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O visto iraniano e uma historinha

[Atenção: este post conta exclusivamente a minha experiência em 2013, com exigências da época e possivelmente diferentes das do dia […]

por Gabe Britto outros artigos do autor
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[Atenção: este post conta exclusivamente a minha experiência em 2013, com exigências da época e possivelmente diferentes das do dia em que você estiver lendo estas linhas. Informe-se sobre necessidades atuais na Embaixada do Irã. O endereço está lá embaixo.]

Acho que até já falei aqui: eu não gosto de contratar despachantes para fazer vistos porque penso que enfrentar essa primeira burocracia faz parte da experiência que o país visitado oferece – além de ser uma possível baita economia, dependendo do preço do despachante.

Nunca tive grandes problemas seguindo esse pensamento, mas já tenho uma coleção de boas surpresas, com lugares notoriamente burocráticos que se mostraram fáceis e simples. Agora o Irã entrou nesse grupo.

Meu primeiro contato com as regras para se conseguir o visto iraniano prometia um perrengue terrível. O capítulo dedicado ao assunto na versão mais recente do Lonely Planet Iran (6ª edição – agosto 2012) avisa logo de cara:

“Uma das razões para tão poucas pessoas visitarem o Irã é porque pode ser difícil conseguir um visto.”

E segue:

“O processo é lento, imprevisível e as regras parecem mudar sem aviso.”

Em um destaque, está bem claro que fazer o pedido através de um despachante é “recomendado”.

Talvez seja assim para o público principal do guia – americanos, canadenses, autralianos, ingleses e outros europeus. Mas para brasileiros, usar um despachante antes de ir ao Irã me parece um tremendo desperdício de dinheiro e de uma ótima chance de sentir a famosa hospitalidade persa.

Comecei a tratar do assunto logo que comprei minhas passagens e fui atrás do site da embaixada no Brasil. Uma googlada me levou para o brasilia.mfa.ir, onde comecei a desconfiar que o Lonely Planet estava certo, porque o site é confuso, incompleto, tem pouco conteúdo em inglês e nada em português.

Primeiro, tentei o botão Consulate Section, onde normalmente estão as informações para pedidos de vistos, mas ele é uma página em branco.

Então fui para o botão Contact Us, onde existe um endereço de e-mail para o qual escrevi pedindo orientações. Sem ter recebido resposta depois de dois dias, resolvi ligar. Foi quando tudo começou a mudar.

Na hora de fazer a ligação para Brasília, me preparei para falar inglês e tentar compreender orientações dadas com sotaque farsi (a língua do Irã). Confesso: depois de tudo que havia lido, eu estava nervoso, esperando um burocrata irritado e sem a menor vontade de me ajudar. Já estava achando que aqueles quase R$ 500 reais que eu pagaria para um despachante nem eram tanto dinheiro assim.

O telefone deu ocupado nas 3 primeiras tentativas e imaginei que deviam deixar fora do gancho, para que chatos como eu não ligassem. Na 4ª tentativa, chamou. E chamou, chamou, chamou, chamou muitas vezes até que alguém atendeu.

Respirei fundo e me concentrei, mas o que escutei naquela voz masculina me pegou desprevenido:

– Émbáixada do Írã, bóm dia!

Fiquei um instante em choque. Uma voz animada e com um lindíssimo sotaque nordestino, no setor consular da Embaixada da República Islâmica do Irã? Para o meu cérebro, completamente preparado para um embate burocrático, aquilo era um cruzamento de civilizações inimaginável naquele momento.

Ainda meio gago pela pancada, pedi as informações que precisava e falei que havia escrito para o e-mail que estava no site da embaixada, ao que o meu brasileiríssimo interlocutor respondeu:

– Aquéle e-máil náo funcióna, náo. O sénhór énvie um e-máil para sétorcónsular árróba gé-máil pónto com que eu lhe mándo os árquivos com tódas as óriéntações.

Aproveitei e perguntei: é difícil fazer o visto para o Irã?

– É difícil, náo. É bém fácil.

Desliguei o telefone maravilhado. Aquela ligação não poderia ter sido melhor.

Enviei meu pedido de informações para o tal e-mail e, em questão de poucas horas, recebi os formulários, uma lista com os documentos necessários, os valores cobrados e as formas de pagamento.

Depois de algumas semanas providenciando a papelada (veja abaixo), liguei para a embaixada mais uma vez, para tirar uma dúvida. O mesmo funcionário me orientou com toda a paciência do mundo. Aproveitei de novo e fui mais específico na minha questão sobre a facilidade, que ainda me espantava: quantos dias eram necessários para o visto ser emitido?

– Quando démora, léva uns 10 días, mas nórmalménte sái em 3 óu 4.

Ainda levei um sustinho quando recebi uma ligação da embaixada, dois dias depois de ter enviado os documentos, mas era apenas o responsável pela emissão de vistos que queria tirar algumas dúvidas. Resolvida a questão, ele ainda me falou maravilhas sobre o país e disse que vou gostar muito de lá.

Então, exatamente 4 dias depois de ter postado tudo nos Correios (repito: quatro dias), meu passaporte estava na minha casa, em Porto Alegre, com o meu visto.

Visto Iraniano 2015

Até o momento, não descobri o motivo para toda essa agilidade dos iranianos com os brasileiros – e nem vou perguntar agora. Talvez sejam as boas relações comerciais ou a Copa do Mundo, para a qual o Irã está classificado e já existe uma movimentação dos governos para facilitar as viagens entre lá e cá.

Não sei.

Só sei que fiquei feliz por não ter um passaporte dos países onde vive o público principal do Lonely Planet.

Visto iraniano: como fazer

 

Endereço, telefones, e-mails e site da Embaixada da República Islâmica do Irã em Brasília: veja no site do Itamaraty.

 

E-mail que eu usei para contato: [email protected]

 

Documentação necessária, tipos de visto disponíveis e respectivos valores:

Informe-se com a embaixada, através dos contatos encontrados no site do Itamaraty.

 

Indicação de agência iraniana para ajudar nos trâmites de lá

Se você precisar do auxílio de uma agência iraniana, eu indico a Iran Persia Tour. Se for necessário, eles também podem providenciar a autorização do Ministério das Relações Exteriores do Irã, sem que você precise contratar outros serviços deles para isso.

Neste link você vai direto para a página da Iran Persia sobre o assunto. Se tiver dúvidas, escreva para [email protected]

 

Blog com informações atualizadas com mais frequência

O blog Colinas do Iran mantém o conteúdo sobre o visto atualizado com muito mais frequência do que eu. Verifique lá, mas sempre confirme tudo com a embaixada também.

 

Passagem por Israel

Muitos países do Oriente Médio – incluindo o Irã – não permitem a entrada de pessoas com passaporte carimbado por Israel. Confirme estas informações com a embaixada, nos contatos indicados acima.

Se você tiver um carimbo israelense e a proibição estiver em vigor durante a sua viagem, não se preocupe. Apenas faça outro passaporte antes de pedir o visto iraniano.

 

Visto dos EUA no passaporte

Não tem problema. Peça seu visto iraniano normalmente. Americanos vão para lá a toda hora.

 

Possíveis problemas com a imigração norte-americana depois de ter passado pelo Irã

Desde janeiro de 2016, cidadãos de países que não precisam do visto para entrar nos EUA precisam solicitar um caso tenham passado por Irã, Iraque, Sudão ou Síria a partir de 2011. Como brasileiros precisam de visto de qualquer maneira, eu não tenho ideia se isso muda alguma coisa para nós ou não. E como a burocracia é feita para nos deixar na dúvida, não achei nenhum esclarecimento sobre isso em português. Minha sugestão: tente conseguir informações com o consulado responsável pela sua área.

 

Cuidado com o Nowruz, o ano-novo persa

Ele acontece na entrada da primavera no hemisfério norte (ao redor de 20 de março). Se você tiver que pedir seu visto nesta época, considere uma demora bem grande, porque o Irã – e todas as suas embaixadas e consulados – param para comemorar a data. É um ultra-feriadão e ninguém vai dar bola para o seu pedido até o fim dele.

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