Depois de algumas horas na estrada, olhei para trás e vi as montanhas do Cáucaso lá longe no horizonte.

Eu havia acordado no meio delas, naquele dia, e como a viagem pela Geórgia não estava nem na metade e ainda tinha muito para ser visto no país, engoli a vontade de ficar mais tempo na região e segui em frente, me achando um desbravador forte e determinado.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Mas quando enxerguei os topos nevados naquela distância e atrás de mim, me dei conta de que realmente tinha ido embora e que não havia mais volta. Então a tristeza bateu forte.

A lindíssima Svaneti, a área do Caucaso grudada na Abecásia, tinha me conquistado de verdade.

(Gaga-vaa - CC BY-SA 3.0)

(Gaga-vaa – CC BY-SA 3.0)

Existem algumas regiões tidas como imperdíveis nas partes mais elevadas do Cáucaso georgiano. Svaneti é uma delas e talvez seja a melhor de todas, obviamente pelo gigantismo das suas montanhas (a mais alta do país está lá) e pelo desbunde da vegetação, mas também pelo isolamento, pela autenticidade cultural milenar e por suas histórias incríveis.

Svaneti Avião

Svaneti Arvores

Svaneti riozinho

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

A característica mais visível da autenticidade cultural e das histórias são as torres medievais que pipocam na paisagem local e que são o símbolo de Svaneti.

Em tempos de paz, essas belezinhas – das quais aproximadamente 200 foram construídas entre os séculos 9 e 13 – eram usadas para estocagem de alimento e proteção de animais das famílias locais.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Svaneti Vila 2

Svaneti Vila

Svaneti Torres

Svaneti Mestia

Svaneti Mestia 2

Svaneti Torre_1

Svaneti Torre Porta

Svaneti Torre Dentro

Já em tempos de guerra, elas se transformavam em algo fundamental em uma nação que passou a vida sendo atacada por povos poderosos vindos de todos os lados: pequenas fortalezas familiares.

A proteção, junto com o isolamento no meio das montanhas, sempre funcionou tão bem que Svaneti serviu muitas vezes como a caixa-forte de toda a Geórgia, recebendo e guardando as maiores relíquias históricas e religiosas do povo georgiano nos momentos em que as coisas ficavam feias nas partes mais acessíveis aos invasores.

Junto com os tesouros nacionais, Svaneti salvou e manteve sua cultura, arte, arquitetura, culinária, casas e ruas medievais. Salvou até sua língua própria, incompreensível para muitos georgianos e usada pelos svans para dizerem, orgulhosíssimos, que nunca foram conquistados por ninguém.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Igreja da Virgem Maria, construída no século 12

As minúsculas vilas que formam Svaneti não chegam ao número de torres-fortalezas que você vê pelo caminho, mas são muitas também, sempre com seus nomes estranhos, algumas praticamente grudadas umas nas outras, algumas isoladas em vales entre montanhas.

As duas principais são Méstia (onde quase todos os visitantes ficam) e Ushguli, a joia da coroa, Patrimônio Mundial da Unesco desde 1996 e vendida pelos georgianos como “a cidade continuamente habitada mais alta da Europa” – título requisitado também por Juf, na Suíça.

Pedacinho de Mestia (Foto: deguonis - CC BY 2.0)

Pedacinho de Mestia (Foto: deguonis – CC BY 2.0)

Svaneti Ushguli

A vila mais alta de Ushguli. Ao fundo, a montanha mais alta da Geórgia (5068m)

Na verdade, Mestia nem pode ser chamada de “minúscula vila”. A quase-capital da área, com seus 2800 habitantes, várias pousadas, um hotelão, prédios modernosos, ruas pavimentadas e até um pequeno aeroporto com voos relativamente frequentes para Tbilisi (ainda que dependa de tempo perfeito para funcionar) está mais para cidadezinha mesmo.

Foi dela que eu lembrei quando olhei para o Cáucaso atrás de mim, já longe na estrada. Apesar de estar nitidamente caminhando para se tornar uma cidade comum, por causa do “progresso” trazido pelo turismo, Mestia ainda está num bom ponto de equilíbrio entre manter seu ar original e incorporar modernidades. E mesmo que minha estadia tenha sido rápida e que eu tenha visto a cidade praticamente só à noite (por isso tenho poucas fotos), sonhei em passar uma longa temporada nela, visitando outras vilas e acompanhando a mudança das cores na paisagem ao longo do ano.

Vamos ver, quem sabe.

Mestia estrada placa

O crescimento parece também ser o destino das vilas que formam Ushguli, ainda que vá demorar muito mais tempo.

O asfalto está indo naquela direção, mas falta bastante e os próximos visitantes certamente vão precisar encarar a atual estradinha destruída e costeando penhascos – para a felicidade dos jipeiros de Mestia que vivem de levar turistas na viagem de 3h por míseros 47 km.

Quem conseguir chegar lá antes das máquinas vai ter uma sensação incrível: a de passear por vilas medievais de verdade, autênticas, onde as ruas tortas ainda têm chão de barro, com muros de pedras que pendem para todos os lados. Um ambiente que não precisaria de cenógrafos para fazer parte de Game of Thrones.

Svaneti Ruazinhas

Svaneti Pedras

Svaneti Torres e Telhado 2

Svaneti Ushguli 2

Svaneti Ushguli 5

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Igreja da Virgem Maria

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Svaneti Sinos

Os que chegarem logo podem ter a chance de tomar um vinho com estes dois sujeitos aí, segurando uma foto instantânea dada por mim. Eles são monges que cuidam da Igreja da Virgem Maria, construída no século 12, no morro mais alto da vila e em frente à montanha mais alta da Géorgia.

Svaneti Ushguli mosteiro monges

O vinho não foi dos melhores no sabor. Era caseiro e veio dentro de uma garrafa de água mineral. Mas o momento de confraternização inesperada com esses dois, naquele ambiente de quase mil anos e ainda original, certamente me ajudou a querer ficar mais tempo na região. E também me ajudou a ficar triste quando percebi que estava bem longe dela.

Dicas de Svaneti

Tentei responder o máximo possível sobre a região neste post. Se você tiver alguma outra dúvida, escreva nos comentários e eu tentarei responder também. Mas, por favor, só coloque dúvidas sobre Svaneti. As dúvidas sobre a Geórgia devem ser colocadas no post geral sobre o país.

 

Como chegar em Mestia

É fácil e você pode ir de carro, de táxi, em tours comprados nas cidades mais importantes do país, em vans públicas desde as maiores cidades próximas ou de avião desde Tbilisi.

– Carro. Você só precisa ir até a cidade de Zugdidi e, de lá, seguir as placas. Calcule no mínimo 3 horas para fazer o trajeto de 130 km, porque a estrada é lotada de curvas, tem trechos bem ruins (ainda que sempre asfaltados) e porque você vai querer parar enlouquecidamente para fazer fotos, já que a paisagem é espetacular. Se for direto de Tbilisi, calcule umas 5 horas para chegar em Zugdidi, no mínimo.

– Táxi. A princípio você pode ir de qualquer lugar do país para lá de táxi, desde que encontre um motorista que tope enfrentar a jornada. Mas o mais fácil, sem dúvida, vai ser arranjar um parceiro em Kutaisi ou – ainda melhor – em Zugdidi. Preços sempre mudam, você sabe, mas quando verifiquei a possibilidade, um táxi de Mestia para Kutaisi saía por aproximadamente 150 USD quando estive lá (OUT/2014). Acredito que custe o mesmo no sentido contrário. Peça informações no seu hotel, também. Eles vão ter alguém para indicar.

– Tour. São bem fáceis de se encontrar em qualquer grande cidade georgiana, inclusive em Tbilisi e mais ainda em Zugdidi. Pergunte no seu hotel também, mas eu recomendo o Irakli Chumburidze, um cara legalzão, sócio da Friends From Georgia (friendsfromgeorgia@gmail.com) e dono de uma seleção maravilhosa de músicas lounge russas e ucranianas. Ele me levou de Mestia para Ushguli, mas faz vários tours pelo país.

– Vans públicas. São as famosas marshrutka que cruzam o país inteiro. Segundo o Lonely Planet, a viagem nelas de Zugdidi a Mestia leva 6 horas. Prepare-se para emoções fortes, porque essas coisinhas correm.

De avião. Veja o tópico “Como ir para Svaneti de avião”.

 

Como chegar em Ushguli

Você vai precisar de um veículo 4X4 com suspensão alta, já que a estrada é extremamente ruim. Se você alugar um carro assim e tiver taco para a tarefa, ótimo. Mas se você não tiver nem carro nem taco, o melhor é contratar um motorista local.

Para isso, eu recomendo o Irakli, citado acima (friendsfromgeorgia@gmail.com). Você também pode encontrar contatos dele com o pessoal do Villa Mestia Hotel (villamestia@gmail.com).

Minha viagem com o Irakli custou quase 120 USD, numa van Mitsubishi confortável, com capacidade para 7 pessoas (se não me engano). O preço não muda se você for sozinho ou com mais 6, então tente juntar uma galera. Mas confirme tudo isso com ele antes.

O 4X4 japonês, com volante do lado direito

Irakli e sua 4X4 japonesa, com direção do lado direito

Importante: prepare-se para acordar cedo no dia de visitar Ushguli. Como a viagem demora mais ou menos 3h (e são apenas 47 km), a saída de Mestia é por volta de 8h da manhã, com retorno dependendo da sua disposição – mas regulando com o fim da tarde. Lembrando que isso pode mudar nos meses com mais horas de sol.

Ah, quase todo mundo vai para Ushguli a partir de Mestia, já que a outra estrada (via Lentheki e começando em Kutaisi) consegue ser pior ainda. Mas se você quiser tentar fazer diferente, fique à vontade, só não me culpe por nada de errado.

 

Como ir para Svaneti de avião

É bem fácil comprar as passagens pela internet. O difícil (e chato) é ter que torcer para que o dia esteja perfeito tanto no aeroporto de saída quanto no de chegada.

No meu dia, por exemplo, o tempo não estava 100%, o avião não levantou voo e eu tive que mudar os planos às pressas.

Algumas companhias operam no trajeto apenas nos meses de verão na Geórgia (junho-agosto), inclusive com helicópteros, mas você vai ter que encontrar estes sozinho, já que eu não achei nenhum.

O que eu achei foi uma companhia que faz o trajeto em outras épocas do ano também. É a Vanilla Sky, que voa com um LET-410, um bimotor apontado pelo site The Richest como o mais perigoso do mundo.

A Vanilla Sky opera no minúsculo aeroporto Natakhtari, pertinho de Tbilisi, mas oferece uma van gratuita que sai da Praça Rustaveli (uma das mais famosas da capital) nos dias de voos.

Pesagem no pequeno aeroporto Natakhtari

Pesagem no pequeno aeroporto Natakhtari

Natakhtari por fora

Natakhtari por fora

Você pode fazer a sua reserva por e-mail e pagar lá na hora mesmo. O preço de cada trecho, por passageiro, era de quase 40 USD quando eu fui (OUT/2014).

Natakhtari passagem Mestia

Ir de avião até Mestia é uma opção excelente para quem tiver pouco tempo no país, já que a viagem que levaria um dia inteiro por terra leva pouco mais de 1h pelo ar – e você  ainda tem a chance de ver o Cáucaso de cima.

Os problemas (além do fato de ter que voar no possível avião mais perigoso do mundo) são:

– Os voos só saem se o tempo estiver perfeito em Natakhtari e em Mestia. Se um dos dois estiver com algum probleminha, a viagem é cancelada e você tem que se virar sozinho, porque a companhia aérea não vai fazer nada além de devolver o seu dinheiro.

– O limite de bagagem no voo é de 15 kg por pessoa e mais nada. Isso mesmo: E MAIS NADA. Não adianta chorar, gritar, espernear. Se você tiver mais peso na mala, vai ter que negociar com o seu hotel para guardar algumas coisas lá, se isso for possível no seu itinerário. As bagagens são pesadas uma a uma antes do voo e o pessoal não perdoa.

Veja pelo lado bom: se o avião é o mais inseguro, pelo menos o pessoal é cuidadoso e não decola com tempo ruim nem com peso extra.

 

Onde ficar em Méstia

Uma busca no Booking.com retorna com várias pousadas e pelo menos um hotelão em Mestia.

Eu fiquei no Villa Mestia, um hotel familiar, bem simples, mas com pessoal queridão e atencioso. Tive que atrasar minha chegada em um dia (por causa do voo cancelado), mas eles aceitaram sem questionar, quando poderiam simplesmente ter embolsado meu dinheiro. Paguei o equivalente a 115 USD por duas noites, num quarto de casal com banheiro privativo. Ficaria lá de novo.

Se você preferir um lugar com mais infraestrutura, aposte no hotel Tetnuldi, o maior/melhor da cidade. Não fiquei nele, mas fui jantar no restaurante de lá e consegui dar uma volta pelo estabelecimento. Me pareceu bom e a vista de alguns quartos (de frente para o centro de Mestia é linda. Aliás, certamente você vai precisar de um táxi para chegar até ele.

 

Onde ficar em Ushguli

Existem pousadas por lá, mas não espere nenhum luxo, porque tudo parece ser casa de família. Não peguei nenhum contato, mas você não deve ter problemas para conseguir informações e indicações em Mestia ou até mesmo quando chegar em Ushguli – se não for alta temporada (verão).

Ushguli Guesthouse

 

Onde Comer

Mestia:

– Restaurante Laila – Fica na praça central da cidade. Facinho de encontrar. É um lugar moderninho e bem legal. Em duas pessoas, foram gastos 17 USD.

– Restaurante do hotel Tetnuldi – Vale pela vista, mas não gostei da comida (o que pode ter sido apenas um azar na escolha de um prato local). O Lonely Planet diz que é o melhor da cidade. A conta deu 24 USD, para duas pessoas.

Ushguli:

– Almocei num restaurante minúsculo, perto do início da cidade. Esse aqui da foto.

Ushguli restaurante

Como a atendende não falava um pingo de inglês, pedi uma sopa de vegetais acompanhada de pão – a única coisa que consegui decifrar no cardápio georgiano. Estava boa e custou 7 USD para duas pessoas.

 

O que fazer

Nas duas cidades: caminhar pelas ruazinhas, mountain bike, montanhismo e trekking. Aliás, trekking é a melhor pedida para quem tiver mais tempo por lá. Dizem que dá para fazer caminhadas fantásticas, com durações variadas (dá para ir de Mesta a Ushguli a pé, por exemplo, o que deve ser maravilhoso).

Pergunte sobre isso para o Irakli, o guia que indiquei ali em cima: friendsfromgeorgia@gmail.com

Como alternativa, o Lonely Planet recomenda o Museu Etnográfico de Ushguli. Não consegui ver, estava fechado.

Ushguli Museu

 

Melhor época para ir

O verão é a alta temporada na região, que fica com clima mais agradável do que o resto do país. Mas prepare-se para lugares cheios neste período.

Eu fui no outono e passava o dia babando com as paisagens. Recomendo MUITO.

O inverno é de muita neve e impedimentos de deslocamento. Dizem que é legal para esquiar.

 

Quantos dias fiquei e quanto custou

Foram duas noites em Mestia, com uma daytrip para Ushguli. Incluindo hotel, tour e refeições, os gastos ficaram em 270 USD, no total, para duas pessoas.

 

Quantos dias eu ficaria se voltasse hoje

Eu adoraria passar bem mais tempo em Mestia, até mesmo para fazer trekkings e talvez dormir em Ushguli. Mas numa viagem normal, eu incluiria apenas mais um dia na cidade.

 

Internet

Normal. O seu hotel deve ter wi-fi e eu sei que o restaurante Laila também tem.

 

Tem onde trocar dinheiro?

Segundo o Lonely Planet, você pode trocar grana no Liberty Bank, que fica perto da praça central.

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    16 Comentários
  1. DESDE PEQUENO SOU FASCINADO PELA GEORGIA EUROPA SOVIETICA E ASIA CENTRAL

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