Colônia, a duas horas de Montevidéu, tem uma rota que troca o mapa de vinícolas por queijarias, chamada de Ruta Del Queso de Colonia, ou Rota do Queijo no Uruguai, para os mais íntimos.
Entre campos, vacas pastando e queijarias tocadas pela mesma família há gerações, o leste de Colônia guarda um roteiro que ainda escapa do radar do viajante brasileiro. E ele fica ainda melhor com uma taça de Tannat na mão.
Bem longe da badalação de Punta del Este ou da agitação de Montevidéu, o Uruguai guarda uma de suas tradições mais gostosas de descobrir: a produção de queijo. A ideia de reunir as queijarias de Colônia em um roteiro nasceu em 1996, mas só saiu do papel quase 30 anos depois.

Queijos uruguaios: uma tradição de mais de 160 anos
O queijo chegou à Colônia bem antes de o asado virar sinônimo de Uruguai. Em 1861, imigrantes suíços, alemães, austríacos e alsacianos, fugindo de perseguições religiosas e políticas na Europa, se instalaram no leste do departamento e fundaram colônias como Nueva Helvecia e Colônia Valdense. Eram famílias que já tiravam leite e faziam queijo desde crianças e trouxeram para o campo uruguaio um jeito de trabalhar a terra que atravessou os séculos intacto.
No século XX, a criação do Instituto Nacional de Colonização, em 1948, ajudou a fixar essas famílias e a sustentar a produção ao longo das gerações seguintes. Hoje, o Uruguai soma cerca de 800 produtores de queijo artesanal, a maior parte concentrada nos departamentos de Colônia e San José, a região que a Rota do Queijo atravessa.
Queijo, vinho e doce de leite: o trio é a cara do Uruguai
Os uruguaios têm uma tradição de servir o Queso Colonia, cuja massa semidura tem aqueles “olhos” característicos de fermentação, acompanhado de dulce de membrillo, numa combinação tão clássica que ganhou até nome próprio: o postre Martín Fierro (e lembra um pouco o nosso Romeu e Julieta mineiro). E não para por aí: queijo com doce de leite, espalhado sobre uma torrada ainda quente, é irresistível.
Um Tannat encorpado, uva que virou quase sinônimo do país, casa bem com os queijos mais curados e de sabor mais fechado. Já os queijos mais jovens e cremosos preferem companhia mais leve, como um alvarinho suave. Reserve espaço na mala, porque dessa vez você vai voltar do Uruguai carregando muito mais do que vinho e doce de leite.

Rota do queijo: um roteiro que levou quase 30 anos para nascer
A vontade de transformar essas queijarias em roteiro não é de agora: a ideia surgiu em 1996, mas a virada veio em 2023, quando um grupo de produtores da região solicitou apoio à Associação Turística Departamental de Colônia, que chamou o Centro Pyme de Colônia para desenhar essa rota do zero. Em agosto de 2024, a marca Ruta del Queso foi apresentada, batizando oficialmente o que os moradores da região já viviam há gerações.
Quem faz parte da Rota do Queijo no Uruguai
A Rota do Queijo cobre cidades pequenas ao leste de Colônia, como Nueva Helvecia, Colônia Valdense, Rosario, Villa La Paz e Colônia do Sacramento, somando mais de 25 negócios entre queijarias, pontos de venda e serviços de apoio. Entre os nomes que já recebem público estão Landkäse, Naturalia, Nicant, La Positiva, Dufau, Granja 109, La Cremerie, La Cumbre, Los Criollitos, Vinoteca de la Colônia, Honegger, Los Fundadores e La Vigna.
Cada parada tem um jeito de receber. Tem queijaria que abre a produção para uma volta guiada, explica o passo a passo da cura e deixa você provar direto da peça recém-cortada. Tem a que reserva o encontro para uma degustação com pão caseiro, geleias e vinho da região. E tem aquela que serve almoço completo, com o queijo como fio condutor do cardápio, da entrada à sobremesa.
Queijos típicos do Uruguai
Sou uma grande entusiasta da boa mesa e, em 2024, passei quase duas semanas no país visitando diversas vinícolas e restaurantes diferentes. Fiquei muito surpresa por descobrir apenas agora a Rota do Queijo e os queijos típicos uruguaios. Já guarde esses nomes e não deixe de prová-los quando visitar nosso vizinho.
O Queso Colonia é o mais consumido no país e o que melhor representa a região: massa semidura, com aqueles “olhos” que aparecem durante a fermentação, criado ainda em 1861 pelos primeiros colonos suíços.
Já o Queso Yamandú nasceu na Escola de Laticínios de Colônia e viveu seu auge nos anos 1950. Foi a Granja La Cumbre (uma das paradas da rota, em Nueva Helvecia) que tipificou a receita em 1968, e é esse o queijo que acompanha o dulce de membrillo no postre Martín Fierro.
O Queso Zapicán tem formato de paralelepípedo, pesa cerca de 2 quilos sendo feito por queijarias como a Landkäse, em Barrancas Coloradas (outro nome que você já viu na lista de paradas da rota).
Tem também o Queso Chester, de origem inglesa, mas com uma história bem uruguaia: em 2019, um dos herdeiros da Granja La Cumbre encontrou o caderno de receitas do bisavô, de 1921, e resgatou uma fórmula quase esquecida. Levemente picante e cremoso, matura envolto em tecido por pelo menos três meses.
E para quem gosta de sabores mais marcantes, vale procurar os queijos de cabra da região. A La Vigna, também na rota, é uma das queijarias que trabalha com leite caprino, ao lado de nomes como Cerro Negro e La Chèvre Blanche.
Se a viagem render um pouco mais de estrada, vale saber que Paysandú, mais ao norte, tem o Queso Termal maturado nas águas termais salgadas de Almirón, descobertas por acaso nos anos 1940, quando uma perfuração em busca de petróleo encontrou água quente em vez de combustível.

Como visitar a Rota do Queijo no Uruguai
Onde fica a Rota do Queijo no Uruguai? Entre Nueva Helvecia, Colônia Valdense, Rosario, Villa La Paz e Colônia do Sacramento, a cerca de 120 quilômetros de Montevidéu. (Se a sua viagem começar pela capital, indico o Soho Hotel).
Horário: cada queijaria define seus próprios dias e turnos de visita; a maioria funciona de terça a domingo
Valor: degustações avulsas costumam ficar entre 5 e 15 dólares por pessoa; passeios guiados com refeição têm valor à parte, combinado direto com cada produtor
Transporte: não há transporte público entre as paradas. O mais prático é alugar um carro em Colônia do Sacramento ou Montevidéu, ou contratar um passeio guiado.
Reservas: pelo perfil oficial da rota no Instagram ou direto com cada queijaria, com alguns dias de antecedência

Como planejar sua visita
Reserve pelo menos um dia inteiro para o roteiro. Entre uma parada e outra, as estradas de terra e os campos do leste de Colônia já valem a viagem, mesmo antes de você chegar à primeira parada.
Leve dinheiro em pesos uruguaios ou dólares para garantir a compra e a degustação sem contratempo.
O verão puxa o movimento na região, sobretudo de visitantes argentinos, então primavera e outono costumam ser as estações mais agradáveis para rodar de queijaria em queijaria sem pressa.
Como o roteiro ainda está em formação, o caminho mais seguro é confirmar os horários direto com cada produtor antes de sair. Reserve uma noite ou mais em Colônia do Sacramento ou Nueva Helvecia e aproveite o pôr do sol no campo, com queijo, pão e uma taça de vinho por perto.
Se preferir sair do Brasil com tudo organizado, encontrei duas opções de passeios pela região que podem ser reservadas direto com a Get Your Guide:
- Rota do Queijo: Descubra o Patrimônio Suíço e os Queijos Artesanais
- Rota do Queijo: Visita à Granja La Cumbre e Degustação de Queijos Artesanais
Colônia de braços dados com o México
Em abril de 2026, esse pedaço de campo uruguaio ganhou um parceiro mais ao norte. Em Colônia Valdense, autoridades uruguaias e mexicanas lançaram o projeto Ruta del Queso de Colônia e Cotija, uma cooperação entre o departamento de Colônia e o estado de Michoacán, no México, unindo duas tradições queijeiras nascidas de histórias parecidas: produção de família, ligada à terra, passada de geração em geração.
Cotija de la Paz é um povoado mexicano reconhecido como Pueblo Mágico e dá nome a um queijo firme, esfarelento e envelhecido, apelidado por lá de parmesão mexicano. A parceria vai bancar a troca de conhecimento entre produtores dos dois países até 2027, com atenção especial à participação das mulheres nas queijarias e no turismo rural das duas regiões.

Saber como ir de Montevidéu para Buenos Aires antes de sair do Brasil é a melhor forma de aproveitar duas viagens em uma.

Terra do doce de leite e do churrasco, Montevidéu é o destino perfeito para uma escapada de final de semana ou feriado prolongado.

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