Do Chile aos Alpes franceses, passando pelo Japão e pelos preparativos para os Jogos Olímpicos de inverno, estações de esqui nos dois hemisférios enfrentam temporadas cada vez mais curtas, mais caras de manter e mais incertas para quem planeja viajar atrás da neve.

Nesta matéria

  • A temporada que não chegou: o inverno chileno de 2026
  • O panorama global: por que a neve está sumindo
  • Hemisfério norte: da Suíça ao Japão, um recuo desigual
  • Hemisfério sul, parte 1: os Andes, entre a crise chilena e o otimismo argentino
  • Hemisfério sul, parte 2: Austrália e Nova Zelândia perdem neve mais rápido que qualquer lugar do mundo
  • Os Jogos Olímpicos de inverno como termômetro da crise
  • Canhões, neve estocada e pistas secas: as apostas da indústria
  • O que isso muda para quem viaja atrás da neve?

A temporada que não chegou: o inverno chileno de 2026

Em julho, no auge do que deveria ser a temporada de esqui no Hemisfério sul, os teleféricos de El Colorado, a menos de uma hora de Santiago, passavam praticamente vazios sobre encostas de terra e pedra. Das pistas de um dos principais complexos perto da capital chilena, 90% seguiam fechadas, de acordo com dados da Aceski, associação que reúne as estações de esqui do país. A neve que restava, fina e majoritariamente artificial, cobria uma fração do que os moradores da região costumam ver por essa época do ano.

O motivo é uma seca que já dura anos, agravada por um inverno particularmente pobre em precipitação. “É neve como a neve natural, mas produzida por turbinas especiais”, explicou à CNN o presidente da Aceski, Michael Leatherbee, ao descrever o sistema de fabricação artificial no qual o setor investiu na última década e meia. O meteorologista Arnaldo Zúñiga, porta-voz da Direção Meteorológica do Chile, calculou que a última grande nevasca da temporada, em 21 de junho, rendeu apenas 24 centímetros de neve: um déficit de quase 60% em relação a um ano considerado normal nos Andes centrais.

O aumento de 2°C na temperatura global já será o suficiente para que 53% das estações de esqui do mundo todo corram o risco de ficar sem neve.

Mais ao norte, nas estações tradicionais de Portillo e Valle Nevado, a escassez de neve obrigou os operadores a adiar o início da temporada de 2026. O impacto se espalhou por toda a cadeia de turismo que vive da neve: hotéis, agências, locadoras de equipamento. A Loja de Neve, empresa que aluga roupas de inverno para turistas brasileiros, chegou a anunciar o adiamento da abertura de suas lojas físicas, justificando que, segundo o monitoramento meteorológico, “não há previsão de neve para os próximos dias na região montanhosa”.

Ainda assim, o setor resiste. Somente em 2025, as estações da região metropolitana de Santiago receberam 1,24 milhão de esquiadores, com um impacto econômico direto de US$ 283 milhões, dos quais US$ 228 milhões vieram de turistas internacionais, segundo a Aceski. É um negócio grande demais para desaparecer muito rapidamente, mas pequeno demais para bancar sozinho a adaptação que a crise climática está impondo.

Passeios de neve em santiago do Chile 05

O panorama global: por que a neve está sumindo

O que acontece no Chile é sintoma de um problema maior. Estudos publicados na revista Nature mostram que os acúmulos de neve no Hemisfério norte vêm caindo desde a década de 1980.

Andrew Schwartz, cientista-chefe do Central Sierra Snow Laboratory, da Universidade da Califórnia em Berkeley, projeta que, sem redução das emissões de gases-estufa, “uma grande parte do mundo terá invernos sem neve até 2100”. A neve das montanhas funciona como reservatório natural de água doce para cerca de 1,9 bilhão de pessoas; menos neve no inverno também significa solos mais secos e mais vulneráveis a incêndios florestais nos verões seguintes.

O levantamento mais detalhado sobre o impacto direto na indústria do esqui europeia foi conduzido por pesquisadores do Institut National de la Recherche Agronomique (Inrae), da Météo-France e do instituto austríaco Joanneum Research. A equipe analisou mais de 2,2 mil estações de esqui em 28 países europeus e publicou os resultados na Nature Climate Change. Sem produção de neve artificial, 53% dessas estações estariam sob risco “muito alto” de escassez de neve num cenário de aquecimento de 2 °C acima dos níveis pré-industriais. A 4 °C, esse número sobe para 98%.

Um levantamento posterior, publicado em 2024 na revista científica PLOS ONE pela pesquisadora Veronika Mitterwallner e equipe, da Universidade de Bayreuth, na Alemanha, ampliou essa análise para sete das principais regiões de esqui do planeta e chegou a um retrato global: 13% de todas as estações de esqui do mundo devem perder toda a cobertura natural de neve até o fim do século, e outras 20% devem perder mais da metade dos seus dias de neve por ano. Como será visto adiante, esse impacto está longe de ser uniforme entre os hemisférios.

A neve artificial ajuda, mas não resolve. Cobrindo metade das pistas com canhões, o risco cai para 27% e 71% nos mesmos dois cenários. O problema é que fabricar neve consome água e energia justamente quando as duas ficam mais escassas: o estudo projeta um aumento de 8% a 25% na demanda por água a 2 °C de aquecimento, dependendo do país, e uma pegada de carbono que passaria das atuais 80 mil toneladas de CO2 equivalente por ano para até 97 mil toneladas. Ainda assim, os pesquisadores fazem questão de lembrar que o transporte e a hospedagem dos turistas pesam muito mais no total de emissões do turismo de neve do que os canhões em si.

Os números movimentam uma economia considerável: o esqui soma cerca de US$ 30 bilhões em faturamento na Europa e sustenta, direta ou indiretamente, 120 mil empregos só na França.

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Hemisfério norte: da Suíça ao Japão, um recuo desigual

Na Suíça, a emissora pública SWI swissinfo.ch contabiliza 167 estações de esqui já encerradas, a maioria situada abaixo dos 1.600 metros de altitude, cota considerada crítica porque abaixo dela a neve artificial deixa de compensar: os canhões só funcionam com temperaturas negativas, e essas janelas estão cada vez mais raras nos meses de início e fim de temporada. “Hoje em dia, menos crianças estão aprendendo a esquiar”, constata Monika Bandi, pesquisadora de turismo de montanha citada pela emissora.

Diante do risco de fechamento, os moradores de Flims, Laax e Falera decidiram em votação comprar a própria área de esqui por 94,5 milhões de francos suíços, para evitar que caísse nas mãos de investidores estrangeiros. Na vizinha Áustria, os Alpes estão esquentando a um ritmo quase duas vezes mais rápido que a média global. Segundo dados de campo compilados pela agência de notícias Anadolu, o que já levou as estações a dependerem cada vez mais de neve artificial e trouxe escassez de água a refúgios de alta montanha.

Na França, o efeito já apareceu nas urnas. Em outubro de 2024, moradores de Seyne-les-Alpes votaram em referendo municipal pelo fechamento definitivo da estação Grand Puy, nos Alpes franceses: 71,31% dos votos favoráveis ao encerramento de um complexo de 24 quilômetros de pistas situado entre 1370 e 1800 metros de altitude, que acumulava prejuízos anuais de centenas de milhares de euros. O prefeito Laurent Pascal anunciou planos para reconverter o espaço em trilhas e um lago de pesca, com “atividades esportivas e de natureza que respeitem o meio ambiente”.

Desde a década de 1970, mais de 180 estações fecharam na França, a maioria pequenos complexos de meia montanha administrados por comunidades ou famílias, segundo o pesquisador Pierre-Alexandre Metral, da Universidade de Grenoble.

No Japão, o recuo é mais lento, mas constante. O número de estações de esqui em operação caiu de 698, no pico de 1999, para 417 em 2025, uma queda de 40%, segundo levantamento da Associação Japonesa de Transporte Funicular, citado pela agência Kyodo News. A queda combina dois fatores: menos dias de temperatura negativa, encarecendo a fabricação de neve artificial, e um desinteresse crescente dos próprios japoneses pelo esporte (apenas 2,8 milhões de pessoas disseram ter esquiado em 2024, ante 4,8 milhões em 2015). “Muitas operadoras foram forçadas a fechar as portas devido aos altos custos”, resumiu Makoto Takayanagi, chefe do secretariado da associação.

A leitura muda, porém, se o critério for a confiabilidade da neve em si, e não o número de estações. O SKI Resilience Index, da consultoria imobiliária Savills, que mede a resiliência climática de 62 estações ao redor do mundo, mostrou Niseko e Furano, no Hokkaido japonês, subindo 29 e 26 posições no ranking da temporada 2022/23, impulsionadas por nevascas recordes vindas de massas de ar siberianas.

A própria Savills, porém, classificou a alta como um desvio pontual: na temporada seguinte, as duas estações voltaram a cair no ranking, o que os pesquisadores chamaram de “retorno à tendência”. Isso resume o quadro japonês: por ora, o país tem uma reserva natural de neve que falta a boa parte da Europa, mas a própria Savills alerta que o aumento da temperatura dos oceanos pode comprometer esse padrão nas próximas décadas.

Nos Estados Unidos, a temporada de esqui encolheu entre 5 e 7 dias, em média, entre 2000 e 2019, e o setor já perdeu US$ 5 bilhões nesse período, segundo um estudo de 2024 conduzido por Daniel Scott, da Universidade de Waterloo, no Canadá, e Robert Steiger, da Universidade de Innsbruck, na Áustria. Foram analisadas 226 estações em quatro mercados regionais do país. “Provavelmente já passamos da era dos picos de temporada de esqui”, resume Scott.

O estudo projeta que, até os anos 2050, mesmo com neve artificial, a temporada deve encolher entre 14 e 33 dias num cenário de baixa emissão de carbono, ou entre 27 e 62 dias num cenário de alta emissão, elevando as perdas anuais do setor para algo entre US$ 657 milhões e US$ 1,35 bilhão. A Vail Resorts, dona de complexos como Vail e Breckenridge, já registrou queda de 8% nas visitas na temporada 2023-2024, associada a uma redução de 28% no volume de neve. Máquinas que geravam neve artificial em 41% das estações do Meio-Oeste e do Nordeste americano hoje atendem 89% delas.

No Canadá, a maior estação de esqui de Ontário, a Blue Mountain, vem tocando um plano plurianual e multimilionário de modernização do sistema de fabricação de neve desde 2023, com mais canhões, tubulações e automação para aproveitar ao máximo as janelas de frio cada vez mais curtas. É um retrato do mesmo dilema que aparece da Suíça ao Japão: quanto mais instável fica o clima, mais caro fica abrir a temporada no mesmo calendário de sempre.

No estado de Vermont, um dos polos de esqui do Nordeste americano, o problema não é só a quantidade de neve, mas a instabilidade. A professora Gillian Galford, do Gund Institute for Environment da Universidade de Vermont, explica que os invernos ali esquentaram 2,5 vezes mais rápido que a média anual do estado, criando ciclos de degelo e recongelamento em vez de uma camada estável de novembro a março. Pelas projeções da universidade, até 2080 a temporada de esqui de Vermont pode encolher em um mês, num cenário de altas emissões, ou em duas semanas, num cenário mais contido.

Hemisfério sul, parte 1: os Andes, entre a crise chilena e as duas faces do inverno argentino

Segundo o estudo de Mitterwallner, autoridades chilenas vêm citando uma projeção específica para a cordilheira: até 18% das estações de esqui andinas podem fechar até o fim do século, ante a média global de 13% mencionada acima.

“Os Andes são uma das regiões que mais rapidamente estão perdendo neve”, disse à agência France-Presse o climatologista Raúl Cordero, da Universidade de Santiago. Segundo suas pesquisas, a camada de neve andina encolhe a um ritmo de 10% por década, e a linha de neve sobe, em média, 100 metros a cada dez anos, conforme cálculos do pesquisador Juan Pablo Boisier, do Centro de Ciência do Clima e Resiliência.

A adaptação chilena já começou, com resultados desiguais. Em Nevados de Chillán, 450 quilômetros ao sul de Santiago, canhões de neve artificial mantêm parte das pistas baixas em funcionamento, enquanto no verão o complexo se transforma em trilhas de mountain bike.

Mais ao sul, em Corralco, a estratégia é diferente: em vez de fabricar neve, a estação estoca a que cai durante o inverno, compactando-a em pontos frios para espalhá-la depois, técnica conhecida como snow farming. Já Farellones, a estação de menor altitude da região metropolitana, abandonou praticamente o esqui e se reinventou como um centro de montanha voltado a outras atividades.

Do outro lado da fronteira, a Argentina mostrou como essa variação pode se inverter de uma serra para outra dentro do mesmo país e no mesmo inverno. No norte da Patagônia, o Cerro Catedral, em Bariloche, maior complexo de esqui da América do Sul, abriu no dia 8 de junho com cerca de 40 centímetros de neve acumulados nos setores altos. Isso foi impulsionado por um fenômeno El Niño em fortalecimento, que tende a aumentar as chances de tempestades vindas do Pacífico sobre a cordilheira.

Bem mais ao sul, porém, o cenário se inverteu. O Cerro Castor, em Ushuaia, a estação de esqui mais austral do mundo, teve que adiar a abertura prevista para o fim de junho por escassez de neve e mau tempo. A estação só começou a operar parcialmente em 4 de julho, com as pistas liberadas lentamente conforme a neve artificial e novas nevascas permitiam ampliar a área esquiável.

“Vamos habilitar mais pistas à medida que as temperaturas permitam produzir neve”, explicou à imprensa local o gerente-geral do complexo, Ricardo Peretto. O contraste entre o Cerro Catedral com boa neve e o Cerro Castor com abertura adiada, no mesmo país e no mesmo inverno, ilustra um ponto importante do debate: a instabilidade natural do clima, ligada a ciclos como El Niño e La Niña, ainda pesa bastante temporada a temporada e de uma montanha para outra, mas atua sobre uma base que, ano após ano, fica mais quente e menos previsível.

Montanha com neve no topo em Bariloche
Mudanças climáticas nas estações de esqui: a produção de neve artificial pode piorar o aquecimento global

Hemisfério sul, parte 2: Austrália e Nova Zelândia perdem neve mais rápido que qualquer lugar do mundo

Se um único lugar do planeta resume o problema, é a Austrália. O estudo de Mitterwallner e equipe analisou sete das principais regiões esquiáveis do mundo (Alpes europeus, Andes, Apalaches, Alpes australianos, Alpes japoneses, Alpes do Sul da Nova Zelândia e Montanhas Rochosas) e apontou os Alpes australianos e a Ilha Sul neozelandesa como as duas que devem perder neve mais rápido até o fim do século. Num cenário de altas emissões, o número médio de dias com cobertura de neve deve cair 78% na Austrália e 51% na Nova Zelândia entre 2071 e 2100, as principais quedas entre todas as regiões estudadas.

A dimensão do problema chama atenção: os Alpes australianos cobrem mais de 12 mil quilômetros quadrados e sustentam economias regionais inteiras em torno de complexos como Perisher, Thredbo, Falls Creek e Mount Hotham. Pela regra histórica do setor, uma estação de esqui precisa de cerca de 100 dias de neve por ano, em pelo menos sete de cada dez invernos, com uma cobertura mínima de 30 a 50 centímetros, para se manter viável.

Nos cenários de baixa emissão do próprio estudo, nenhuma das sete regiões analisadas cairia abaixo dessa marca até 2100, o que os autores citam como o principal argumento para reduzir emissões agora, em vez de simplesmente esperar pela adaptação. Parte do setor australiano já se move nessa direção, com mountain bike e outras atividades de verão ganhando espaço mesmo durante o inverno, e o capítulo local da organização Protect Our Winters mobilizando esquiadores e snowboarders em defesa do clima da região.

Os Jogos Olímpicos de inverno como termômetro da crise

Poucos eventos ilustram melhor o problema do que os próprios Jogos Olímpicos de inverno. Para viabilizar a edição de Milão-Cortina, em 2026, as autoridades italianas construíram grandes reservatórios de água perto das principais instalações, somando cerca de 16 milhões de metros cúbicos, destinados exclusivamente a alimentar a produção de neve artificial diante de um começo de temporada abaixo da média na região.

Um estudo conduzido pelos pesquisadores Steven Fassnacht e Sunshine Swetnam, da Universidade Estadual do Colorado, analisou as condições climáticas de 19 edições anteriores dos Jogos de inverno e projetou o que aconteceria com cada sede sob diferentes cenários de aquecimento. Na metade do século, mesmo no melhor cenário considerado pela ONU, cidades históricas como Chamonix (primeira sede, em 1924), Sochi, Grenoble e Garmisch-Partenkirchen deixariam de reunir condições climáticas adequadas para sediar a competição. Se as emissões de gases-estufa continuarem no ritmo atual, Squaw Valley e Vancouver entrarão nessa lista.

Sem neve garantida: como o aquecimento do planeta está redesenhando o turismo de inverno 1
Mudanças climáticas nas estações de esqui – outros pontos durante uma viagem contribuem para a emissão de carbono

Na década de 2080, o clima de 12 das 22 antigas sedes analisadas seria instável demais para os eventos ao ar livre, entre elas Turim, Nagano e Innsbruck. Uma análise à parte do próprio Comitê Olímpico Internacional, citada pela publicação especializada Sportcal, chega a um número ainda mais restrito: até 2040, apenas 10 países no mundo reuniriam condições climáticas para sediar esportes de neve.

O caso mais extremo até aqui foi Pequim 2022, primeira edição a depender de neve 100% artificial, com um consumo estimado em 185 mil metros cúbicos de água só para a fabricação de neve nas pistas. Manter viva a Copa do Mundo de esqui alpino, disputada todo ano em dezenas de estações, também tem custo: preparar uma pista de competição com neve artificial pode consumir entre US$ 500 mil e US$ 3,5 milhões por temporada, segundo estimativas do setor citadas pela Sportcal.

O Comitê Olímpico Internacional já reconhece publicamente que as mudanças climáticas vão condicionar o formato dos Jogos de inverno, que podem se restringir a sedes mais ao norte, como Calgary, ou migrar para altitudes maiores, à medida que o número de locais tecnicamente aptos a receber a competição encolhe.

Canhões, neve estocada e pistas secas: as apostas da indústria

A fabricação de neve artificial não é mágica nem apenas uma questão de baixar a temperatura. O fator decisivo é a chamada temperatura de bulbo úmido, que combina temperatura do ar e umidade relativa e determina se as gotículas de água lançadas pelos canhões conseguem congelar antes de tocar o solo. É por isso que estações nos Alpes, nas Montanhas Rochosas e nos Andes conseguem produzir neve mesmo com o termômetro marcando entre 2 °C e 4 °C: a altitude elevada e o ar mais seco ampliam essa janela técnica de operação. Hoje, mais de 70% das pistas em mercados maduros dependem, total ou parcialmente, de neve fabricada para abrir a temporada.

Outras estações apostam em técnicas mais baratas, como o já citado snow farming de Corralco, ou em alternativas que dispensam neve de verdade. As pistas secas, feitas de escovas plásticas ou tapetes sintéticos, existem desde os anos 1950, quando o instrutor canadense Jacques Brunel patenteou o primeiro modelo. Após perder popularidade nas décadas de 1990 e 2000, o formato vive um novo crescimento: existem hoje mais de mil pistas secas em 50 países, incluindo instalações como a CopenHill, em Copenhague, construída sobre uma usina de incineração de lixo. Nos Estados Unidos, segundo a Agência de Proteção Ambiental do país, a temporada de neve no solo já encolheu mais de 15 dias desde 1955.

Há ainda a diversificação. No Chile, a subsecretária de Turismo, María Paz Lagos, defende publicamente que o setor caminhe para um modelo de quatro estações, onde as montanhas permaneçam ativas o ano todo, e não apenas durante os meses de neve. É a mesma lógica por trás das trilhas de mountain bike em Nevados de Chillán ou da reconversão de Farellones: transformar um negócio dependente de um único fenômeno natural, cada vez mais imprevisível, em algo que resista mesmo num inverno seco.

O que isso muda para quem viaja atrás da neve

Para quem planeja uma viagem de esqui, seja para os Andes, para os Alpes ou para as montanhas do Japão, a lição prática é simples: neve garantida deixou de existir. Estações de maior altitude e equipadas com canhões modernos tendem a manter operação mais estável, mas até elas dependem de janelas cada vez mais estreitas de frio suficiente para fabricar neve. Datas de abertura e fechamento, que antes seguiam um calendário previsível, agora oscilam de um ano para o outro, e cancelamentos de última hora deixaram de ser exceção.

O inverno de 2026 no Chile tem demonstrado como isso se traduz no dia a dia. Em algum ponto entre um inverno perfeito e um inverno seco, o esqui como conhecemos está sendo reescrito, e quem viaja atrás dele vai precisar de mais flexibilidade, e talvez de menos expectativa de encontrar sempre a paisagem branca dos cartões-postais.

Sem neve garantida: como o aquecimento do planeta está redesenhando o turismo de inverno 2
Mudanças climáticas nas estações de esqui – Os turistas devem observar seus impactos a cada escolha durante suas férias

Por que as estações de esqui estão perdendo neve?

Porque o aquecimento global reduz a frequência de invernos frios o bastante para acumular neve natural. Um estudo publicado na Nature Climate Change mostra que, a 2 °C de aquecimento, 53% das estações de esqui europeias correm risco muito alto de escassez de neve; a 4 °C, esse número sobe para 98%.

Vai ter neve para esquiar no Chile em 2026?

O inverno de 2026 começou com déficit de neve na região metropolitana de Santiago (cerca de 90% das pistas fechadas em julho, segundo a Aceski) e com atraso na abertura de Portillo e Valle Nevado. A situação muda a cada semana com as frentes frias; antes de viajar, vale checar a situação atualizada direto com a estação.

E Bariloche, na Argentina, é uma alternativa melhor?

Em 2026, o Cerro Catedral, em Bariloche, teve um começo de temporada mais forte que o Chile, puxado por um El Niño em fortalecimento. Isso não significa que a Argentina esteja livre das mudanças climáticas no longo prazo, apenas que a variabilidade natural do clima ainda pesa bastante temporada a temporada.

Quais regiões do mundo perdem neve mais rápido?

Segundo o estudo mais abrangente já feito sobre o tema (Mitterwallner et al., PLOS ONE, 2024), os Alpes australianos e a Ilha Sul da Nova Zelândia devem ter as maiores quedas na cobertura de neve do planeta até 2100: -78% e -51%, respectivamente, num cenário de altas emissões.

O Japão também está perdendo neve?

Depende do critério. O número de estações em operação caiu 40% desde 1999, principalmente por motivos econômicos e demográficos. Já a confiabilidade da neve em Hokkaido, medida pelo Savills Ski Resilience Index, segue relativamente forte, graças a nevascas vindas de massas de ar siberianas, embora a própria Savills alerte que isso pode não durar com o aumento da temperatura dos oceanos.

Neve artificial resolve o problema da falta de neve?

Ajuda, mas não resolve por completo. A neve artificial só se forma quando a chamada temperatura de bulbo úmido está baixa o suficiente, e sua produção consome bastante água e energia justamente quando as duas ficam mais escassas.

Quais estações de esqui já fecharam por causa das mudanças climáticas?

Na Suíça, 167 estações já encerraram atividades, a maioria abaixo de 1.600 metros de altitude. Na França, a Grand Puy (Seyne-les-Alpes) fechou definitivamente em 2024 após referendo, e mais de 180 estações francesas encerraram atividades desde os anos 1970. No Japão, o número de estações ativas caiu 40% entre 1999 e 2025.

Os Jogos Olímpicos de Inverno estão em risco por causa do clima?

Sim. Estudos citados pelo Comitê Olímpico Internacional apontam que, até 2040, só cerca de 10 países reuniriam clima adequado para sediar esportes de neve, e que cidades históricas como Chamonix e Sochi podem deixar de ter condições para isso já na metade do século.