Eu sempre digo que o roteiro pode mudar durante uma viagem e que é melhor não se apegar totalmente a ele. Mas eu nunca havia vivido a situação de mudar o roteiro (e bastante) pouquíssimos dias antes de começar uma aventura.

Então veio pilar de Katskhi, na Geórgia.

Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-SA 2.0

Faltando menos de uma semana para embarcar, quando tudo já estava agendado (passagens aéreas internas e carro alugado), este lugar bizarro apareceu na minha frente, em um post de um jornal inglês.

“Por mil malas perdidas! Como eu não vi isso antes?”, pensei. E depois de verificar calmamente o guia, me respondi: eu não vi antes porque o pilar de Katskhi não está no Lonely Planet.

E se não estava no Lonely Planet, eu precisava ir até lá.

Katskhi é um monolito de mais ou menos 40 metros de altura, com vista para um belíssimo vale no centro da Geórgia. No topo dele vive um monge de aproximadamente 60 anos de idade, que tomou conta do pedaço em 1993. Mas ele não foi o primeiro lá em cima.

Segundo quem entende do riscado, a primeira igreja construída no alto do pilar foi levantada entre os séculos 6 e 8, por monges em busca de reclusão – igualzinho a Maxime Qavtaradze, o atual habitante do local.

Katskhi Vacas

Katskhi Topo Close

Katskhi Topo

Katskhi vista marcado

Em algum lugar do século 15, o monastério das alturas foi abandonado e ficou assim até 1944, quando um pessoal finalmente resolveu escalar a pedra para ver o que era aquilo.

Esse pessoal acabou encontrando o corpo do último monge-morador e que hoje está sepultado embaixo de uma capela – uma das novas estruturas construídas no topo, junto com a casa do Maxime, uma adega (porque ele é solitário mas não é besta) e alguns refúgios para eventuais monges visitantes. Monges que, aliás, são sempre homens, já que mulheres não são permitidas lá em cima.

O único acesso a tudo isso é uma escadinha de ferro, que Maxime desce duas vezes por semana para conversar com homens que vão até ele atrás de conselhos espirituais e para rezar com colegas e fiéis de uma minúscula comunidade no pé do monolito, o mesmo grupo responsável por enviar comida para Maxime quando ele está lá em cima.

Katskhi escada

Foto gentilmente cedida pela equipe de Upon This Rock

Foto gentilmente cedida pela equipe de Upon This Rock

Foto gentilmente cedida pela equipe de Upon This Rock

Foto gentilmente cedida pela equipe de Upon This Rock

Katskhi embaixo

Foto: Márcia Steyer – todos os direitos reservados

Katskhi Roldana

Se Maxime não foi o primeiro no topo do Katskhi, os antigos inquilinos do lugar tampouco foram os primeiros religiosos a viver em isolamento nas alturas.

Tudo indica que a ideia de viver no alto de um pilar começou por volta de 420 d.C, com o hoje santo Simeão, o Velho. Um cara sem o menor talento para a vida em sociedade.

Simeão, o Velho, sentadinho no seu pilar, em pintura do século 19, de autor desconhecido

Simeão, o Velho, sentadinho no seu pilar, em pintura do século 19, de autor desconhecido

Segundo a lenda, Simeão virou monge antes dos 16 anos de idade e logo começou a fazer renúncias bem pesadas na vida, acreditando que elas o deixavam mais perto de deus.

As renúncias eram tão extravagantes que Simeão conseguiu a proeza de ser “convidado a se retirar” do monastério e se refugiou em uma cabana nas montanhas, onde passou a Quaresma inteira sem beber nem comer nada.

Esse jejum acabou sendo uma vitória e uma praga para Simeão, já que o povo achou que ele era santo e começou a seguir seus passos onde quer que ele procurasse isolamento.

Numa das tentativas de se livrar do assédio popular, Simeão encontrou um pilar de 3 metros nas ruínas de uma construção e teve a ideia de viver no topo dele. Ao longo dos 37 anos seguintes ele até mudou de pilares, sempre procurando algo mais alto, mas nunca mais voltou a viver no chão.

Quando morreu, Simeão havia criado um novo tipo de religiosos ascetas (aqueles que fazem renúncias durante a vida): os estilitas, palavra que, em grego, significa “morador de pilar”.

Hoje as ruínas da última “casa” dele estão no meio das ruínas da igreja de São Simeão Estilita, perto de Aleppo, na Síria.

Considerando a situação da Síria, é bem mais fácil você ver um lugar estilita visitando o pilar de Katskhi. E se você der sorte, encontra o monge Maxime lá embaixo e ele ainda posa para uma foto.

Gabriel Prehn Britto - CC BY-NC-ND 3.0

Maxime esticando as pernas bem na hora em que eu estava no pilar. Que honra

*****

Quase todas as fotos acima são minhas, mas duas (devidamente identificadas) foram gentilmente cedidas pela equipe do documentário Upon This Rock (“Sobre Esta Pedra”, em tradução livre), que deve ser lançado em abril de 2015 e que trata da vida de Maxime e do pilar de Katskhi. Assista ao trailer abaixo. E se quiser mais informações, veja o site do projeto.

  

o pilar de katskhi na pratica 

Onde fica

O pilar de Katskhi fica perto da cidade de Chiatura, na região de Imereti, na Geórgia.

Distâncias:

– Chiatura – Zestafoni: 42 km

Chiatura – Tbilisi: 182 km

Chiatura – Kutaisi: 77 km

 

Como chegar

– De carro:

Eu fui a partir da cidade de Zestafoni, de onde não tem erro.

Zestafoni é cortada pela rodovia E60 (a principal ligação entre Tbilisi e o litoral do Mar Negro). Perto dela você vai enxergar placas apontando Chiatura. É só pegar a estrada indicada e seguir em frente. O caminho é cheio de ziguezagues, mas é bonito, passa por vilas superinteressantes e o aslfato é bom.

Katskhi Placa Chiatura

Depois de um tempo na estrada e antes de Chiatura (considere uns 30 minutos), fique ligado nesta placa.

Katskhi Placa

Quando der de cara com ela, pode sair da estrada e seguir pela estradinha local indicada. Mas atenção: se o seu carro estiver muito pesado e o motor dele for fraco, é melhor não descer o declive bem acentuado que existe antes de chegar no pé do pilar. Você corre o risco de não subir na volta.

(Para referência, eu estava com um Picanto 1.2, com duas pessoas e duas mochilas. Consegui subir.)

De qualquer maneira, você não vai conseguir chegar pertinho do pilar de carro, porque antes da última subida até ele existe uma placa proibindo a entrada de veículos. Deixe o seu possante na área descampada ao lado e vá a pé.

Alternativa para quem vai direto de Tbilisi: existe uma outra estrada que chega a Chiatura pelo outro lado dela, começando na cidade de Gomi, também a partir da E60. Porém, como não usei esse caminho, não posso falar mais nada.

– De transporte público:

Segundo este site, você pode pegar um ônibus de Tbilisi até Chiatura e depois um táxi até o pilar.

 

O que se faz lá

Basicamente nada. Não é permitido ao turista subir lá em cima, então é só para ver a pedra, observar a movimentação dos monges lá embaixo, talvez conversar com eles, apreciar a paisagem e ir embora.

Não existe um lugar para passar a noite junto ao pilar. Se você quiser, pode tentar algo nas vilas próximas ou em Chiatura.

 

Tem horário de visitação?

Tem.

Katskhi Placa horario

 

Dicas gerais

– Mulheres não podem subir no topo do pilar, mas podem circular pela área abaixo dele, na comunidade.

– Uma visita ao pilar pode ser encaixada quando você estiver indo de Tbilisi para Kutaisi (e vice-versa). Ou ainda entre Kutaisi e Akhaltsikhe. Mas calcule ao redor de duas horas de dedicação à visita, incluindo os 40 km de estrada entre Zestafoni e o pilar.

– A estrada E60 é cheia de cafés no trecho em que corta Zestafoni. Eles são boas opções para fazer um lanchinho no caminho.

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    6 Comentários
  1. Lindo Gabe, inimagínável e altamente interessante de conhecer. Adorei.

  2. Super interessante! Amei a descrição!

  3. Puxa,fiquei com inveja deste Máxime…..Deve ser uma tranquilidade lá em cima e ainda tendo uma vista destas!Cada post seu é uma descoberta ,uma viagem e um encantamento. Parabéns!

  4. Ou, seu blog é o mais legal de todos…

    • =) Valeu, Gabriel! Minha mãe concorda! =P

  5. Amei as dica, os textos, os blog como um todo. Abraços

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