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As descobertas de Petra

Aposto minhas milhas que você nunca leu nada sobre Jean Louis Burckhardt, muito menos sobre Sheikh Ibrahim ibn Abdallah. Mas […]

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Aposto minhas milhas que você nunca leu nada sobre Jean Louis Burckhardt, muito menos sobre Sheikh Ibrahim ibn Abdallah. Mas também aposto que você sonha em conhecer, ao vivo, a maior “descoberta” das vidas deles.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Esta descoberta é Petra, uma das cidades mais místicas do mundo, a atração mais famosa da Jordânia, que foi apresentada aos ocidentais por estes dois homens.

E estes dois homens, na verdade, são apenas um.

Para entender essa novela, vamos voltar um pouco na história.

A região de Petra começou a ser habitada há mais de 9 mil anos e passou pelas mãos de vários povos famosos. Alguns destes povos ficaram por pouco tempo, outros por muito. Entre os que permaneceram por um longo período estão os nabateus, os principais responsáveis pela Petra que vemos hoje, esculpida em pedra.

Eles chegaram na área por volta de 600 anos antes de Cristo. Estavam indo em direção ao sul da Palestina, em busca de um clima melhor do que o deserto infernal da Península Arábica, mas resolveram ficar no lugar em que hoje é Petra, onde encontraram água e a proteção dos desfiladeiros da região.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Na época, aquele já era o caminho das rotas comerciais entre os maiores impérios do período. E os nabateus, que não eram bobos, aproveitaram a posição estratégica para enriquecer, oferecendo segurança e descanso aos mercadores, em troca de impostos bem altos.

Rica e cheia de obras de engenharia brilhantes, Petra cresceu, virou a capital do Reino Nabateu e, por volta dos anos em que Cristo andava pelas vizinhanças transformando água em vinho, era uma metrópole de 30 mil habitantes, moderna, cosmopolita e cheia de vida.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)
Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)
Duto de água criado pelos nabateus (Gabriel Prehn Britto – CC BY-NC-ND 3.0)
Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)
Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Porém, como nada dura para sempre, o início do comércio marítimo fez com que os nabateus perdessem força e acabassem dominados pelos romanos. Petra ainda seguiu muito importante durante séculos, crescendo e incorporando melhorias e características de outros povos, mas aos poucos foi sendo abandonada e, em 749 d.C., sofreu um terremoto que espantou a população local de vez.

O último registro da cidade foi feito em 1276, por um sultão que estava de passagem pela região. Depois disso, Petra ficou 536 anos escondida dos olhos da maior parte do mundo, até que Jean Louis Burckhardt apareceu por lá em 1812 e mudou a história.

Jean Louis Burckhardt

Jean Louis, um suíco de Lausanne, tinha 28 anos e estava no meio de um período de preparação para uma expedição pela África, em nome de uma associação de exploradores de Londres. Ele havia chegado na tal associação aos 22 anos e sua missão naquele momento era descobrir a nascente do Rio Níger (que, hoje sabemos, fica em Guiné e passa por Mali, Níger e Nigéria).

Como a região africana para onde deveria ir era predominantemente muçulmana e como o início da expedição seria no Egito, Jean Louis havia decidido passar um tempo no Oriente Médio para se familiarizar com a cultura islâmica, antes de se embrenhar África adentro.

Os preparativos tinham começado ainda em Londres, com aulas de árabe, estudos do Alcorão, de astronomia e de medicina, além de uma dieta de vegetais e de noites dormidas ao relento, no chão, para se acostumar com o perrengue que seria a expedição. Depois eles continuaram em Aleppo, na Síria, onde Jean Louis chegou em 1810.

Só que viajar pelo Oriente Médio, naquela época, não era tarefa para qualquer aventureirozinho, não. A região era um mistério para os europeus e muito perigosa, com tribos matando estrangeiros apenas por eles serem diferentes.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Para evitar a própria morte, Jean Louis chegou na Síria dizendo que era um mercador muçulmano da Índia e que sua língua materna era o hindustâni, por isso ele falava árabe com sotaque. Para fechar todas as pontas da sua mentira, criou o seu novo nome: Sheikh Ibrahim ibn Abdallah.

Se alguém descobrisse a verdade, Jean Louis certamente seria morto como espião, mas ele seguiu em frente e passou dois anos estudando na Síria. Só quando já estava falando árabe com perfeição e repetindo o Alcorão de trás para frente, ele saiu em direção ao Egito para finalmente começar a missão.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)
Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

A caminho do Cairo, passando pela atual Jordânia, Jean Louis escutou histórias de uma cidade antiga, esculpida em pedras, e ficou louco de curiosidade. O problema era que a tal cidade era proibida, por ter sido supostamente construída por “infiéis”. O nome “Tesouro”, por exemplo, que batiza a construção mais famosa de Petra, vem de “Tesouro do Faraó”, porque os berberes locais acreditavam que ela havia sido construída por um faraó, através de magia negra, para guardar suas riquezas.

Jean Louis não poderia revelar sua vontade de conhecer aquele lugar profano sem despertar suspeitas em relação à sua crença no islamismo, situação que levaria à sua morte. Então ele inventou outra história.

Dentro da área onde fica Petra, existe um lugar chamado Monte de Arão, também conhecido como Monte Hor. Segundo a lenda, é lá que está enterrado Arão, irmão de Moisés e profeta para judeus, cristãos e muçulmanos.

O Monte de Arão já era conhecido em 1812 e já tinha até uma tumba/santuário no seu topo, indicando que aquele era um lugar sagrado. Jean Louis sabia disso e falou ao seu guia muçulmano que havia feito uma promessa muito tempo antes: sacrificar um bode junto ao túmulo de Arão.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

O guia caiu no conto e levou Jean até a cidade mais próxima do monte, a atual Wadi Musa, onde uma tribo muçulmana controlava os acessos à tal cidade esculpida em pedra. Sugeriram que ele sacrificasse o bode ali mesmo, à vista do Monte de Arão, mas Jean negou e insistiu na história, arriscando muitíssimo o seu pescoço. Insistiu tanto que conseguiu.

Ele e seu guia caminharam pelo desfiladeiro (onde hoje caminham todos os turistas), até que chegaram ao Tesouro.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Naquele momento, Petra foi descoberta pelos ocidentais.

Obviamente, Jean Louis ficou encantado pela visão e começou a desenhar e a fazer anotações disfarçadamente, o máximo possível, até que chegou aos pés do Monte de Arão, sacrificou o coitado do bode e foi adiante na sua viagem.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Jean Louis chegou ao Egito, mas não conseguiu realizar a missão pela África. Acabou passando 5 anos perambulando pela região e morreu de disenteria em 1817. Antes disso, para a nossa sorte, colocou suas descobertas em seus diários e entregou para pessoas de confiança.

O diário “Viagens na Síria e na Terra Santa” foi publicado no ocidente em 1822 e deu início à lenda mundial da cidade magnífica entalhada na pedra, despertando a curiosidade de outros exploradores.

David Roberts – 1839 (Domínio Público)

*****

Hoje, quase 200 anos depois, Petra ainda está entre os lugares mais misteriosos e charmosos do planeta. É justamente por causa dessa imagem que a vontade que se tem, ao chegar à Jordânia, é de correr para lá. Mas o ideal é segurar os ânimos e fazer tudo com a mesma calma e sangue frio de Jean Louis teve.

Petra é para ser descoberta lentamente, com o timing certo, passo a passo. Acredite em mim: se fosse possível simplesmente se materializar de frente do Tesouro, a experiência seria imensamente prejudicada, sem chances de ser recuperada.

O ideal é chegar em Wadi Musa (a cidade onde fica o Parque Arqueológico Petra), no fim da tarde de uma segunda, de uma quarta ou de uma quinta-feira e esperar até o início do Petra By Night, um evento cujo criador deveria ganhar uma estátua de bronze na entrada do parque.

No Petra By Night, o parque é aberto às 20h30, já noite escura. Você passa o portão e começa a ver as primeiras das 1800 velas que guiam os visitantes pelo caminho entre o desfiladeiro, até o Tesouro. Além das velas, só a escuridão e, se você tiver sorte, a luz da lua.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

No início, o desfiladeiro ainda não é alto e você consegue perceber algumas grutas e esculturas nas pedras. Mas aos poucos as paredes ao seu redor vão subindo, subindo, subindo, até alcançarem dezenas de metros e você não enxergar mais o céu, apenas os paredões de pedra vermelha, iluminados e alaranjados somente pela luz amarela e fraca das velas.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Já é de tirar o fôlego e você ainda não viu nada.

Depois de mais ou menos 30 minutos de caminhada, com inevitáveis paradas para respirar fundo e se dar tapas no rosto para ver que aquilo não é sonho, você faz uma curva leve.

Então, no meio da penumbra, por uma fresta entre as paredes do desfiladeiro, o Tesouro olha para você.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

A partir daí, minha amiga, meu amigo, as sensações e reações mudam para cada um e é inútil escrever mais. Você precisa ir até lá para descobrir as suas.

No primeiro post sobre a Jordânia, eu disse que Petra vai muito além do Tesouro. Mas no Petra By Night, tudo acaba nele, já que não é possível seguir adiante na escuridão – e vamos combinar: nem precisa naquele momento.

A praça em frente à fachada de 2 mil anos de idade é inteiramente coberta por velas. No meio delas, um homem toca uma música suave em um violino, antes de outro homem começar a contar histórias. Os turistas ficam sentados em tapetes espalhados pelo chão, numa posição que faz a imponência da construção crescer ainda mais sobre você.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

São vários minutos naquele ambiente mágico (para adjetivar o mínimo). O Tesouro está à sua frente, finalmente, mas você não consegue ver a sua beleza por inteiro, por causa da luz fraca.

É justamente essa a maravilha de se programar para que a sua primeira visita à Petra seja à noite: você vê, mas não vê. Petra se revela para você, mas não totalmente. O mistério da cidade segue, mesmo que você já esteja no coração dela. Não existe nível mais alto de sedução.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

Ao final do espetáculo, você faz o caminho de volta pelo mesmo desfiladeiro, seguindo as mesmas velas. Logo você está deitado na sua cama, louco para que o dia amanheça para, então sim, ver Petra por inteiro. Mas é difícil dormir.

Apesar de estar no conforto de um hotel, sem tribos assassinas ao seu redor e sem precisar mentir seu nome, você se sente um Jean Louis Burckhardt. E eu aposto uma última coisa nesse texto: ele não dormiu na noite anterior à entrada no desfiladeiro.

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Nos rascunhos deste post, tentei descrever como é Petra durante o dia, mas desisti depois de um sábado inteiro de escreve-apaga. Percebi o óbvio: Petra não é um lugar para ser descrito ou mostrado, é um lugar para ser conhecido e sentido.

Petra: dicas práticas

 

– A Petra de hoje não é mais uma cidade: é um parque arqueológico preservado, fechado, com regras de visitação, horários e trilhas marcadas.

– O lugar onde os visitantes se hospedam é a cidade de Wadi Musa (“Vale de Moisés”), que fica colada no parque. Na verdade, a entrada do parque é praticamente uma continuação da avenida principal de Wadi Musa. É fácil e não tem erro.

– Wadi Musa é totalmente preparada para receber os turistas. Pessoas falando inglês (e muitas outras línguas), restaurantes, lojas e tudo mais não faltam por lá.

– Não perca tempo com Wadi Musa. A cidade é unicamente a porta de entrada e o dormitório de Petra. Não há nada de interessante nela além disso.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

– A entrada no Parque Arqueológico Petra é paga e cara, mas vale cada centavo. Para checar preços, ver passes de mais de um dia e tudo mais, veja o site oficial do parque ou o site do Jordan Tourism Board.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

– Para pessoas com dificuldade de locomoção ou para os simplesmente preguiçosos, existem charretes para fazer o trajeto entre a entrada do parque e o Tesouro. Não sei como é para ir a outros lugares. Procure informações no site.

– É possível contratar guias oficiais e autorizados na entrada do parque. Dependendo da sua intenção de caminhadas, é altamente recomendável ir acompanhado, até porque o guia também é treinado para explicar a você as histórias de cada lugar por onde vocês passarem.

– Para informações atualizadas sobre datas, preços e tudo que se refere ao Petra By Night, veja o site do Jordan Tourism Board.

– As melhores épocas para visitar Petra são o outono (março-maio) e a primavera (setembro-outubro). O verão (junho-agosto) pode ser terrivelmente quente e o inverno (novembro-fevereiro) pode ter até neve. Sim, neve. Não é algo normal, mas dizem que não é incomum – e também não me parece ruim. Enfim, verifique a previsão do tempo no período em que você pretende viajar, antes de marcar sua passagem.

richy_trip (CC BY-NC-ND 2.0)

– Use roupas confortáveis. Você vai caminhar bastante, vai andar na areia e, dependendo de onde quiser ir, vai subir em pedras.

– Nas épocas mais amenas (e principalmente nas mais quentes), proteja-se do sol e leve água.

– Existe comércio em Petra e lugares onde você pode comer, beber e descansar, obviamente com comidas e bebidas mais caras do que do lado de fora. O ideal é levar tudo na mochila, o suficiente para o tempo que você pretende passar lá dentro.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

– Existem banheiros nos locais próximos de comércio.

– Não sei como se chega a Wadi Musa de transporte público, mas você pode procurar essas informações aqui.

– Segundo informações oficiais, a viagem de carro entre Amã e Wadi Musa pode ser feita em 3 horas (pela estrada do deserto) ou em 5 horas, pela Estrada dos Reis, com vistas panorâmicas.

– No caminho entre Amã e Wadi Musa estão duas grandes atrações jordanianas que não precisam de muito tempo para serem apreciadas: o Monte Nebo e o mosaico de Mádaba. Para otimizar o seu período no país, inclua essas atrações na sua viagem entre as duas cidades, se você estiver de carro. Você vai precisar fazer alguns desvios na estrada e obviamente vai levar mais tempo do que o indicado acima, mas vai valer.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-SA 2.0)

– Quando você der de cara com o Tesouro pela primeira vez, não se preocupe em fazer fotos. Elas nunca vão conseguir captar a real beleza e imponência do lugar. Esqueça tudo e apenas curta o momento. Eu levei um tempão para começar a fotografar e, juro, só fiz por causa do blog. Fosse por mim, não teria feito nada.

– Acorde cedo e tente ser um dos primeiros a entrar no parque, para chegar no Tesouro sem muitos turistas (verifique o horário de abertura no site oficial). Mas caso você não consiga sair da cama num horário bom, não se desespere. Provavelmente o Tesouro vai estar lotado quando você chegar, mas siga sua visita e retorne a ele mais pelo meio da tarde. É grande a chance de muita gente já ter ido embora e a praça em frente à fachada estar quase vazia.

Gabriel Prehn Britto (CC BY-NC-ND 3.0)

– Repito quantas vezes for possível e enfatizo aqui mais uma vez: Petra é muito mais do que o Tesouro. Muito, muito, muito mais. Tumbas, igrejas, ruas, templos, um monastério, um anfiteatro, trilhas, montanhas e vistas deslumbrantes que mudam de cor a cada hora do dia são apenas alguns exemplos do que você encontra lá. E se bastam apenas 30 minutos para você ir da entrada do parque até o Tesouro, muitas outras atrações tão ou mais lindas exigem horas de caminhada. Então, se você tem algum interesse em conhecer mais do que o básico, reserve mais de um dia. Eu recomendo três. No mínimo.

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Gabriel Quer Viajar foi para a Jordânia em uma press trip oferecida pela Jordan Tourism Board.

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Leia também o post A Jordânia na Prática, com dicas para ir para lá.

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