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O que estamos perdendo no Mali

O Mali esteve em evidência na semana passada, com todos os grandes jornais abrindo espaço para falar do país africano. […]

por Gabe Britto outros artigos do autor
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O Mali esteve em evidência na semana passada, com todos os grandes jornais abrindo espaço para falar do país africano. Porém, infelizmente, os motivos para essa atenção toda não foram nem um pouco bons.

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Alexbip (CC BY-NC-ND 2.0)

Não vou entrar em detalhes sobre o que está acontecendo por lá desde o início de 2012 e que envolve golpe de estado, intervenção militar estrangeira, extremistas religiosos e Al Qaeda. Sobre isso, você pode ler aquiaqui e aqui.

O assunto deste post é outro. É mostrar um pouco (apenas um pouco!) do que todos nós perdemos com mais esse conflito no mundo.

A República do Mali

O Mali fica no oeste da África, cercado por Argélia, Níger, Burkina-Fasso, Costa do Marfim, Guiné, Senegal e Mauritânia. Ele não tem acesso ao mar e é cortado pelo Sahel, a “linha climática” que separa a África desértica (ao norte) da África fértil (ao sul).

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Sadalmelik e King (CC BY-SA 3.0)

Entre os anos 1000 e o século 18, parte dessa área toda era conhecida como Império Mali, um estado que dominou o comércio local durante um bom tempo e foi um grande centro de matemática, astronomia, literatura e arte. Foi do antigo Império Mali que nasceu o nome atual do país, provavelmente inspirado em um povo que vive na região até hoje, os malinka.

A bandeira do Mali tem as cores verde, amarelo e vermelho, cada uma com aqueles significados normais de bandeiras (natureza, ouro, sangue e tal). Aparentemente, é apenas mais um estandarte tricolor no mundo, mas ela tem uma curiosidade: é idêntica à bandeira da vizinha Guiné, apenas com as cores invertidas.

Mali:

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Guiné:

 

Bandeira de Guiné

Feita essa apresentação rápida, vamos ao que o post se propõe: o que estamos perdendo no Mali?

1) Timbuctu

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Kaptain Kobold (CC BY-NC-SA 2.0)

Uma das cidades mais míticas do mundo.

O ícone do lugar perdido no meio do nada e longe de tudo.

No auge do Império Mali, Timbuctu era uma das cidades mais importantes no comércio entre a África e a Europa, o que deu a ela riqueza e a fama de lugar distante e inacessível, por ser a última parada da rota entre os dois continentes.

Na época, a cidade também era um dos maiores centros de estudos islâmicos e de difusão da religião no mundo inteiro. A universidade Sankoré e as mesquitas Sankoré, Djinguereber e Sidi Yahya, construídas naquele tempo, estão lá até hoje e ajudaram a cidade a entrar na lista de patrimônios da humanidade, da Unesco.

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10b travelling (CC BY-NC-ND 2.0)
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alwithacamera (CC BY-NC-SA 2.0)
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Ben Haggis (CC BY-NC-ND 2.0) | stringer_bel (CC BY 2.0)
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emilio labrador (CC BY 2.0)
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emilio labrador (CC BY 2.0)

A história triste é que Timbuctu já estava em perigo antes mesmo dos conflitos atuais e, em 2012, voltou para lista de patrimônios ameaçados, da mesma Unesco, onde ela já já havia estado entre 1999 e 2005.

Como se possíveis bombardeios, loucuras extremistas e o isolamento do país já não fossem dores de cabeça suficientes, essa cidade de história fantástica ainda tem que lutar contra o deserto, o crescimento da sua população e mais uma montanha de ameaças.

2) A Grande Mesquita de Djenné

Essa mesquita, que fica na cidade de Djenné e foi terminada em 1907, é nada menos que a maior construção de adobe do mundo.

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© Egon Filter (egonf.com)

Ela tem capacidade para 3 mil pessoas e é considerada um dos melhores exemplos da arquitetura islâmica da região logo abaixo do Sahel. Dizem que suas paredes grossas conseguem evitar que o calor africano entre no salão de orações.

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© Egon Filter (egonf.com)
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© Egon Filter (egonf.com)

3) A cidade de Djenné

O Lonely Planet diz que a cidade de Djenné merece “todo o tempo que você puder dedicar” a ela. É uma informação forte, mas eu acredito. Djenné é uma das cidades mais antigas da África abaixo do Saara e, assim como Timbuctu, foi um ponto importante da rota de comércio entre o continente e a Europa.

Ela também está na lista de patrimônios da humanidade, da Unesco, junto com 4 lugares ao seu redor: os sítios arqueológicos de Djenné-Djeno, Hambarkétolo, Kaniana e Tonomba.

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Alexbip (CC BY-NC-ND 2.0)
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Martha de Jong-Lantink (CC BY-NC-ND 2.0)

Segundo a descrição da Unesco, “a estrutura antiga de Djenné é um exemplo extraordinário de um conjunto arquitetônico que ilustra um período importante da história”.

4) O Festival no Deserto

A história desse festival é bem recente. Ele nasceu em 2001, inspirado na paixão dos malineses pela música e em uma tradição tuaregue de fazer encontros musicais.

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bbcworldservice (CC BY-NC 2.0)

Ao longo do tempo, o “festival mais remoto do mundo” – onde só se chega em veículos 4X4 ou de camelo – começou a atrair músicos e público estrangeiros e hoje é um dos eventos mais importantes para a cultura nacional, famosa pela música.

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CultrVultr (CC BY-NC-SA 2.0)
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Damian (CC BY-NC-SA 2.0)

Ele acontecia todos os anos na cidade de Essakane, mas as ameaças à segurança fizeram ele ser mudado para Timbuctu. Em 2013, ele vai ter que acontecer fora do país, na vizinha Mauritânia.

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Como mostrou essa matéria do Estadão, as ameaças ao Festival no Deserto e a todos os músicos malineses são bem reais.

5) O País Dogon e toda a sua cultura

Os dogons são um povo que vive em uma região bem no centro do Mali. Eles estão espalhados em várias aldeias próximas às falésias de Bandiagara, formando uma área chamada de País Dogon.

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© Egon Filter (egonf.com)
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Jean-Louis POTIER (CC BY-ND 2.0)
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© Egon Filter (egonf.com)
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© Egon Filter (egonf.com)

Pelo menos desde o século 15, os dogons vêm resistindo a invasores graças à localização e ao estilo das suas casas, que ficam nas encostas das falésias, com acesso difícil e com essa cor de terra que se muitas vezes se confunde com as paredes naturais atrás delas, fazendo com que algumas aldeias seja praticamente invisíveis à distância.

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Ferdinand Reus (CC BY-NC-ND 2.0)

Toda a região é considerada Patrimônio da Humanidade, pelas características históricas, culturais, arquitetônicas e naturais.

6) Muitos outros povos

Os dogons são apenas o mais famoso dos povos que vivem no Mali. Além deles, também existem os bambara, os soninke, os khassonké, os malinka e um mundaréu de outros grupos e subgrupos étnicos, cada um com sua história, sua cultura e sua arte.

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Ferdinand Reus (CC BY-NC-ND 2.0)
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© Egon Filter (egonf.com)
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Ferdinand Reus (CC BY-NC-ND 2.0)
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Ferdinand Reus (CC BY-NC-ND 2.0)

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7) A Tumba de Askia

Askia Mohammad I foi o líder mais importante do Império Songhai, que existiu na região junto com o Império Mali. Sua tumba foi construída em 1495, logo depois dele oficializar o islamismo como a religião do seu estado.

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Crazy Joe Devola (CC BY 2.0)

Hoje ela é considerada um dos vestígios mais importantes do Império Songhai e um dos melhores exemplos da arquitetura tradicional da região abaixo do Sahel. Também esta na lista de patrimônios da humanidade, da Unesco.

8) Bamako

Sobre a capital do país, o Lonely Planet diz: “se você procura tranquilidade, fuja de Bamako”.

E continua logo em seguida: “Mas se você gosta de mercados multicoloridos e espalhados pelas ruas, se você aprecia a vida noturna e está louco por uma oportunidade de conversar com moradores abertos e simpáticos, Bamako vai conquistar você.”

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–Patrick– (CC BY-NC-ND 2.0)
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–Patrick– (CC BY-NC-ND 2.0)

Olha, acho que já me conquistou.

 

Veja onde se hospedar em Bamako • 

 

9) O Museu Nacional do Mali

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Além das festas, dos mercados e da população queridona, Bamako tem nada menos que um dos melhores museus de etnografia e arqueologia da África. E no meio de objetos culturais e de arte, a maior atração são os instrumentos musicais do país. Dizem que a coleção é completíssima.

10) O maior passeio pelo rio Níger

O Níger é o rio mais importante da África ocidental. Ele nasce em Guiné e corre para dentro do continente, entrando no Mali, fazendo uma curva ali pela altura de Timbuctu, seguindo para o Níger, para fronteira com Benin e entrando logo depois na Nigéria, onde se acaba no mar, no Golfo de Guiné.

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Roke (CC BY-SA 3.0)

De todo esse trajeto, a maior parte passa por dentro do Mali, o que faz do Níger o rio mais importante do país também.

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Alexbip (CC BY-NC-ND 2.0)
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© Egon Filter (egonf.com)
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© Egon Filter (egonf.com)
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Martha de Jong-Lantink (CC BY-NC-ND 2.0)
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Martha de Jong-Lantink (CC BY-NC-ND 2.0)
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© Egon Filter (egonf.com)
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© Egon Filter (egonf.com)

Um passeio por ele é praticamente uma atração obrigatória para quem visita o Mali. Tomara que não demore para que ele volte a ser possível para todos nós.

(Se você é leitor assíduo do blog, deve ter percebido que esse post tem a estrutura idêntica ao Por Que Pra Lá?. E esta foi justamente a minha intenção. Se tudo correr bem, um dia eu vou atualizar este post, incluindo ele na série. Mas, por enquanto, o título fica assim mesmo. Infelizmente.)

Veja onde se hospedar em várias cidades do Mali

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