Não me orgulho de dizer isso, mas eu conheço muito pouco da América do Sul. Para ser exato, só visitei 4 países do nosso continente – excluindo o Brasil.

Aliás, também conheço pouco do próprio Brasil. Só visitei míseros 8 estados nossos e o Distrito Federal, desde que me considero gente.

Gnomos: 500 anos de idade e ainda viajando | Foto: Samantha Kulpinski (CC BY-ND 2.0)

Gnomos: 500 anos de idade e ainda viajando | Foto: Samantha Kulpinski (CC BY-ND 2.0)

Um pensamento comum entre viajantes é o de que devemos conhecer melhor a nossa própria cultura e os nossos povos antes de sair por aí descobrindo o mundo. Eu gosto disso. Imagino que seja maravilhoso viajar pelo planeta com uma bagagem tão especial, podendo identificar conexões culturais, históricas, religiosas e até físicas com as suas raízes. Justamente por isso me incomodava bastante o fato de eu já ter conhecido mais países distantes do que nações sul-americanas e estados brasileiros.

Mas isso já não me incomoda tanto. Explico por quê.

Minha última viagem foi parcialmente dividida com a companhia do meu pai e da minha mãe. Eles estão com 75 e 62 anos, respectivamente, não são nada sedentários e tenho certeza de que, se deixarem as besteiras de lado e tomarem os cuidados necessários, vão ter muito caminho pela frente, com saúde mental e física.

Mesmo assim, seria bobagem negar a realidade: eles não aguentam mais viagens como aguentavam na nossa última aventura juntos, em 2001.

Não vou entrar em detalhes porque isso não é blog de geriatria, mas os problemas físicos de ambos adiaram a viagem em 6 meses, deram um susto em cima da hora, exigiram que quebrássemos os voos em partes (para não fazermos uma distância tão longa numa tacada só) e, se não atrapalharam nada durante nossos dias jordanianos, voltaram no finalzinho, mostrando que aquelas 3 semanas haviam levado ambos ao limite do esforço.

Enquanto eu via tudo isso acontecer, me lembrei do meu avô, um baita viajante que me inspira horrores, mas que há anos não tem condições de ir além do litoral gaúcho. Lembrei também de um tio que queria ir para Portugal, mas, para isso, achava que teria que pegar um voo para Recife, parar por um dia na capital pernambucana e só depois pegar outro para Lisboa, porque não se sentia fisicamente capaz de enfrentar uma dezena de horas direto num avião. E ainda ouvi minha mãe respondendo “Teu pai não aguenta ir até a China” quando sugeri que eles fizessem a Transiberiana com um tour superconfortável que eu havia conhecido pouco tempo antes.

Então, no meu pragmatismo semipermanente, me dei conta: é fantástico que a gente viaje pelo nosso país antes de sair pelo mundo, mas o mais lógico para quem tem vontade de conhecer o planeta inteiro é ir o mais longe possível enquanto for jovem, forte, saudável e apto a encarar qualquer falta de conforto, seja ela pela aventura, seja pela falta de grana.

Os lugares mais próximos de casa devem ficar para quando a idade chutar a porta e eu não conseguir passar mais de 4 horas numa poltrona de classe econômica, não tiver mais paciência para dormitório em albergue, nem coluna, músculos, ossos e juntas para encarar busão pinga-pinga, nem saúde para aguentar dias comendo porcarias gordas, açucaradas e oleosas, nem tantos outros exemplos de perrengues típicos de viagens normais.

Primeiro mundo, depois América e Brasil

É triste escrever isso, mas encaro apenas como mais uma verdade inconveniente da vida.

Todos nós queremos ficar velhotes com dinheiro e saúde – e as estatísticas até indicam boas novas nisso. Mas a realidade que eu vejo ao meu redor é que pouca gente envelhece com qualidade física e mental para aguentar viagens longas. E entre esse pequeno pessoal sortudo, poucos envelhecem com dinheiro para bancar essas aventuras com as exigências de saúde e conforto exemplificadas acima, que aumentam e ficam mais caras à medida em que você desce o cursor nos formulários online para indicar o ano em que nasceu. Você já viu quanto custa um seguro-saúde para viajantes com mais de 7 décadas? Pois é. E ainda tem seguradora que nem oferece isso. Passou dos 70, eles mandam você procurar outra.

Ué? Não tem seguro para passageiro com mais de 70?

Pode ser que eu esteja errado nesta teoria (isso não seria uma novidade).

Pode ser, também, que eu morra antes de ficar velho, sem conhecer direito o meu país e o meu continente.

E pode ser, ainda, que eu envelheça forte, lúcido e rico como um Clint Eastwood.

Tudo bem. Errar nas escolhas também faz parte da vida. Na dúvida, prefiro seguir o que acho o mais lógico.

Não vou deixar de visitar lugares extremamente desejados e que estejam próximos, porque realizar sonhos é fundamental. Mas naquela longa lista de viagens que geram suspiros, aquela que precisa ser miseravelmente cortada a cada oportunidade de sair por aí, os destinos mais distantes ganharam prioridade.

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    44 Comentários
  1. Não consigo concordar. Fazer a trilha inca em Machu Picchu, conhecer as maravilhas da Chapada Diamantina, acampar no deserto de Atacama ou caminhar no Parque das Cataratas em Foz do Iguaçu é coisa para se fazer depois dos 70 anos, então??

    • Pedro, você não precisa concordar. Faça como você achar melhor. 😉
      Abraço!

  2. Amei seu texto!
    Concordo plenamente e faço exatamente isso. Mesmo conhecendo quase todo o Brasil, estou indo pras viagens que exigem mais disposição, pois penso que quando ficar mais velha, a coisa vai ficar mais difícil. Parabéns pelo blog!

  3. Eu comecei por perto por falta de dinheiro mesmo. Eu economizava meses do ano para acampar na Ilha Grande e a grande viagem do ano era uau! pro Nordeste! Só comecei a viajar mais há uns 5 anos, depois dos 30. Eu acho que mais um fator a levar em consideração é que gente mais velha vai ficando menos aventureira também. Eu estou ficando pelo menos! rs Tenho medo de mais coisas do que tinha antes! Ficam passando mais histórias de terror na minha cabeça (do tipo, e se eu pegar uma doença misteriosa ou passar mal fora do brasil?) e até o medo de avião, que sempre existiu, está ficando maior apesar das viagens mais ou menos frequentes!! Mas a vontade de viajar ainda está maior do que as paranóias!

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