Filmes são uma das formas mais práticas e interessantes de se pesquisar sobre um destino de viagem.

Não, eles não vêm com dicas práticas (ao menos eu nunca vi um assim), mas são perfeitos para você conhecer curiosidades, culturas, climas e tal. E não importa em qual buraco do mundo você vá se enfiar, aposto que existe ao menos uma obra cinematográfica ambientada lá ou contando alguma história local.

Detalhe do poster de Os Gritos do Silêncio

Detalhe do poster de Os Gritos do Silêncio

Entre todos os que vi antes de viajar, nenhum se compara em qualidade e impacto a Os Gritos do Silêncio, indicadíssimo por este blogueiro a qualquer pessoa que esteja mirando sua atenção para o Camboja.

Os Gritos do Silêncio (The Killing Fields – Direção de Roland Joffé) conta a história real de Dith Pran, um cambojano que trabalhou de fotógrafo, assistente e intérprete de Sydney Schanberg, correspondente do The New York Times no Camboja, pouco antes da chegada do Khmer Vermelho ao poder no país asiático.

Como era um cidadão local e sem nenhuma outra nacionalidade, Dith Pran não conseguiu acompanhar a leva de estrangeiros que o novo governo deixou que saíssem do Camboja antes de começar a dizimar de vez a sua população. O americano Schanberg até fez de tudo para levar Dith com ele, mas não conseguiu e viu seu parceiro e amigo ficar para trás.

Haing S. Ngor (Oscar de Ator Coadjuvante pelo filme) e Sam Waterston, interpretando Dith Pran e Sydney Schanberg

Haing S. Ngor (Oscar de Ator Coadjuvante pelo filme) e Sam Waterston, interpretando Dith Pran e Sydney Schanberg

Dith acabou enviado para os terríveis campos da morte criados por Pol Pot, o líder do Khmer Vermelho e um dos ditadores mais sanguinário da história (os números variam, mas já li que ele chegou a matar 25% da população cambojana).

Depois de presenciar assassinatos brutais, fazer trabalhos forçados e viver na absoluta miséria imposta pelo ditador ao seu povo, Dith Pran inacreditavelmente conseguiu fugir para a Tailândia, onde reencontrou Schanberg – que nunca havia parado de buscar informações sobre ele.

Cena do filme Os Gritos do Silêncio

Cena do filme Os Gritos do Silêncio

Cena do filme Os Gritos do Silêncio

Cena do filme Os Gritos do Silêncio

Dith emigrou para os Estados Unidos e acabou se tornando um ativista importante pela queda do regime de Pol Pot e pelo desenvolvimento do seu país, até a sua morte, em 2008.

(Aliás, Pran morreu de câncer no pâncreas enquanto eu estava justamente viajando por Vietnã, Laos e Camboja, mas só vi a notícia depois de desembarcar em Paris, já na volta.)

É preciso ser um robô de gelo para assistir a Os Gritos do Silêncio sem ficar muitíssimo impressionado com a brutalidade do Khmer Vermelho. Este efeito mudou completamente a minha visão sobre o Camboja, e também a minha viagem.

Em todos os contatos com cambojanos poucos anos mais velhos do eu, era impossível não pensar que elas também tinham sobrevivido àquilo tudo. Elas também tinham perdido anos das suas vidas em campos de trabalho. Certamente também tinham parentes que haviam sido assassinados apenas por saber escrever, calcular ou falar outra língua – algo que o Khmer Vermelho considerava uma prova de que a pessoa era burguesa antes da tomada do poder e, portanto, merecedora de execução sumária.

Os Gritos do Silêncio. Um filmão para qualquer pessoa que se interesse por história. E, ao meu ver, obrigatório para quem vai para o Camboja.

Os Gritos do Silêncio

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    11 Comentários
  1. Olá Gabriel. Obrigada pela dica. Não conecia esse filme. Mas vi outro que me provocou o mesmo efeito na ida ao Camboja. ” A imagem que falta”. Foi um dos cinco concorrentes ao Oscar de filme de estranjeiro em 2014 e usa imagens criadas com maquetes e massa misturada a imagens reais por ra contar a história do genocidio. Imperdivel!

    • Obrigado pela dica, Eneida! =)

  2. Muito boa esta indicação de filme, não sabia que o Camboja tinha enfrentado estes problemas. Este filme será meu primeiro contato com o país.

    Obrigado.

  3. Oi Gabriel, saber um pouco da história do lugar sempre nos faz ter um olhar diferente mesmo. Filmes são realmente uma boa indicação, obrigada! 🙂
    Nesse estilo histórico podemos saber um pouco da Birmânia atual Mianmar pelo filme Além da Liberdade (2011) – “The Lady” (original)

    • Dica anotadíssima, Mit! Obrigado! =)

  4. Esse filme é emocionante mesmo. É impossível não se comover com a história recente do Camboja, né? Eu já cheguei lá amando os cambojanos por causa disso. Aproveito para indicar dois livros com a mesma temática do filme: In the Shadow of the Banyan (Vaddey Ratner) e First They Killed My Father (Loung Ung). São tristes, mas lindos. Pena que ainda não foram publicados no Brasil, mas para quem lê em inglês eles estão disponíveis em e-book.

  5. Não lembro agora se assisti ao filme antes ou depois de ter ido ao Camboja. Embora não ache um filmaço nem nada, tem o mérito de retratar na tela o horror que foi o período khmer no Camboja. Comecei a ler esse livro (“First They Killed…”) que a Camila indicou mas é pesadão…e ainda não consegui evoluir muito. Enfim, acho inacreditável como os Cambojanos passaram por tudo isso e ainda conseguem ser um povo humilde, grato, gentil e absurdamente simpático. Dá vontade de colocar todos eles no bolso e trazer pra nossas vidas 🙂
    abs

  6. Eu vi o filme, e me emocionei muito quando fui ao Camboja, meu guia perdeu metade da família para a fome durante o período do Khmer. Durante a visita a Tuol Sleng, antiga prisão e atual Museu, tive a honra de conhecer um senhor que tinha sobrevivido a prisão. Enfim, como já foi dito, é incrivel um povo passar por tudo isso e ainda conseguir ser tão amável, gentil e sorridente.

  7. Excelente dica e uma excelente forma de se aproximar de realidades tão distantes no mundo físico, mas tão próximas de nós como habitantes da mesma casa. Vou assistir e volto para contar 🙂 obrigada por compartilhar, um beijo

  8. Também ia recomendar A Imagem que Falta! Filmaço.

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