive que dormir em um hoteleco ainda mais fuleiro, com uma cama dura feito pedra e uma janela virada para uma avenida movimentadíssima. Na verdade, “dormir” é modo de dizer, porque eu definitivamente não consegui fazer isso. Mas pelo menos esse hotel me cobrou apenas 12 dólares por um quarto para duas pessoas.

Mesmo assim, adorei todas fotos, principalmente esta.

 

Montanhas do Curdistão/Kermanshah

Montanhas curdas

Não é uma das minhas fotos favoritas, mas acho que ficou decente. Ela foi feita em algum lugar entre o Curdistão e Kermanshah, duas províncias do Irã.

Lembra que eu estava num carro alugado no país, dirigindo por conta própria? Pois é.

Sanandaj, a capital do Curdistão iraniano, estava a apenas 175 km de distância de Hamadã e era ligada por uma autoestrada fácil e simples de ser percorrida. Mas me enchi de confiança (ou arrogância?) e resolvi fazer um caminho alternativo, para poder visitar uma vila nas montanhas da região.

Percebi que havia me dado miseravelmente mal quando o GPS me mandou dobrar em uma estrada que simplesmente não existia e eu tive que entrar em uma cidade minúscula para procurar alternativas.

Depois de várias voltas pelas ruas principais, encontrei uma indicação meio apagada e segui por ela. Acabei perdido em estradas de cascalho isoladas que ligavam vilarejos, com placas apenas em farsi e bifurcações sem nenhuma dica sobre qual lado eu deveria pegar. Tudo isso numa região famosa por ser tensa (fronteira com o Iraque), sob um frio enorme e com nuvens pesadas escurecendo o ambiente e anunciando muita chuva. Só me livrei de precisar pedir abrigo à noite em um dos vilarejos porque dois solitários motoristas por quem passei pararam para me indicar os caminhos – sempre na base da mímica, já que nenhum deles falava inglês.

A tensão foi tanta que passei um tempão naquele dia sem fazer nenhuma foto, apesar das paisagens lindas.

Ah, sim: entre o café da manhã e o jantar, a única refeição foi um pacote de pistache, amendoim, uvas passas e outros coisas do gênero misturadas, comprado em Teerã.

Acabei chegando em Sanandaj sem conseguir passar pela vila que queria. Mas nem reclamei muito.

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    31 Comentários
  1. O pessoal vem cultivando em massa essa cultura glamourosa das viagens, mas a maioria não tá nem um pouca atenta para esses perrengues. Muito bom o post. Agora você deve dar umas boas gargalhadas quando lembra. rs

  2. Gabriel, adorei os relatos. E me senti bastante a vontade para compartilhar um dos perrengues que passei na minha última viagem. Fui para o Peru via Acre e peguei uma greve de mineradores na estrada pelo lado peruano o que atrasou em 2 dias a viagem.Todo dia diziam que a greve acabaria no dia seguinte. Acabei tendo que retornar ao Brasil e seguir via Bolívia. Quando finalmente cheguei a Cuzco, depois de 1 dia de viagem com direito a pernoite no aeroporto de La Paz, as fotos ficaram incríveis apesar do cansaço.

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