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Lalibela: o solo sagrado da Etiópia

Há quase 800 anos, essa Jerusalém etíope (construída com a ajuda de anjos) surpreende seus visitantes.

por Gabe Britto outros artigos do autor
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Michelangelo dizia que as esculturas já estão dentro dos grandes blocos de pedra em que são feitas e que cabe ao escultor tirá-las de lá.

Muitos anos antes da existência do artista italiano, um rei etíope foi além e retirou não apenas esculturas, mas igrejas inteiras, não de blocos de mármore, mas de rochas gigantescas pregadas no solo do seu reino. O resultado foi um conjunto de maravilhas indescritíveis, que confundem quem ainda não viu ao vivo e deixam atônito quem tem o privilégio de chegar perto delas.

Esqueça Petra. Esqueça Madain Saleh. Esqueça a Capadócia e qualquer cidade construída em cavernas. Nenhuma delas se compara a Lalibela, a maior e mais mágica joia da coroa que é a Etiópia.

Índice:

Introdução a Lalibela

A região onde hoje fica a Etiópia já foi dividida em vários reinos. Entre os anos de 1137 e 1270, um desses reinos foi comandado por uma dinastia chamada Zagwe, cujo monarca mais famoso tinha o nome Gebre Mesqel Lalibela.

O que aconteceu durante esses 133 anos de domínio Zagwe ainda é um mistério para os historiadores, porque não há escrituras sobre a época. Mas se os seus antecessores e sucessores não deixaram vestígios, o rei Lalibela definitivamente fez algo memorável para a posteridade: as primeiras das 11 igrejas que hoje formam um conjunto de valor inestimável para a humanidade, todas escavadas em rochas, do nível do chão para baixo.

Igreja Sao Jorge, Lalibela, Etiópia
Igreja de São Jorge: esculpida no chão

Como em qualquer obra tão incrível feita há tanto tempo, a construção das igrejas de Lalibela é cercada de lendas.

Uma é sobre o tempo que levou para que elas ficassem prontas. Segundo os mais fiéis, foram apenas 23 anos, porque anjos trabalhavam à noite, enquanto os milhares de operários descansavam do serviço do dia – uma versão obviamente não aceita por estudiosos, até porque os estilos das igrejas são de diferentes épocas, indo bem além do reinado de Lalibela.

Outras duas lendas giram ao redor do motivo pelo qual elas foram construídas.

Na versão focada na racionalidade, o rei queria construir ali uma nova Jerusalém, para que seus súditos não precisassem morrer caminhando e enfrentando perigos nas suas peregrinações até a Terra Santa.

Já na versão mágica, o rei foi envenenado por um irmão e, durante o período em que ficou entre a vida e a morte, recebeu uma ordem de Deus para construir a nova Jerusalém nos seus domínios. No fim acabou recuperado e tocou em frente as ordens divinas.

Igreja Abba Libanos, em Lalibela, Etiópia

Seja já qual for a sua versão preferida, a verdade é que o rei Lalibela deu início a obras que são inacreditáveis tanto pela grandiosidade e pela ousadia de construir prédios escavando o chão, quanto pela beleza e pela riqueza de detalhes retirada daquelas rochas.

Maravilhas que estão no patamar (ou além) de Petra, Machu Picchu, Angkor Wat e tantos outros lugares mágicos do planeta e que todos nós deveríamos ter a chance de conhecer de perto.

O que fazer em Lalibela

Não tem mistério: apesar de existirem outras igrejas e também mosteiros nos arredores de Lalibela e apesar da região ser boa para trekkings, as atrações da cidade se restringem às 11 igrejas escavadas nas rochas mesmo. O resto é extra para pessoas com interesses especiais nessa área.

Aliás, é importante esclarecer: vários guias e sites colocam que existem 12 igrejas em Lalibela, enquanto outros tantos colocam que existem 11. Essa confusão acontece por causa das igrejas Golgotha e Mikael, que podem ser consideradas um único conjunto ou duas igrejas separadas, dependendo da interpretação de cada pessoa. Como referência, saiba que a Unesco considera que são 11.

  • Bet Medhane Alem (Igreja Casa do Salvador do Mundo)
  • Bet Maryam (Igreja de Maria)
  • Bet Golgotha & Bet Mikael ou Bet Debre Sina (Igreja do Monte Sinai)
  • Bet Meskel (Igreja da Cruz)
  • Bet Danaghel (Igreja das Virgens)
  • Bet Uraiel
  • Bet Amanuel (Igreja de Emanuel)
  • Bet Merkorios
  • Bet Abba Libanos
  • Bet Gabriel-Rufael (Igreja de Gabriel e Rafael)
  • Bet Giyorgis (Igreja de São Jorge)

As igrejas são separadas em dois grupos: o grupo noroeste (as 6 primeiras da lista acima) e o grupo sudeste (as 4 seguintes).

A última, Bet Giyorgis (Igreja de São Jorge), fica isolada e é a mais impressionante de todas. Ela dá a noção exata do colosso que são as igrejas de Lalibela. Não esqueça de subir no pequeno morro que fica ali perto e, por Deus, tome cuidado ao caminhar nas suas bordas. Cair dali é um acidente bem sério.

Igreja de São Jorge, em Lalibela, Etiópia

É possível visitar tudo sem acompanhamento, mas recomendo que você contrate um guia para explicar detalhes e dar boas dicas, e também que contrate uma figura ímpar de Lalibela: o guardador de calçados, que zela pelos seus sapatinhos enquanto você visita o interior das igrejas (onde só é permitido entrar descalço).

Por que você precisa disso? Na verdade, não precisa. Talvez ninguém leve os seus sapatos e dá para saber as histórias das igrejas lendo livros. Mas a cidade é uma das mais pobres da Etiópia e os preços cobrados por esses profissionais são normais ou irrisórios (20 USD pelo guia, 1 USD pelo guardador de calçados), então é legal dar uma ajuda.

Igreja Bet Medhane Alem, em Lalibela, Etiópia
Igreja Bet Medhane Alem: protegida por uma cobertura colocada pela Unesco

O ingresso para entrar na área também dá direito a visitar o museu que fica dentro do complexo. Apesar de pequeno e desorganizado, ele tem relíquias que merecem ser vistas.

Sacerdote em Lalibela, Etiópia

Igrejas de Lalibela

  • Endereço: não há endereço, peça orientações no local ou no seu hotel
  • Horários: todos os dias, das 8h às 12h30 e das 13h30 às 17h; fecha em dias festivos
  • Ingressos: 50 dólares, que podem ser pagos também no equivalente em birres; ingressos válidos por 5 dias; leve o número do seu passaporte anotado ou uma cópia dele

Onde ficar em Lalibela

O ideal é procurar um lugar perto das igrejas, caso queira ir caminhando até elas. Mas se o seu hotel ficar um pouco afastado, não se preocupe: ele certamente vai ter algum serviço para levar e buscar você no seu dia de passeio.

Importante: não espere nenhum luxo em Lalibela, mesmo que você esteja no hotel mais caro da cidade. Tudo por lá é muito simples. Se sua hospedagem tiver um aspecto decente, já pode ficar satisfeito.

Ah, não conte com internet nos hotéis também. Eles podem até ter, mas provavelmente vai ser muito lenta.

Feitas as ressalvas, vamos à minha recomendação: Hotel Roha, um lugar excelente dentro das possibilidades lalibelianas.

Hotel Roha, Lalibela, Etiópia

Os quartos são simples, mas têm tudo que qualquer ser humano normal precisa para passar uma ou algumas noites – e não me refiro ao wi-fi. O café da manhã também é simples, mas bom e suficiente para você não passar fome por várias horas.

O melhor do Roha, porém, é o terraço (ou laje mesmo). Dali, você enxerga a maravilhosa Igreja de São Jorge, junto com o horizonte montanhoso da região. Não deixe de pedir uma cervejinha no pôr do sol nem esqueça de acordar cedo para ver o amanhecer e os primeiros fiéis caminhando pelas igrejas. É de chorar (sério: leve um lencinho).

Nascer do sol em Lalibela, Etiópia

Onde comer em Lalibela

Como a minha passagem foi rápida, acabei fazendo uma única refeição fora do hotel, no restaurante Seven Olives.

O ambiente é perfeito e a comida é deliciosa. Se você ainda não tiver experimentado a comida etíope, prove a opção onde vários tipos de molhos vêm servidos sobre a injera, uma espécie de “panqueca” tradicional feita com uma farinha local chamada tef . Não esqueça de pedir algo refrescante para beber, porque a pimenta é onipresente e muito malvada. E para os vegetarianos, existe uma opção do mesmo prato sem carnes.

Vale avisar que o Seven Olives também é um hotel, mas não é considerado muito bom nesse ramo. É melhor você ficar só no restaurante.

Para finalizar: por amor ao rei Lalibela, separe um cantinho do seu estômago para o café no final da refeição. Você está na Etiópia, a terra dessa bebida.

Seven Olives

  • Endereço: na mesma rua da entrada do complexo das igrejas
  • Horários: diariamente das 6h às 22h
  • Faixa de preço: pratos principais entre 40 e 175 birres (de 1,50 a 6,50 dólares)

Injera no Seven Olives, em Lalibela, Etiópia

Quando ir para Lalibela

As temperaturas em Lalibela são bem diferentes do que o senso comum espera do país, mantendo uma média bem agradável ao longo de todo o ano, sem grandes máximas e até com chances de frio à noite.

Já na questão da chuva, a época de precipitações começa em maio e vai até setembro, com julho e agosto liderando os dias feios.

Outubro é considerado o melhor mês, com temperaturas boas, sem chuvas e sem seca total.

Para ver as maiores celebrações religiosas em Lalibela, marque a sua viagem para as épocas do Leddet (o Natal etíope, entre 6 e 7 de janeiro) ou da Fasika (a Páscoa etíope, entre março e abril). A celebração do Timkat (o batismo de Cristo, entre 19 e 20 de janeiro) também é boa, mas Lalibela não é o melhor lugar do país para acompanhar a festa.

Por do sol em Lalibela, Etiópia

Quanto tempo ficar em Lalibela

Para fazer tudo com calma, reserve ao menos dois turnos inteiros para conhecer as igrejas.

Para os mais apressadinhos, dá para encaixar Lalibela num quase-bate-volta desde Adis Abeba mas vai ser corrido, extremamente cansativo e – na minha opinião – um desperdício.

Se ainda assim você quiser fazer essa “aventura”, tenha em mente que vai precisar de pelo menos uma tarde inteira para correr pelas igrejas.

Como chegar em Lalibela

Se a sua viagem começar em Adis Abeba (a capital do país), o jeito mais rápido e confortável de ir para Lalibela é voando com a Ethiopian Airlines, que tem alguns voos diretos e diários entre as duas cidades. O trecho normalmente é feito em 1h, num pequeno (mas seguro) Q400 da Bombardier, um turboélice.

O aeroporto de Lalibela (código LLI) é pequeno e simples. Para você ter uma ideia, os passageiros costumam pegar suas malas direto do carrinho que leva a bagagem do avião para o terminal.

Para ir do aeroporto até o hotel, o melhor é contratar um transfer (se o seu hotel não oferecer automaticamente).

Ah, para ir do Brasil à Etiópia, é óbvio que a melhor opção é a Ethiopian Airlines, que tem voos diretos de São Paulo. Veja o review da viagem com a companhia.

Como é voar de Ethiopian Airlines - 01

Como se locomover em Lalibela

Dependendo da localização do seu hotel, você pode ir até o complexo das igrejas a pé. Caso esteja mais longe, seu hotel certamente vai providenciar algum meio de transporte.

Moeda na Etiópia

A moeda etíope é o birr, abreviado internacionalmente como ETB. Ele pode ser facilmente comprado com dólares e com euros. Como referência, 1 birr = 0,0362 dólares.

Dinheiro e cartões de crédito em Lalibela

Existem caixas eletrônicos e bancos em Lalibela, mas o melhor é chegar na cidade com tudo que você vai precisar usar na moeda local e não esperar encontrar máquinas de cartão de crédito.

Se for complicado chegar até um caixa eletrônico ou um banco, troque no seu hotel. A cotação não vai ser boa, é claro, mas o país é barato e você nem vai sentir. Além do mais, perder um pouco faz parte em determinadas situações.

Para trocar moeda, leve seu passaporte.

Cruzes de Lalibela

Segurança em Lalibela

No geral, a violência na Etiópia é menor do que no Brasil (segundo o Global Peace Index).

Não há nada a temer na área das igrejas, apenas tome aquele cuidado básico com carteiras e objetos de valor, principalmente em momentos de distração e aglomeração.

Nas outras áreas e em outros horários do dia, use o bom senso.

Visto para a Etiópia

Brasileiros precisam de visto, mas ele pode ser solicitado no aeroporto. Veja as informações no post com o review de voos com a Ethiopian Airlines.

Como é voar de Ethiopian Airlines - 10

Língua

A língua local é o amárico, mas pessoal que lida com turismo fala inglês e muitos mandam bem até no espanhol. Vá sem receio.

Fiel lendo a Bíblia em amárico, a língua da Etiópia
Fiel lendo a Bíblia em amárico, a língua da Etiópia

Dicas gerais sobre a Etiópia

  • O horário no país é diferente de tudo que você já viu. Cada hora de cada turno (manhã e noite) é contada a partir do que seriam, para nós, 6h e 18h. Dessa forma, 1h da manhã é o que nós consideramos 7h da manhã; 5h da manhã é o equivalente a 11h para nós. Do mesmo jeito, 3h da noite são 21h para nós e 8h da noite são 2h da madrugada no nosso relógio.
  • O calendário também é diferente. Os etíopes consideram que estão no ano 2010, porque seguem o calendário juliano, enquanto nós seguimos o gregoriano.
  • Não leve drones para a Etiópia sem pedir autorização do governo. Você pode ter o seu equipamento confiscado.
  • Os etíopes costumam não comer carne às quartas-feiras.

O Sundaycooks viajou a convite da Ethiopian Airlines e do Departamento de Turismo das Filipinas.

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