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Mulheres de Conforto

Uma das coisas que eu mais gosto em tudo que envolve uma viagem é a oportunidade de poder dedicar muito […]

por Gabe Britto outros artigos do autor
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Uma das coisas que eu mais gosto em tudo que envolve uma viagem é a oportunidade de poder dedicar muito da minha atenção ao estudo da história de regiões, países e povos – algo que não consigo fazer normalmente sem a desculpa de que estou indo até eles.

O problema é que histórias de regiões, países e povos quase nunca são bonitas e, às vezes, eu acabo dando de cara com absurdos como as “mulheres de conforto” coreanas, que descobri estudando sobre a Coreia do Norte.

theogeo (CC BY 2.0)

Como eu já disse em algum lugar por aqui, as duas Coreias têm uma história comum de mais de 5 mil anos. Mas a parte que interessa neste post é o início dos anos 1900, quando o Japão invadiu e dominou a Península da Coreia.

Ksiom – Domínio Público

Naquela época, a Coreia já era uma nação com fronteiras delimitadas havia quase 900 anos, com etnia, cultura e língua próprias, só que o Japão não quis nem saber e tomou conta de tudo, impondo educação, costumes, cultura e língua, além de submeter os coreanos a humilhações e atrocidades.

Entre as atrocidades, a pior de todas foi a invenção das “mulheres de conforto”.

Tudo começou nos anos 1930, quando o Japão dominava várias regiões da Ásia e seus governantes estavam preocupados com possíveis revoltas de soldados japoneses nos locais invadidos. Para tentar acalmar os ânimos, tiveram a ideia de criar as “casas de conforto”, lugares onde prostitutas voluntárias (dizem) recebiam militares.

Domínio público

Com a expansão do Império Japonês, o número de soldados aumentou e não havia mais prostitutas que dessem conta da demanda. Foi quando começou a tragédia, que ficou ainda maior a partir da Segunda Guerra Mundial, em 1939.

Por volta desse período, no meio de tantos conflitos, com tantos soldados recrutados e mandados para áreas de combate, o governo japonês deu início ao inimaginável: o envio forçado de mulheres para as “casas de conforto”.

Domínio público

Enganadas por promessas de emprego, sequestradas ou simplesmente retiradas das famílias, 210 mil mulheres (70-80% delas coreanas), muitas com idades entre 13 e 16 anos, foram obrigadas a se prostituirem para uma média diária de 35 homens, sujeitas a tudo que isso significa, além de espancamentos e fome.

Como disse a porta-voz do The Korean Council for the Women Drafted for Military Sexual Slavery by Japan, uma entidade local que trabalha hoje na defesa das sobreviventes, foi “o único caso na história no qual um governo criou um sistema de estupros sistemáticos”.

O fim da Segunda Guerra, em 1945, encerrou a pior parte do inferno das “mulheres de conforto”. Mas o pesadelo segue até hoje.

As sobreviventes, que ainda sofrem preconceito e guardam sequelas terríveis daquela época, protestam todas as quartas-feiras, desde 1990, em frente à embaixada do Japão, em Seul, na Coreia do Sul.

bittermelon (CC BY-NC 2.0)

Apesar de estarem com idades ao redor de 90 anos, elas não cansam de exigir um pedido de desculpas sincero do governo japonês, além de indenizações por tudo que sofreram. O governo nipônico até pediu perdão em 1993, mas o ato não foi considerado sincero. Indenizações não são nem cogitadas oficialmente.

Segundo o Lonely Planet Korea, é possível conhecer algumas antigas “mulheres de conforto” em um lugar chamado House of Sharing, a 1h de Seul.

onourownpath.com (CC BY-NC-SA 2.0)

O local é um retiro para algumas delas e um museu sobre essa história e sobre o tráfico de mulheres no mundo. Ainda de acordo com o guia, a maior parte dos visitantes é formada por japoneses, querendo aprender com seus próprios erros.

Eles provavelmente estudaram a história da Coreia antes de irem para lá.

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Saindo um pouco do tema do post, mas ainda ligado a ele: Kim Il-sung, o eterno presidente defunto da Coreia do Norte e o fundador da ditadura mais terrível da atualidade, surgiu exatamente no fim da Segunda Guerra, quando acabaram todas as humilhações impostas pelos japoneses.

Apoiado pelos soviéticos, ele foi considerado um dos heróis que haviam tirado a nação daquele sofrimento que já durava mais de 35 anos e não demorou para se vender como o único responsável por tudo, ganhando o amor e a gratidão dos seus conterrâneos e dando início à criação da sua imagem de Grande Líder, que dura até hoje, protegida pelo controle de informação do governo.

Estudar a história dos lugares é importante para entender culturas, hábitos e pensamentos diferentes. Principalmente aqueles que parecem incompreensíveis.

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