atualizado em:

É ético ir para a Coreia do Norte?

Fazer turismo em países comandados por ditaduras pode gerar algumas crises existenciais em quem viaja. Muitas pessoas se perguntam se […]

por Gabe Britto outros artigos do autor
atualizado em:

Fazer turismo em países comandados por ditaduras pode gerar algumas crises existenciais em quem viaja.

Muitas pessoas se perguntam se é ético ir para nações onde a população sofre nas mãos de regimes criminosos, se o dinheiro gasto lá ajuda a sustentar a riqueza dos governantes e até se deveríamos deixar esses países completamente isolados para forçar uma queda do governo.

A Coreia do Norte, é claro, está no topo da lista de países que podem gerar essas crises.

O excelente site Shangaiist pensou sobre o assunto e foi atrás das opiniões de pessoas que entendem da terra dos Kim. Traduzi livremente os pontos principais das respostas apresentadas lá no site e coloquei nesse post.

Tomara que esses argumentos ajudem você a formar a sua opinião e a decidir se vale ou não conhecer o país mais estranho do mundo.

 

Tad Farrell, fundador do site NKNews, especializado em notícias norte-coreanas.

(…)

[Os lucros gerados pelo turismo de ocidentais na Coreia do Norte] são tão pequenos que é francamente absurdo pensar que visitar o país vai ter qualquer impacto no modo como o governo norte-coreano gasta o seu dinheiro.

(…)

A Coreia do Norte pode pegar ou largar a renda insignificante do turismo. Mesmo que todos os ocidentais decidam não visitar o país, isso não faria diferença para o governo, sob uma perspectiva financeira. O programa de armas nucleares, as prisões e um sistema de partido único vão continuar existindo independentemente disso.

(…)

Eu acho positivo visitar a Coreia do Norte, porque isso aumenta o contato direto dos norte-coreanos com estrangeiros (ainda que em níveis indiscutivelmente superficiais), cria empregos (o que estimula um número maior de pessoas a tentarem entrar em contato direto e regular com estrangeiros) e ajuda a mostrar aos norte-coreanos a realidade da vida além das suas fronteiras, de forma tangível.

Lentamente, todos esses fatores vão influenciando os norte-coreanos comuns a pensarem sobre a sua situação, o seu governo e as suas fronteiras.

(…)

Se (e quando) o turismo aumentar na Coreia do Norte, espero que seja acompanhado por um relaxamento das regras. Minha esperança é que, em alguns anos, a experiência seja semelhante à de Cuba, onde não é um problema viajar pelo país de forma relativamente livre.

[Nota do blogueiro: as regras na Coreia do Norte vêm sendo relaxadas a cada ano. Desde janeiro de 2013, por exemplo, os estrangeiros podem acessar a internet direto de lá, usando seus telefones.]

 

Melanie Kirkpatrick, jornalista e escritora, membro sênior do Hudson Institute, em Washington (EUA), e autora do livro Escape From North Korea: The Untold Story of Asia’s Underground Railroad.

(…)

Eu recomendo que todos os viajantes considerem as consequências que as suas visitas podem ter no apoio ao regime brutal que oprime o povo norte-coreano.

A Coreia do Norte aceita receber visitantes estrangeiros por dois motivos:

1) Pelas moedas estrangeiras que eles trazem;

2) Para fins publicitários.

A Coreia do Norte precisa de moeda estrangeira para comprar tecnologia (muitas vezes ilegal) para seu programa nuclear. O regime de Kim também precisa desse dinheiro para comprar artigos de luxo com o qual suborna seus apoiadores. Os dólares e euros de um estrangeiro ajudam a sustentar tais atividades.

Além disso, os visitantes estrangeiros são apresentados ao público local como se tivessem ido até lá para honrar a família de Kim, em santuários que estão em cada roteiro turístico.

O estrangeiro que argumenta que a sua visita vai ajudar por causa do contato direto com as pessoas está sonhando. Cada visita é estritamente controlada, cada visitante tem um guia oficial e o acesso aos norte-coreanos comuns é praticamente impossível. O estrangeiro que sai pelas ruas por conta própria e conversa com norte-coreanos comuns coloca essas pessoas em um grande risco.

Em resumo, é justo dizer que os visitantes estrangeiros na Coreia do Norte são cúmplices do mal perpetrado pelo regime da família Kim. Eles estão ajudando a sustentar o regime, prolongando o sofrimento do povo norte-coreano.

 

Aidan Foster-Carter, pesquisador sênior honorário em Sociologia e Coreia Moderna, na Universidade de Leeds, na Inglaterra.

[A Coreia do Norte] é um regime inexplicavelmente monstruoso, mas posso listar várias razões para que isso não impeça você de ir para lá:

1) Todos devem ver aquilo, pelo menos uma vez. É único;

2) Você pode ir e arranjar problemas (fazer o que quiser, ir onde quiser, etc.) ou ser um bom menino, mas depois escrever tudo que quiser sobre eles. Ambas opções podem ser um serviço de utilidade pública. Ou um ato revolucionário. Ou um bom divertimento. Ou todos os três;

3) Eu acho que concordo com o argumento de que quanto mais contato, melhor. Claro, as pessoas que você encontra são quem mantém as estruturas, elas são parte do regime. Mas elas também são pessoas que pensam individualmente, ainda que não falem abertamente. Você pode influenciar algumas delas para o futuro.

 

Hannah Barraclough, guia da Koryo Tours:

(…)

Todos os contatos que temos com norte-coreanos são bons para quebrar barreiras. (…) Em nossos passeios acontecem coisas incríveis, como turistas participando de celebrações folclóricas, jogos de futebol improvisados com trabalhadores, brincadeiras com crianças, coreanos abordando estrangeiros para praticar inglês e assim por diante. No ocidente, nós retratamos os coreanos como um povo sem graça e robótico. No entanto, este estereótipo é quebrado facilmente quando você vai para lá. Eles são um povo muito orgulhoso e, embora tenham uma vida que parece uma luta, o humor e calor deles é insuperável.

Às vezes os turistas se preocupam se o dinheiro da viagem está indo direto para o governo, mas o lucro do turismo é muito pequeno perto da interação que acontece com as pessoas que dependem do mercado, de forma direta ou indireta.

 

Sang-hyun, norte-coreano que fugiu do país recentemente. A resposta dele foi dada através de um chat coletivo na internet.

Eu acho que o turismo na Coreia do Norte é positivo. Significa que os norte-coreanos podem ver e conhecer os estrangeiros, ainda que não possam conversar com eles. Se isso acontecer com frequência, o pensamento do povo norte-coreano pode mudar, especialmente se eles conseguirem ver a diferença entre as duas formas de viver. Turismo e visitantes estrangeiros também significam uma abertura do país, então eu acho que é positivo.

 

A opinião do autor desse blog? Ora, eu fui para lá. Se eu fosse partidário da opção do isolamento, não teria ido.

Se você quiser ver as respostas completas, visite o Shangaiist. Está tudo lá (em inglês). Mas antes disso, me diga: e você? O que você acha? Você iria para a Coreia do Norte?

*****

Gostou? Leia também os outros posts sobre a viagem à Coreia do Norte

ANTES DA VIAGEM (estudos e preparativos):

– Por Que Pra Lá – Coreia do Norte

– Visto norte-coreano: uma experiência surreal

– O que se faz na Coreia do Norte

– O que se faz na Coreia do Norte (segunda parte)

– Curiosidades norte-coreanas

DEPOIS DA VIAGEM:

– Coreia do Norte: o país mais estranho do mundo é um país deste mundo

– As (minhas) melhores imagens da Coreia do Norte (como fotografar no país)

– Arirang. A Coreia do Norte a cores

– Air Koryo, a Coreia do Norte que voa

– Dançando com norte-coreanos

– O que fiz na Coreia do Norte – 1º e 2º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 3º e 4º dias

– O que fiz na Coreia do Norte – 5º dia

– O que fiz na Coreia do Norte – último dia

– Tony Wheeler na Coreia do Norte

– Gabriel Quer Viajar na CBN

– A Coreia do Norte na prática

– Mulheres de Conforto

– Meu longa-metragem na Coreia do Norte

Assine nossa newsletter!

Comentários