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Ma-mi-ra-uá

No início, você acha difícil, mas depois se acostuma e passa a falar o nome do lugar com a desenvoltura […]

por Gabe Britto outros artigos do autor
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No início, você acha difícil, mas depois se acostuma e passa a falar o nome do lugar com a desenvoltura de um índio Tupi.

A mesma coisa acontece com o calor, o isolamento, os sons noturnos na floresta e os trocentos bichos selvagens: no fim do seu período em Mamirauá, você vai achar tudo isso normal. E vai morrer de saudades.

Mamirauá não é uma cidade. É uma “reserva de desenvolvimento sustentável”. Trocando em miúdos, o objetivo dela é preservar a natureza melhorando a vida das comunidades que existem dentro da sua área (equivalente a 10 vezes a cidade de São Paulo, mas a apenas 0,2% da Amazônia brasileira).

Em números amazônicos, Mamirauá fica a 2 dias de barco de Manaus, ou 15 horas de lancha, ou 3h de avião + lancha. Em números normais, isso dá mais ou menos 600 km da capital do estado.

Quem cuida de tudo é o Instituto Mamirauá, uma entidade sem fins lucrativos apoiada pelo governo. Entre todos os projetos de pesquisa e desenvolvimento tocados pelo instituto, existe um de ecoturismo, com intenção específica de ajudar os habitantes locais a atraírem visitantes para a região ao mesmo tempo em que protegem o verde, sua maior atração.

Por sua vez, entre todas as atividades que fazem parte do projeto de ecoturismo, existe um que é uma pousada. Sim! Uma pousada! Um lugar para que eu, você, nós possamos passar alguns dias dentro daquele lugar incrível.

O nome é Pousada Flutuante Uacari.

São 5 cabanas ligadas por pequenas pontes, próximas a uma cabana maior que podemos considerar o “lobby do hotel”. Todas elas ficam boiando sobre troncos enormes, ancorados em terra firme.

Por que elas ficam boiando? Porque a reserva Mamirauá é uma área que fica alagada durante 6 meses por ano. E não é um alagadinho qualquer. É muita, muita, muita, muita, muita coisa. A água sobe até 12 metros e deixa apenas as copas das árvores (que são altíssimas) para fora, mudando completamente a vida na região.

É justamente este aguaceiro todo que faz de Mamirauá um lugar tão especial. Os bichos que vivem lá precisam ser muito bem adaptados a esta mudança gigantesca, o que significa que muitos só existem naquela área. Nem vou tentar lembrar os nomes de todos, porque são uma infinidade, mas tem jacarés, botos, onças, macacos, aves, peixes, sapos, aranhas, cobras, preguiças e coisa e tal.

Para preservar esta bicharada, a pousada Uacari é toda preparada para não causar impacto na natureza. A energia elétrica vem de paineis solares. A água da pia e do chuveiro é bombeada do rio. O esgoto é tratado antes de voltar para o ambiente. E um detalhe especial: a pousada pode receber, no máximo, 1000 hóspedes por ano. Qualquer número acima disso precisaria de novos estudos de impacto ambiental.

As instalações são simples, mas confortáveis. Ou seja, você não vai ter ar-condicionado na sua cabana (mas, juro, à noite o calor dá uma trégua).

Em compensação, vai ser tratado com toda a atenção do mundo por uma equipe incrível, formada quase totalmente por gente simples que vive nas comunidades de lá. Vai comer pratos regionais deliciosos, feitos com ingredientes que você nem sabia que existiam. Vai ver a emoção dos guias ao falar da floresta onde nasceram e vivem.

E, claro, vai conviver com uma sinfonia inesquecível de cantos de pássaros, urros de macacos, peixes pulando e jacarés se alimentando (sim, eles fazem um barulho estranho quando comem) bem na sua frente, embaixo da sua cabana e por todos os lados.

Acredite, você nem vai lembrar que ali você não é um hóspede, mas um participante de um projeto fantástico de ecoturismo. A maior prova é o reconhecimento da pousada como um dos melhores destinos do mundo por revistas coxudas especializadas no assunto.

Tudo isso tem um preço, óbvio. Mas, depois do que você vive lá, eles parecem justíssimos.

As vagas em Uacari são vendidas em pacotes divididos em:

– 3 noites (de sexta a segunda)

– 4 noites (de segunda a sexta)

– 7 noites (de segunda a segunda ou de sexta a sexta)

E custam, respectivamente, R$ 1.200, R$ 1.450, e R$ 2.250, por pessoa (valores até 30 de junho de 2012).

É fundamental ressaltar: 100%, tudo, tudinho, todo o dinheiro arrecadado vai para a manutenção da pousada e, quando há lucro, para os projetos das comunidades locais.

Esta grana inclui os traslados de lancha desde/até Tefé (a cidade mais próxima), cafés da manhã, almoços e jantares com uma verdadeira suruba de sucos de frutas locais, além de atividades diárias de trekkings leves na floresta e passeios de canoa, inclusive à noite.

Os passeios são indescritíveis, mas tentarei fazer isso no próximo post, porque este já está mais longo que jacaré-açu adulto. Enquanto isso, vá treinando: Ma-mi-ra-uá.

Posts seguintes: Diário de Mamirauá e Mamirauá na prática

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