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É seguro voar de avião durante a pandemia de Covid-19?

Risco é baixo, mas não inexistente

por Guilherme Almeida outros artigos do autor
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O avanço das campanhas de vacinação contra a Covid-19 ao redor do mundo tem aumentado a demanda por viagens. Nesse cenário, é possível que você esteja considerando retomar, finalmente, aqueles planos que foram adiados. Ainda assim, é preciso pensar em todas as variáveis que envolvem uma viagem, mesmo que num cenário de ligeiro otimismo e retomada. Mas será que é seguro viajar de avião durante a pandemia? Vamos aos fatos.

É mesmo seguro viajar de avião durante a pandemia de Covid-19?

Uma das principais questões que surgem nesse momento diz respeito à segurança dos voos. Infelizmente, não há uma resposta tão definitiva quanto gostaríamos para a pergunta “É seguro voar?”. Uma versão curta seria “depende”, enquanto uma otimista, diria “sim”.

Sendo mais específico, quando falamos nos riscos associados aos voos, estamos falando sobre a disseminação do ar dentro da aeronave. O sistema de ventilação de um avião cria um ambiente relativamente seguro, mas há alguns senões que podem aumentar o risco.

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Simulação

O jornal norte-americano, The New York Times, fez um infográfico simulando um voo em um Boeing 737 NG que evidencia a quais riscos estamos sujeitos durante uma viagem de avião.

Trata-se, nesta simulação, de um avião de corredor único, em que os passageiros respiram um ar que é metade fresco e metade reaproveitado. Para entendermos melhor: o ar que respiramos vem de dutos superiores na cabine. Parte dele é sugado por aberturas próximas ao piso – daí, metade é descartada da aeronave e a outra é filtrada e enviada de volta à cabine.

Ao NY Times, especialistas indicaram que essa atualização do ar ocorre a cada dois ou três minutos, o que é uma média maior do que a de outros espaços internos. Outro ponto relevante dessa renovação de ar é que ela funciona em um sistema que mescla o ar que já está na cabine com o ar que entra pelos dutos, evitando que existam bolsões de ar, digamos… “velho”.

Apesar disso tudo – como fica claro no infográfico do jornal –, quando uma pessoa espirra, diversas partículas saem pelos cantos da máscara. Aí começam os problemas. Normalmente, escapam da proteção apenas partículas pequenas e com pouca carga viral. Mas se os passageiros próximos estiverem sem máscara, comendo um lanche ou bebendo água, as chances de inalar o vírus aumentam.

É seguro voar de avião na pandemia de covid-19?

Elevação do risco ao manipular a máscara para comer, beber ou ir ao banheiro

Nesse sentido, Timo Ulrichs, epidemiologista e professor da Universidade Akkon (Berlim, Alemanha), afirmou ao jornal alemão DW que a cada momento em que uma máscara é removida em um avião – seja para comer ou beber – o risco de infecção cresce. E segue aumentando enquanto durar o período sem máscara.

Numa viagem simulada, pensamos em situações ideais, em que todos os envolvidos estão fazendo o máximo possível para não se descuidarem. Mas temos de lembrar que, durante um voo, estamos lidando com pessoas reais, que podem se frustrar e tirar a máscara, fazer mau uso da proteção, manipulá-la indevidamente etc. Falar alto – com alguém da equipe de bordo, por exemplo – também aumenta a chance de emitir partículas com carga viral.

Podem ser problemáticas, ainda, as idas ao banheiro durante os voos. Teoricamente, é seguro, afinal o sistema de ventilação é o mesmo utilizado em toda a aeronave. Porém, se alguém utilizou o ambiente antes de você, sem máscara, pode ser que partículas com carga viral ainda estejam no ar.

Há um estudo, publicado em novembro de 2020, que leva a crer que houve uma infecção exatamente assim em um voo entre a Itália e a Coreia do Sul. Os pesquisadores relataram que havia seis passageiros infectados com coronavírus, mas assintomáticos, no avião. E que além deles, somente um passageiro foi infectado: uma mulher de 28 anos que utilizou máscara em todo o voo, exceto no banheiro – que foi compartilhado com pessoas próximas, incluindo um dos assintomáticos.

Recomendações para viagens de avião durante a pandemia de Covid-19

Se for realmente necessário viajar, use máscara PFF2 / N95 o tempo todo e tente manter distância dos demais. A recomendação dos especialistas é evitar retirá-las mesmo para comer e beber. Se isso não for possível, veja se as pessoas ao seu redor estão utilizando máscaras. Pedir educadamente para que coloquem pode ser a solução caso não estejam.

Ao DW, Leonard Marcus, diretor da Iniciativa de Saúde Pública em Aviação da Harvard, também recomenda que os passageiros mantenham sempre a saída de ar acima da poltrona ligada. Ele se baseia em um estudo publicado pela Universidade de Oxford que diz ser essa uma forma de “melhorar o conforto da viagem, a qualidade do ar e de diminuir a transmissão de partículas entre pessoas”.

Lembrem-se: estar em casa, em isolamento social quando possível, é a forma mais segura de se proteger da COVID-19. Além disso, é importante ter em mente que, ao viajar, você pode colocar em risco também outras pessoas do seu convívio e com quem terá contato durante os trajetos.

Aeroporto internacional de Amsterdam

Riscos dos aviões ainda em solo

Falamos dos riscos durante o voo, em que a filtragem de ar minimiza a possibilidade de transmissão da doença, mas há uma complicação ainda maior que pode surgir durante as viagens enquanto o avião ainda está no chão. Nesse momento, a aeronave está com a sua unidade de potência desligada (logo, também o sistema de refrigeração) e pode estar sem um sistema de ar-condicionado, especificamente para uso no solo, funcionando.

À Wired, David Freedman, pesquisador de doenças infecciosas na Universidade do Alabama, afirmou que se um avião deixa o portão, mas se atrasa para começar o processo de decolagem, a aeronave pode ficar cinco ou dez minutos sem o sistema de ar mais adequado, uma vez que a maioria dos aeroportos não permite que as unidades de potência funcionem quando os aviões estão próximos aos portões.

Há um relato de caso, divulgado em publicação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos em março deste ano, que ressalta o risco do avião no chão sem ar-condicionado adequado. Os pesquisadores analisaram um voo de Dubai (Emirados Árabes) a Auckland (Nova Zelândia). Usando sequenciamento genômico, eles descobriram que quatro passageiros foram infectados durante a viagem por outros dois passageiros.

O voo fez uma parada de duas horas em Kuala Lumpur (Malásia) para reabastecer, sem entrada ou saída de passageiros. O avião, entretanto, ficou inoperante por cerca de 30 minutos, o que significa que o controle do ar da cabine esteve desligado por esse tempo.

Além das aeronaves, há riscos nos entornos. Para voar, precisamos, veja você… ir a um aeroporto! E todos nós sabemos bem que estes são espaços de filas, aglomeração, toques, painéis touchscreen etc. Vivemos, claro, um momento em que a baixa demanda diminui também o número de pessoas nos aeroportos, mas ainda se trata de um local com riscos consideráveis.

O tempo dispensado em filas e em terminais nos aeroportos – e, por consequência, a chance de contato próximo com outras pessoas ou de tocar superfícies contaminadas – é uma das justificativas que embasam a recomendação CDC para que viagens internacionais sejam adiadas até que os indivíduos estejam plenamente vacinados.

O órgão diz, ainda, que o distanciamento social é difícil de ser mantido em aeroportos movimentados e em voos cheios e que se sentar a menos de dois metros de distância de outros, às vezes por horas, pode aumentar o risco de contrair Covid-19. Além disso, para chegar ou deixar aeroportos, muitos utilizam transporte público ou compartilhamento de caronas, o que pode aumentar a exposição ao vírus, na avaliação do CDC.

O assento do meio nas aeronaves

Nas últimas semanas, os assentos do meio têm sido objeto de discussão nos Estados Unidos, uma vez que em maio de 2021, um estudo publicado pelo CDC indicou que:

  • 75% dos passageiros que se infectaram em voos estavam sentados em uma ou duas fileiras de distância de quem embarcou com o vírus;
  • O risco de exposição ao coronavírus reduz entre 23% e 57% (a depender da configuração da aeronave), se os assentos do meio estão vagos.

Nos Estados Unidos, desde 1º de maio deste ano, quando a Delta Air Lines passou a comercializar seus voos com capacidade completa, não há mais rotas com o assento central livre.

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O que recomendam as companhias internacionais

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês), que representa quase 300 companhias aéreas, define o risco de contrair Covid-19 em um voo, utilizando máscaras, como “muito baixo”.

Segundo a instituição, além do uso de máscaras e do sistema de renovação do ar mencionado, há outras razões para um número baixo de transmissões: a altura dos encostos dos bancos, que funciona como uma barreira para disseminação, e a posição dos passageiros, que se sentam olhando para frente e não diretamente para outra pessoa.

A IATA também diz ser improvável que algum passageiro infectado com coronavírus embarque em um voo, graças ao controle governamental dos países e às normas de biossegurança para viagens definidas por eles.

O pesquisador David Freedman, novamente em declaração à Wired, diz que a posição de algumas companhias áreas, de defender que não há chances de contaminação em voos, é irreal. “Não digo que o risco é alto. Ele é manejável e baixo, mas não é zero. Evite [voar] a não ser que seja impossível”, declarou à revista estadunidense.

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Recomendações das companhias aéreas no Brasil durante a pandemia

Além das recomendações básicas (distanciamento, uso de máscaras obrigatório, higienização, cartões de embarque virtuais etc.), as companhias aéreas brasileiras têm buscado inovações para atrair os viajantes. A Azul, por exemplo, adotou um sistema de raio ultravioleta que higieniza as aeronaves em menos de 10 minutos, auxiliando na eliminação de vírus e bactérias. Segundo a empresa, ela é a única da América Latina a usar a tecnologia, conhecida como UV Cabin System.

Como forma de evitar filas e aglomerações, a companhia também instituiu o Tapete Azul para auxiliar o embarque. Trata-se de uma fila virtual projetada no chão da área de embarque, com os números dos assentos indicando quem deve ocupar cada posição, no momento correto para cada passageiro. Assim, o embarque é feito em ondas, minimizando o contato entre pessoas no corredor.

Já a GOL, em dezembro de 2020, anunciou que seria a única companhia aérea nacional a ter uma certificação, emitida pelo Hospital Israelita Albert Einstein, acerca de suas ações para contenção do contágio da Covid-19 em suas aeronaves e ambientes. O selo foi emitido após um trabalho de consultoria do hospital que durou cerca de três meses, analisando os protocolos de saúde e segurança em relação à pandemia.

Todas as companhias também discriminam quais máscaras podem ser utilizadas durante os voos. Em geral, são aceitas as cirúrgicas, as N95 e KN95 (sem válvulas) e as de tecido duplo ou triplo. São proibidas máscaras com válvula, lenços ou máscaras de fios de lã, bandanas, protetores plásticos e face shield (quando usado de maneira exclusiva).

A Associação Nacional das Empresas Administradoras de Aeroportos (ANEAA) também recomenda o uso de máscaras e a utilização de totens de autoatendimento e check-in online. A instituição pede que o passageiro higienize as mãos antes e após a inspeção de segurança, mantenha distância mínima de um metro das outras pessoas, em todos os ambientes, e opte por se locomover aos aeroportos com transportes individuais, como carro próprio, táxi ou aplicativos.

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